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POLÍTICA

Florestania em evolução

Trajetória de vida de Binho Marques mostra sua preocupação com o ser humano e a produção

Juracy Xangai
Júlia Feitosa acompanhou
toda a trajetória política de Binho


Juracy Xangai

Companheira de todas as horas, a sindicalista Júlia Feitosa acompanhou o professor Binho Marques desde sua adolescência, a entrada no movimento estudantil, nas peças de teatro, nas pichações de rua, na universidade, nos seringais, onde faziam parceria com Chico Mendes.

Foi no movimento estudantil, sindicalista e comunitário, nas caminhadas pela floresta e seringais onde iam ensinar o “beabá” para seringueiros, que desenvolveram a sensibilidade dele para esse jeito de ser acreano.

Binho participou do processo de convencimento para que Jorge Viana entrasse no PT e depois para que fosse candidato, uma história que se constrói a cada dia com alguém voluntarioso que sempre gostou de ficar trabalhando e administrando as coisas nos bastidores, sem muito aparecer. Foi conduzindo e sendo levado por um trabalho de sucesso que o fez candidato ao governo do Estado sem nunca ter sido político de palanque.

Depois de morar dez anos no Rio de Janeiro - de 1970 a 1980 -, onde teve seus primeiros contatos com as organizações de esquerda brasileira que resistiam e lutavam contra a ditadura militar, Júlia voltava ao Estado num momento de plena efervescência política, na luta pela redemocratização do país com eleições livres, com liberdade política e partidária.

O Acre ainda vivia os efeitos da política expansionista do governo militar que, para transformar a Amazônia num lugar “desenvolvido”, facilitava o acesso a fazendeiros e assentava nos seringais os sem-terra vindos de todo o país. Isso sem considerar os direitos, usos e costumes dos seringueiros e índios que há gerações povoavam a floresta.

Apoiados por delegados corruptos - inclusive alguns membros do Judiciário -, fazendeiros e grileiros expulsavam, quando não matavam, seringueiros e índios para derrubar a floresta e fazer dela pasto.

“Fui estudar no antigo Ceseme, que hoje é o CEBRB, e como já tinha contatos com a esquerda comecei a trabalhar junto ao grêmio. Eu me dedicava mais aos grupos de jovens ligados à igreja, especialmente com o padre João, que atuava na área da Estação Experimental. Tínhamos em comum nossa luta contra a ditadura militar”, explica Júlia.

Arte e política

Nessa época, Júlia, José Donato, Carlos Alberto e Tristão Cavalcanti tocavam o projeto do Cine Clube Aquiry, que só apresentava filmes de conteúdo social. “Quando apresentamos o filme ‘Nós e Eles’, a Polícia Federal proibiu a exibição e exigiu que a gente fosse depor. Fomos. O Binho tinha uns 17 anos, só eu e o Tristão pudemos assinar o depoimento porque éramos maiores. Havia muita pressão”, recorda.

Foi justamente na Estação Experimental que, sensibilizados pela situação de risco social em que viviam as crianças atendidas pela Funbesa, fundaram dois grupos de teatro - o Fragmento, que tinha Júlia como integrante, e o Sementes, com Binho, ambos trabalhando peças de conteúdo social que visavam esclarecer a população sobre os problemas que afetavam a população brasileira.

“Nossa primeira peça foi alegria dirigida pelo Maués. Apoiávamos um o outro e, juntando as forças dos dois grupos, criamos o Teatro Orta, na área da Funbesa. Junto com o José Donato, Binho foi um dos principais no planejamento e uso do espaço, onde, além das peças de teatro, aconteciam apresentações musicais, poesia, exposição de artes plásticas, filmes e reuniões políticas, é claro”, lembra Júlia. “Binho era de pesquisar, planejar e sistematizar as coisas para que elas acontecessem, mas não era de subir no palco, só me lembro de ele ter se apresentado numa única peça. Já a Marina, que também fazia parte do grupo, era ótima atriz e fez diversas peças.”

Oficina da vida

Júlia Feitosa, Binho e Marina atuavam juntos naquela ação política e tinham em comum o fato de pertencer ao Partido Revolucionário Comunista (PRC), uma das organizações clandestinas de esquerda mais ativas da época. Entre as crianças atendidas pelo grupo estava o atual secretário dos Esportes, José Alício.

“Ali começou tudo, pois Marina, eu e Binho resolvemos fazer vestibular. Fomos aprovados juntamente com o Ariosto Miguéis, que também era do teatro Orta e hoje é delegado e tinha uma Kombi. Fizemos uma festa inesquecível. Já dentro da universidade começava nossa luta mais política, pois, como militantes do PRC, liderávamos tendência ‘Caminhando’, que enfrentava a ‘Viração’ comandada pelo pessoal do PC do B. Éramos adversários, mas tínhamos em comum a luta contra a ditadura, pela democratização do Brasil e especialmente pela melhoria da qualidade da educação”, recorda.

