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Meu pedacinho de chão! Produtor realiza o sonho de voltar ao campo e trabalhar na própria terra |
![]() Leno Rodrigues mostra a horta e os pés de pepino cultivados em sua propriedade |
Juracy Xangai O orvalho molha os pés e a barra da calça até quase os joelhos, enquanto apressado, mas com um cuidado que beira o carinho, Leno Rodrigues de Lima, 54 anos, pai de seis filhos, vai revirando com a primeira luz da manhã as folhas em busca dos pepinos mais vistos, das folhas de couve mais bonitas, dos fartos ramos de coentro que vai vender no mercado da Estação Experimental. É apenas mais um dia na rotina desse homem, que depois de trabalhar como seringueiro perambulou na diária pelas colônias, conseguiu a sua com 50 hectares lá pelo ramal Espinhara, mas, pensando em dar estudo aos filhos para que não sofressem tanto quanto ele, vendeu a propriedade para morar no Bujari, onde nem tudo aconteceu conforme os planos. Perdeu tudo - até o casamento -, mas nunca a esperança de voltar a ter seu pedacinho de chão. No início de 2006 ele foi sorteado com um dos dez lotes dos Quintais Florestais do Bujari. A partir daquele momento, começou a desbravar a mata, fez roçado de macaxeira, plantou árvores e preparou área para a futura horta que agora verdeja. Empolgado, nem esperou que o governo, por meio da Secretaria da Produção Familiar (Seprof) e em parceria com o Incra e a prefeitura do Bujari, concluísse a preparação do projeto. “Fui o primeiro a botar roçado, em maio do ano passado. Aqui não tinha nada e o pessoal disse que eu era doido em plantar macaxeira naquele momento. Respondi que quando chegasse aqui já teria o que comer, e tenho.” Leno assim vai relatando sua aventura cheia de atropelos e satisfações também. “Assim que a casa ficou pronta eu pulei pra dentro dela no fim do ano passado. Ainda não tinha ramal, água nem energia elétrica. A luz que tinha era da lamparina, mas era nossa.” Ele faz questão de mostrar a horta onde verdejam canteiros de alface e couves, cheiram cebolinhas e coentros, balançam ao vento os pepineiros envarados, enquanto outros brotam em meio à palha do plantio direto, sem fogo. Mudas de açaí e até de copaíba, além de frutas, já estão plantadas no terreno que tem aos fundos uma reserva de mata nativa salpicada de olhos d’água. “Esse lote foi um milagre de Deus na minha vida. Sonhava com isso todo dia, mas não tinha condição de comprar uma terra nem de construir uma casa tão boa como essa que ganhei aqui. Por isso não contei conversa e pulei logo aqui dentro. Ainda não temos ramal nem água, mas está prometido pela prefeitura e pelo governo, a gente espera. Enquanto isso, vou trabalhando porque isso era o que eu mais queria. Aqui dentro vivo muito melhor e mais despreocupado que na cidade”, relata. Presidente da Associação do Pólo Hortigranjeiro do Bujari, trabalhou no pólo da cidade durante 18 anos, sempre sabendo que lá a lavoura era provisória e não podia fazer lavoura de raiz (permanente), muito menos morar dentro daquela terra. No quintal florestal pode plantar e morar. “Fiquei tão contente com isso aqui que vendi logo a casa da cidade e comprei uma roçadeira. Com o restante do dinheiro quitei todas as minhas contas e ainda comprei algumas coisas aqui para casa. Isso é que é vida”, exulta. Seis hectares da antiga Escola Agrícola de Plácido de Castro, que nunca funcionou, estão sendo transformados numa horta comunitária por iniciativa do prefeito Paulinho Almeida em parceria com famílias que vivem em situação de risco social na periferia da cidade. O ex-seringueiro Raimundo Ferreira da Silva, 43, e a mulher Fátima, 35, pais de dez filhos, formam uma das famílias que já começou a instalar seus canteiros no terreno, que já teve quatro hectares gradeados pela prefeitura. “Nasci e me criei cortando borracha no seringal, mas o preço não valia a pena. Então passei a trabalhar com colônia e melhorou. Quando os meninos cresceram, resolvi vender tudo e trazer os meninos para estudar na cidade, onde moro porque é o jeito, mas gosto mesmo é de colônia”, lembra Raimundo. Paulinho Almeida esclarece que a prefeitura cedeu o terreno, está oferecendo um técnico para orientar os trabalhos, já planeja a instalação de estufas e está ajudando a custear as despesas das famílias nos primeiros meses até que a horta comece a dar resultado. Daí por diante, eles deverão se organizar em grupo ou associação e tocar o negócio por conta própria. “Essa é uma atividade da economia solidária que estamos promovendo em nosso município. Por enquanto temos duas famílias trabalhando aqui. Outras virão para ocupar esse terreno, pois também vamos aproveitar a fartura de água para incentivar a piscicultura e outras atividades produtivas para atender o mercado da cidade e também as escolas e creches da cidade”, explicou. Fátima destaca que a prefeitura está dando uma ajuda muito grande porque eles não têm condição de voltar para a colônia porque os filhos estão na escola e gostam de estudar. Já Raimundo enfatizou: “Minha esperança é de que isso aqui continue melhorando cada vez mais, porque tenho dez filhos para sustentar. Trabalho para levantar minha família porque o que mais tenho medo é de que um deles entre pelo caminho errado. Afinal de contas, quem planta colhe e tem sempre o que comer”. Conhecimento de causa - Francisco de Jesus Pereira, o “Tomate”, tem 46 anos, 23 filhos e 32 anos de trabalho em hortas com japoneses e por conta própria no Acre. “Só no Quinari trabalhei dez anos com o Takamune e mais de oito com o Maru. Depois de todo esse tempo cuidando das hortas deles, agora sou capaz de produzir tudo que eles produzem. O segredo é que por causa da acidez e umidade aqui no Acre a gente não pode plantar nada na cova, é preciso levantar canteiros e leira”, diz. Os montes de esterco de galinha, pó de serra denunciam a preparação de uma horta de produção orgânica, o que é confirmado por Tomate: “Sou contra o uso de veneno, dá pra gente ir passando sem eles. As verduras podem até não crescer tanto, mas ficam muito mais saudáveis e saborosas quando cuidadas sem usar adubo químico ou agrotóxico”, explicou. Recém-instalada, a horta está plantando mais de quatro mil pés de alface, oito mil tomateiros e 7.800 covas de macaxeira, fora abóbora, pepino, maxixe, batata-doce, pimenta-de-cheiro e 300 covas de bananeira. |
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