ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Arquivo da família
Chico Mendes: muito jovem e muito triste aos 16 anos

Chico Mendes, filho da tragédia

Em julho de 2005, eu, Júlia Feitoza e seu companheiro Marcos fizemos uma breve viagem ao passado do mártir Chico Mendes, em Xapuri e no seringal Cachoeira. Ouvimos uma dezena de parentes e amigos mais chegados a ele em vida. Queríamos saber histórias de sua infância e adolescência, obter fotografias dele ainda criança, coisas assim. Em março de 2007 encontrei o José Alves Mendes Neto (Zuza, irmão mais novo) em Brasília, e passamos uma tarde conversando sobre como vivia sua família em meado dos anos cinqüenta.

Não avançamos muito, o que é explicável: na floresta, cada indivíduo cuida dos seus afazeres na seringa, na roça, na caça e na pesca, enfiado num cotidiano que não cria condições para memórias pessoais longas. Registros fotográficos foram sempre raros, até aparecerem as maquininhas digitais deste século XXI. A verdade é que a história de cada um acaba se misturando na saga coletiva vivenciada nas brenhas da mata.

De qualquer modo, na primeira investida conseguimos uma foto de Chico Mendes aos 16 anos de idade. Nela ele aparece entre duas amigas, encostado a um barraco, supostamente na colocação Pote Seco, com a tristeza que inundava sua personalidade na época. Como Zuza narrou, Chico aos 16 tornou-se “pai e mãe” de uma escadinha de irmãos pequenos, missão recebida da mãe Iraci Lopes Mendes que faleceu de parto aos 42, de forma dramática.

A tragédia acompanhou a família Mendes o tempo todo. O pai, Francisco, era um cearense aleijado de uma perna, com dificuldade para percorrer as estradas de seringa. E ao cortar um cipó fino, com seu terçado afiado, quase decepou o joelho da perna sã agravando seu caminhar. Desde então, suspendeu o trabalho na seringa permanecendo, apenas, no cultivo de um pequeno roçado com a ajuda de outro filho.

Raimundo, mais novo que Chico Mendes, aos 14 anos era o xodó da mãe e ajudante do pai na agricultura. mas queria mesmo era ser seringueiro. Insistiu tanto, que o pai pediu ao Chico que abrisse uma “estrada” para ele. À véspera da estréia na atividade, porém, o pai deu outra missão a Raimundo. Ia matar um porco naquele dia, para tirar a banha (usada como óleo de cozinha) e preparar comida para um grupo de seringueiros que, juntamente com Chico Mendes, se encontrava acampado na mata fazendo a limpeza de outras estradas de seringa. Raimundo levaria a comida quando esta ficasse pronta.

Zuza tinha 7 anos e vivia grudado a Raimundo. Embora reticente, concordou como irmão de saírem para o primeiro “corte” ainda pela madrugada, escondido do pai, com a idéia de retornar no meio da manhã, antes da matança do porco. Assim, deixaram o barraco de mansinho, ganhando a mata no escuro.

Lá na frente, entretanto, num descampado conhecido por Taquara, tinha um tronco imenso caído no caminho. Raimundo teve que arriar a espingarda carregada para dar a mão ao pequeno Zuza. A arma escorregou, disparou e atingiu sua cabeça.

Foi horrível! Zuza ficou perturbado com o tiro repentino, a fumaça e o peso do corpo de Raimundo caindo sobre ele. Quando se recobrou do susto e procurou sair de baixo do irmão, apalpou sua cabeça e só encontrou miolos e sangue. Correu aos gritos pela mata, sem rumo, mas por sorte cruzou com o grupo de Chico Mendes que se desesperou também. “O que aconteceu? Cadê o Raimundo?”. Zuza custou a responder: Raimundo morreu!

Chico Mendes pediu a alguém que o levasse à casa e voltasse com uma rede para juntar e transportar o cadáver do irmão. Meu Deus! -pensou logo - dona Iraci amava Raimundo, estava grávida de três meses, como ia suportar tanta dor?

Não suportaria. Ao receber o filho morto, ela ajoelhou-se no terreiro da casa, olhou para o céu e suplicou: “Se existe um espírito, um Deus, peço que me leve com meu filho. Não quero mais viver”.

E desde então passou a morrer, um pouco a cada dia. Despedia-se de um e de outro, dava conselhos...Impediu que chamassem a parteira de costume e não deixou cortar a peça de murim para fazer fraldas pro filho que ia nascer. “Vai estragar a fazenda”! Chico chorava ao ver a mãe escolhendo a morte. Mas, pensava, ele a salvaria. Era tão nova, tão bonita e tão terna. Ia leva-la para a cidade numa rede, para atendimento médico.

Começou uma peregrinação de colocação em colocação, juntando amigos para carregar a mãe pelo mato (não tinha estrada) até o médico. Ela, entretanto, implorava: “Filho, não se afaste de mim. Preciso lhe dar conselhos antes de partir”. O pai, em pé encostado à parede do quarto, também chorava, aquela e outras dores, mas procurava ser durão: “Sua mãe vai morrer mesmo, Chico” – disse.