Primeira batalha

No primeiro mês em que entraram na universidade causaram uma greve geral dos alunos contra a decisão do então reitor, Áulio Gélio Aves de Souza. “Ele tinha demitido o professor Rômulo, do Departamento de História, acusando-o de ser comunista. E era mesmo. Mas nós decidimos reverter aquela situação porque ele era muito bom. A greve ganhou apoio dos estudantes dos outros cursos, fez barulho, mas a universidade não reviu a decisão. Só que aquilo serviu para juntar os alunos dos vários cursos e Binho sempre se destacava por suas propostas e idéias de solução dos problemas. Ele era o estrategista.”

Logo em seguida, outro protesto conseguiu o afastamento de um professor e de uma professora, cuja qualidade das aulas estava muito abaixo do esperado pelos alunos. “Sempre, desde o começo, fomos estudantes exigentes com a qualidade. Binho era quem elaborava nossos panfletos, jornaizinhos, desenhos, murais e pichações de manifestação política dentro e fora da universidade. Ele e o Brama, do PC do B, disputavam o primeiro lugar como pichadores pela beleza dos trabalhos que faziam.”

A universidade vivia um momento de efervescência política que duraria até o fim da década de 80. Suas disputas e debates tomavam as ruas, aliavam-se às lutas dos trabalhadores rurais, dos seringueiros, índios, sindicatos e movimento comunitário, atraíam a atenção de toda a sociedade.

“Ainda estávamos no período da ditadura, quase todo mundo era funcionário público e qualquer manifestação contra o governo acabava em demissão. Nós éramos estudantes, desempregados, íamos às ruas carregando faixas, fazíamos protestos denunciando abusos. Apesar de toda a repressão, a gente não podia ser demitido.”

Começa a abertura

Embora entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE) fossem clandestinas, a luta ia realizando conquistas e em 1982 acontecia a primeira votação para reitor da Ufac, com os alunos elegendo o professor Moacyr Fecury.

“Nessa época a gente havia ajudado a fundar e Marina era vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, que tinha Chico Mendes na liderança. Ele também era do PRC. A gente trabalhava pela revolução, continuamos revolucionários, mas amadurecemos e fizemos nossa revolução pela qualidade, por um Acre melhor para todos.”

Conceitos da floresta

Júlia lembra as longas caminhadas pela mata, as noites mal dormidas, nas quais ela, Binho e Chico Mendes passavam horas e horas conversando sobre a problemática que cercava os seringueiros e propunham a soluções e todas passavam pela educação.

Binho ajudava Chico a planejar seus projetos e suas ações políticas, ao mesmo tempo em que ia sendo criado um sistema de educação que atendesse as necessidades dos povos da floresta. A proposta sempre foi a de que a solução dos problemas deveria ser sustentada pelas pessoas dali. Assim, alfabetizamos seringueiros, que se tornaram professores de seus companheiros na floresta.”

Chico Mendes foi convidado para apresentar sua tese sobre a Amazônia durante o 3º Congresso Nacional da CUT. “Ele teria dez minutos para apresentar suas idéias sobre como defender os direitos dos trabalhadores da floresta. Mais que ecologista, Chico era um sindicalista que defendia os direitos e o modo de vida dos seringueiros e índios, os povos da floresta”, afirma Júlia, para quem Wilson e Chico perceberam que o seringueiro não admitia a idéia da cerca.

“Consideravam a floresta um espaço aberto e de uso da comunidade, que tira dali sua renda e seu sustento. Esse é um dos princípios fundamentais que levaria à proposta de criação das reservas extrativistas.”

O grupo logo percebeu que só a educação não resolveria seus problemas. Também precisavam de saúde, transporte e uma infra-estrutura de apoio que valorizasse a produção do seringueiro a fim de gerar renda com sustentabilidade social e ambiental. Para que as coisas acontecessem, era necessário organizar os seringueiros e fazer com que entendessem que nossa força estava na união de todos.

“Aquele era um momento de muitas ameaças e até assassinatos. Wilson Pinheiro morreu logo após afirmar que não permitiria a derrubada de mais nenhuma árvore da floresta. Os ‘empates’ deram muita força a essas ações coletivas e foram fundamentais na defesa da floresta e para a conquista da terra que deu origem às reservas extrativistas”, prossegue.

Essa proposta foi levada à plenária da CUT e sua apresentação como defesa do modo de vida dos povos da floresta, através da organização e da conquista da terra, ganhou simpatia das comunidades do Amapá, Pará e Maranhão, mas foi no Acre que ela ganhou corpo graças à capacidade de Chico e demais companheiros para se articular politicamente nos planos estadual, nacional e internacional.

“Nossa geração encampou aquela proposta do Chico e isso foi fundamental para evitar a ‘rondonização’ do Acre. Aquela idéia mudou a visão romântica que os sindicalistas da própria CUT tinham da Amazônia. Entenderam que se tratava de outra categoria de trabalhadores que interagiam harmonicamente com a floresta, então nossa luta ganhou apoios.”

