OPINIÃO
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Diones Assis Salla

 

 

Indagações sobre a produção de álcool no acre

Pensar em produção de álcool é pensar em cana-de-açúcar. Somos predispostos a raciocinar assim, uma postura que nos mantêm atados e condicionados aos modelos convencionais de desenvolvimento, geralmente construídos para atender especificidades regionais de ecossistemas específicos, bem diferentes das proposições necessárias à Amazônia, por exemplo. Com mandioca também se produz álcool e com algumas vantagens: em maior quantidade e qualidade. Seu maior problema, no entanto, é ser um cultivo do cotidiano dos produtores familiares, sem mais nada de exótico para atrair, não conferindo nenhum status a quem se propõe pesquisá-la. Além do mais, quase todas as espécies de mandioca conhecidas são de origem brasileira o que dissimila ainda mais suas potencialidades. 

O Estado de São Paulo promoveu uma verdadeira revolução tecnológica no cultivo e na industrialização da cana-de-açúcar, mas o fez optando por uma espécie ajustada ao seu clima, à fertilidade dos seus solos e com a identidade cultural do seu povo, atributos imprescindíveis que tornaram a região referência mundial na produção de combustíveis. Ao contrário, não parece ser da historia da Amazônia tropical promover o desenvolvimento a partir de suas próprias potencialidades. A idéia predominante é copiar, invadir com tecnologias estranhas e administrar a partir de modelos de uso da terra apropriados e desenvolvidos para atender outras regiões brasileiras. 

Falar de agricultura no Acre é falar de mandioca. É com ela que temos que fazer nossa revolução tecnológica. E falar de mandioca é falar de um cultivo identificado com a fragilidade dos solos amazônicos, uma planta que responde de maneira sem igual à intensidade luminosa do ambiente tropical e que se confunde com a própria história cultural das comunidades amazônicas. Depois de acompanhar os acontecimentos ocorridos há dois anos no Acre, onde os incêndios tornaram-se incontroláveis, falar de mandioca é falar de um modo de uso da terra alternativo que não tem qualquer relação com o fogo, pois não se conhece um só caso de incêndio em seus cultivos, a não ser, evidentemente, naqueles conduzidos de forma inadequada. Sobre cana-de-açúcar, deixo que cada um faça sua própria reflexão. 

O governo do Acre agiu bem em passar para a iniciativa privada a administração da usina de álcool que se encontrava em franca decomposição no município de Capixaba, herança deixada por administradores do passado que não cabe aqui comentar. Mas o gesto positivo não pode servir agora de incentivo para implantação de extensos monocultivos, pois eles significam andar na contramão das vocações da Amazônia brasileira. Não é coerente nem tampouco sensato iniciar o processo de desenvolvimento energético do Acre a partir da cana-de-açúcar, que para ser viável demanda arrendamento de terras, extensas plantações e destilarias de grande porte. 

É bem verdade que os setores da política pública brasileira ainda possuem poucas informações sobre o potencial energético da mandioca, que continua restrito a alguns pesquisadores e sob o boicote permanente do setor sucroalcoleiro. Com o nível informacional existente no setor químico e agronômico, já não é mais possível continuar sublimando os potenciais da mandioca para produção de álcool, que além de elevados e longe de terem sido adequadamente avaliados continuam sendo mantidos em um clima de incertezas que se arrasta desde a década de 70. Já naquela época os usineiros não tinham interesse, não se sentiam seguros e não possuíam a cultura de atuar em setores nos quais os saberes são compartilhados com as comunidades e com as unidades produtivas familiares. Sabendo que investir no segmento da mandioca significa compartilhar conhecimentos, os empresários do setor preferem influenciar os governos a cultivar a cana-de-açúcar, qualquer que seja o ecossistema, e de preferência longe das características adotadas pela agricultura familiar.  

Mas o momento político do Acre é muito favorável. As duas últimas gestões governamentais foram marcadas com muito discernimento e com o novo governador eleito também não vai ser diferente. Com ele será possível promover o debate sobre os potenciais energéticos do Acre, pois já é possível, em se tratando de biomassa, priorizar o que há de melhor na agricultura acreana: a mandioca. O cultivo desta espécie, na região amazônica, não será uma produção exclusiva para o mercado. Antes de se constituir em matéria prima para futuras microdestilarias, a mandioca é utilizada como alimento básico pela esmagadora maioria das comunidades rurais e pelos animais domésticos que são criados nessas unidades, dando sustentabilidade a esses empreendimentos. Produzir álcool no Acre, cultivando mandioca, significa mais um passo no desenvolvimento da agricultura acreana sem ter que negar os hábitos e as experiências multisseculares dos seus agricultores. Desenvolvimento é, antes de tudo, extensão das potencialidades já familiarizadas.  

A pesquisa com mandioca, objetivando a produção de álcool, já é tratada pela Embrapa Acre que tem identificado o potencial de algumas variedades. Além do mais, o setor pode contar com informações importantes geradas por universidades públicas, em especial pelo Centro de Raízes e Amidos Tropicais - CERAT da UNESP. Este centro dispõe de uma avançada infra-estrutura de equipamentos analíticos, laboratórios, recursos humanos qualificados, alunos de pós-graduação, contato com especialistas diversos, acesso a bibliotecas e a indústrias de processamento, configurando-se como colaboração imprescindível no desenvolvimento de tecnologias para a região amazônica.  

Pelo modo como a produção de álcool vem sendo conduzida no Brasil, centrada exclusivamente no cultivo da cana-de-açúcar, é improvável que uma proposição renovadora seja posta em prática por pesquisadores convencionais dessa geração. Também não é aconselhável esperar, pois a história tem mostrado que as mudanças ocorrem não porque as pessoas mudam, mas por que elas envelhecem e morrem e são então substituídas por uma nova geração que atuando em outros níveis de discernimento e de imparcialidade vem para fazer as mudanças que a geração anterior não foi capaz de fazer. A parte mais difícil desse processo é esperar que uma nova geração venha para fazer as mudanças que nós deveríamos ter feito. 

Extensionista Social da SEATER-AC Doutorando em enesgia pela Unesp - Botucatu

 
 
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Rio Branco-AC, 3 de janeiro de 2007
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