Chico ainda buscaria socorro numa última colocação, aflito, enquanto a mãe lhe chamava: “Vem cá Chico, me abraça”. Os dois permaneceram abraçados, chorando por longo tempo. Ela então lhe disse: ”Chico, se acalme. Você terá que ser pai e mãe dos irmãos pequenos. Seu pai não pode mais trabalhar. Não deixe que eles passem fome”.

Chico ficou transtornado. Seguiu em prantos atrás de mais carregadores. Quando retornou, dona Iraci tinha morrido. Ele a viu inerte, com sua tez branca, os cabelos loiros e cacheados, sem a voz doce e conselheira que repetia, repetia...a resignação de mãe de seringal que emparelha fragilidade e força, ternura e frieza, escuridão e luz.

E assim Chico se fez homem, aprendeu a ler, pensar e agir. Não para criar os irmãos, apenas, mas também liderar os “empates”, defender a floresta, criar as reservas extrativistas, garantir a permanência dos seringueiros acreanos em suas colocações, avisar a quem quisesse ouvir, que na Amazônia existe uma sociedade diferente, amiga da natureza, desejando o bem do universo.

O tiro assassino que o matou no dia 22 de dezembro de 1988 ecoa, duas décadas depois, com mais força nos corações mais sensíveis. Como um aviso para se enxergar e construir (ainda há tempo) o mundo melhor que ele tanto queria.

CORREIO

CURSO DE LÍNGUA KAXINAWÁ

A idéia surgiu durante uma entrevista que eu fiz com o professor indígena Joaquim Maná, numa das salas da Comissão Pró-Índio do Acre em Rio Branco. Estavam presentes os antropólogos Terri Aquino e Ingrid Weber. Falamos sobre os mistérios existentes na floresta e refletimos se não ajudaria a gente aprender a falar uma língua nascida lá dentro, para decifra-los. Existem tantos cursos na cidade, de inglês, francês, espanhol etc., por que não, também, de uma língua indígena?

A Ingrid, que recentemente concluiu sua tese de mestrado numa comunidade indígena kaxinawá do rio Tarauacá, ficou entusiasmada. Consultou ao Joaquim Maná e ele achou boa a idéia, dispondo-se atuar como professor. Duas semanas depois iniciamos, precariamente, uma escolinha debaixo da mangueira no quintal de minha casa.

Elson Martins
Joaquim Maná: professor indígena bilingue

Quase ao mesmo tempo, a Biblioteca da Floresta Marina Silva abriu suas portas ao público e levamos a idéia para o diretor geral da instituição, Edegard de Deus. Foi aprovada por unanimidade, por seu corpo técnico. Posso então anunciar:

O curso de iniciação à língua Huni Kuî (Kaxinawá), oferecido pela Biblioteca da Floresta para o público nawa (não indígena), iniciará em fevereiro de 2008. As aulas acontecerão duas vezes por semana, a partir das 19 horas. O primeiro módulo terá a duração de três meses. No documento apresentado pela Comissão Pró-Índio e discutido na biblioteca se lê:

“O povo Huni Kuî é o povo indígena mais numeroso do estado, com aproximadamente 6 mil pessoas que ocupam 12 terras indígenas em 5 municípios do Acre. A língua hãtxa kuî pertence à família lingüística Pano”.

“No curso será ensinado o vocabulário básico, alguns aspectos gramaticais da língua e também um pouco da cultura dos Huni Kuî. O objetivo é que, ao final do curso, o aluno consiga formular pequenas frases e manter alguns diálogos em hãtxa kuî. A iniciativa é de grande importância para que o público não indígena reconheça a diversidade étnica, social e cultural mantida por cada povo indígena para continuar sobrevivendo dentro das políticas em que vivemos”.

“O curso terá um material básico para a orientação das aulas:“Lições para a Aprendizagem da Língua Kaxinawá” (Susan Montag, 2004) que poderá ser adquirido no momento da matrícula. Além desse material, haverá também a apresentação e discussão de filmes e CD´s feitos por cinegrafistas e professores indígenas do Acre, bem como cartilhas e outros materiais didáticos destinados às escolas huni Kuî”.

Professor

Joaquim Paulo de Lima Kaxinawá, Mana, 45 anos, é natural da região de Tarauacá e vive atualmente na Terra Indígena Praia do Carapanã. Desde 1983 é professor indígena bilíngüe, tendo publicado cinco livros em língua huni kuî. Em 2000, concluiu o Magistério Indígena pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC) e em 2006 formou-se pela Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT) no curso de Licenciatura para Professores Indígenas, o primeiro curso superior do Brasil especificamente voltado para público indígena. Atualmente, é coordenador da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC)”.

Nota do Editor: a direção da biblioteca ainda não discutiu os critério para preenchimento das 20 vagas disponibilizadas no curso.

 
 
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Rio Branco-AC, 2 de dezembro de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A