Ideal cultivado

Júlia lembra que Binho chegou ao Acre muito criança, mas sua sensibilidade de artista e espírito revolucionário o levaram a se identificar com o que há de mais puro na alma do povo acreano.Chegaram à conclusão de que para expressarmos publicamente suas idéias e chegar aonde queriam, era necessário entrar na luta partidária, e optamos pelo PT”. Mas nem tudo foi tão simples assim: “Ainda hoje me lembro de que, quando ele passou para história, seu irmão me procurou para que ajudasse a convencê-lo a ir estudar na Bahia e a se afastar do PT, pois aquilo não tinha futuro”.

Reuniões intermináveis e conversas que viravam a noite contando com a participação de Chico Mendes, Binho, Júlia e muitos outros companheiros foram sendo purificadas até que conseguir captar o que era essencial no que desejavam e necessitavam os povos da floresta. “As idéias e propostas sinceras de muitos acabaram consolidando o conceito de florestania, ou seja, a cidadania da floresta, idéia que o mundo admira e que só poderia ter nascido no Acre.”

Luta partidária

Chico foi eleito vereador por Xapuri e depois candidato a prefeito. O Binho era seu coordenador de campanha e ficou mais de dois meses percorrendo os seringais com ele. “Marina ganhava destaque na política, em Rio Branco, Binho conseguiu convencer o Jorge Viana a se filiar ao PT, depois foi coordenador de sua primeira campanha ao governo e sua capacidade pessoal como articulador e administrador ia se destacando.”

Quando Jorge Viana foi eleito prefeito da capital, Binho estava atuando junto a uma ONG no Estado da Bahia, então o PT realizou uma campanha pelo retorno de seus militantes. Carlos Augusto, o “Cacá”, e Antônio Monteiro, que estavam no Rio de Janeiro, voltaram na mesma época. “Binho assumia a Educação municipal e a partir de uma política de valorização que considerava tanto os professores quanto funcionários, pais e alunos como partes igualmente importantes para o sucesso da educação.”

Para Júlia, na visão do Binho, a educação é o berço da formação de um indivíduo para que possa fazer as escolhas certas na vida. Considera o aluno e sua família, os professores e funcionários um sistema integrado. Regionalizou a merenda para que as crianças comessem o que a gente gosta. Investiu na melhoria das escolas. “Isso tudo deu um resultado tão positivo que muitos pais tiraram seus filhos de escolas particulares para matricular nas do município”, destaca Júlia, lembrando diversas premiações nacionais e internacionais recebidas pelas inovações implementadas na educação da capital.

Atuando como coordenador da campanha eleitoral, Binho chega ao governo do Estado com Jorge Viana e assume a Secretaria Estadual da Educação, promovendo outras inovações que mudaram a cara e garantiram um salto excepcional de qualidade à educação do Acre.

Na candidatura à reeleição de Jorge Viana, Binho foi escolhido para ser o vice-governador, mas sua sensibilidade para o social o fez acumular as Secretarias de Educação e do Desenvolvimento Social.

Candidatura ao governo

Desde o início do segundo mandato, havia a proposta de eleger Tião Viana para suceder Jorge no governo, mas, para que isso acontecesse, eram necessárias mudanças na lei eleitoral ou na Constituição. “Em nossas reuniões internas, Tião muitas vezes colocou que abriria mão da candidatura ao governo se Marina aceitasse a missão. Ela sempre disse que quer terminar seu mandato e dedicar-se a outros objetivos em benefício das pessoas. Binho era a terceira opção.”

O problema é que o próprio Binho não queria, até porque toda sua trajetória havia se dado no debate das idéias, desenvolvimento de propostas e estratégias técnicas ou políticas, sem subir no palanque. “Ele afirmava que não tinha condições de fazer um discurso, acho que foi muito difícil para ele aceitar nosso apelo e só aceitou por ser muito fiel ao partido.”

O nervosismo fazia com que ele bebesse litros de água antes de fazer cada discurso, mas, como bom professor que sempre foi, logo dominava a fala expressando sua sinceridade e preocupação com as causas sociais, a população mais carente e a necessidade de estimular a produção como forma de gerar empregos e renda. “Conhecendo a sensibilidade pessoal de Binho e sua capacidade como administrador, não tenho dúvidas de que seu governo será marcado pelo espírito empreendedor e que, sabendo aproveitar a infra-estrutura feita pelo Jorge, ele vai gerar riquezas para a população.”

Visionários - Júlia lembra que as idéias e a luta de Chico Mendes faziam dele um homem à frente de seu tempo, o mesmo acontecendo com a administração de Jorge Viana e o conceito visionário da Florestania. Já Binho deverá enveredar por um novo caminho de inovações. “Ele fará um governo muito mais descentralizado e com participação popular. Promoverá a organização da comunidade e dos setores produtivos, estimulando o desenvolvimento harmônico que fará o Acre continuar andando para frente. É assim que estamos fazendo nossa revolução”, conclui.

 
 
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Rio Branco-AC, 2 de outubro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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