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| Elson Martins | |
Homenagem e cochilo Não li uma linha nos jornais sobre o que considerei o melhor momento da sessão solene na Câmera Federal em Brasília, na manhã de 31 de maio, feita para homenagear a direção da minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, da TV Globo. Estavam lá a autora Glória Perez, o diretor Marcos Schechtman e os atores Cássio Gabus Mendes (que interpretou Chico Mendes), Alexandre Borges (Plácido de Castro) e Brendha Haddad (Ritinha), acreaníssima e bonita. Também compondo a mesa, como convidados, estavam os ex-governadores acreanos Jorge Viana (PT-AC), Flaviano Melo e Nabor Júnior (PMDB-AC) e o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC) que propôs a homenagem. Circulando pelo plenário foram vistos outros políticos acreanos, entre eles o senador petista Sibá Machado. A sessão começou às 10 horas com a chatice (perdão: protocolo) de sempre. O presidente da Casa, Arlindo Chinaglia, identificou a mesa esquecendo José Alves Mendes Neto, o Zuza, irmão de Chico Mendes que se encontrava lá entre os graúdos. De enxerido, sentou-se ao lado de Chinaglia e posteriormente assumiu a presidência da sessão o deputado federal Inocêncio de Oliveira, que depois de ler um amontoado de coisas copiadas de blogs, quase desconexas sobre o Acre que desconhece, acabou - procurando fazer graça - comparando a terra de Chico Mendes com Serra Talhada, sua região de origem em Pernambuco. O homem torrou a paciência dos presentes até que a irreverente deputada Perpétua Almeida, do PC do B acreano, o interrompeu sugerindo (licença poétca) que fosse pentear macacos e deixasse a condução do encontro com o Nilson Mourão. A partir de então a coisa fluiu bem. Vários oradores se sucederam destacando a qualidade e importância da minissérie. Na abertura, Chinaglia havia dito que “Amazônia” se tornara um épico da televisão. Os demais oradores seguiram a mesma linha de apreciação. Flaviano Melo lembrou o fato de Chico Mendes ter pertencido ao MDB (hoje PMDB) e por esta legenda ter exercido o primeiro e único cargo político de sua vida: o de vereador em Xapuri. Já o anfitrião Nilson Mourão explicou que a minissérie chamou atenção - principalmente no Acre, onde por conta do fuso-horário era exibida em horário nobre – “porque ela representa a nossa alma, nossas dificuldades, enfim, nossas vidas. Nós estamos nos contemplando ali”. Já expressei minha opinião sobre a minissérie e a reafirmo agora: o trabalho representa uma vitória nacional da dramaturgia. Argumento com o que escreveu o teórico francês André Bazin, em livros sobre a linguagem cinematográfica. No prefácio de “O Western ou o Cinema Americano por Excelência, escreveu que o faroeste nasceu do encontro de uma mitologia com um meio de expressão”. O crítico de cinema Ciro Siqueira, intelectual mineiro muito ativo nos anos sessenta do século passado, resumiu a afirmação de Bazin nesta expressão: “Quando a História interferir com a lenda – imprima a lenda”. Imagino que a relação do cinema americano com a história do oeste dos Estados Unidos tem a ver com a dramaturgia da TV Globo, utilizada na minissérie “Amazônia”. No caso, a ficção e a realidade se parecem, por isso fez e fará sucesso onde for exibida. Mas, voltando ao começo do texto e da sessão solene de quinta-feira passada: o melhor momento a que me referi foi a versão do Hino Acreano, apresentada por nossa afinadíssima Ana Carolina Freitas, ou simplesmente Carol, que junta beleza, charme, doçura e graça Acompanhada por dois músicos também acreanos - Saulo Machado ao violão e Jivago Nole na percussão – ela descongelou o Plenário da Câmara Federal promovendo alguns sagrados minutos de indiscutível beleza e emoção. A bruxa Vássia da Silveira * Minha irmã procura uma boneca velha. Quer tirar fotos. Fazer um ensaio usando a pia do banheiro, os azulejos, os cachos das sobrinhas. As meninas vibram com o trabalho e, na inocência dos três anos, Anaís se diverte fazendo a pose que irá fingir o abandono: a camiseta velha, os cabelos no rosto, o olhar perdido, a boneca de trapos. Assisto à cena sentada em minha cama, entre as miudezas retiradas do balcão. Acompanho os gestos, os olhos, a bruxa de pano. E já não é mais o brinquedo de Nana que vejo entre as mãos da pequena, mas a velha boneca da menina ajoelhada na varanda em seu vestido de bolinhas. Tem o corpo coberto por uma malha branca, o vestido xadrez é vermelho e os cabelos desenhados com lã preta caem aos ombros em tranças amarradas com fitas. Chamo-a de Maria, gosto de suas pupilas pintadas de azul marinho e do corpo mole que arrasto pela casa e pelo quintal. É a minha bruxa. Companheira das horas solitárias. É com ela que me agarro sob os lençóis, em noites pontuadas de silêncio e solidão. E quando preciso conversar, faço uma voz mais fina. A voz dela. Meu irmão gosta de implicar comigo e para me aborrecer aproveita qualquer distração e esconde Maria. Eu choro. Mas não antes de procurá-la em todos os cantos. Depois tenho que fingir que não me importo com a ausência da boneca de pano. Pego um gibi da Turma da Mônica e vou ler deitada nas almofadas. Ele se aborrece com minha tranqüilidade e joga Maria em minhas pernas. Pega tua bruxa, sua chata. Sinto o corpinho dela tocando minha barriga, mas não tiro os olhos das páginas coloridas do gibi. É estratégia, mesmo. Preciso que ele saia da sala para poder demonstrar à Maria o quanto senti a sua falta. Outro dia, pensei que minha bruxa estaria comigo a vida inteira. Por isso virei-lhe de costas, subi o vestido e escrevi à caneta no pano branco. É um segredo. Guardei-o com Maria, que fica muda quando não faço a voz fina. Mas que fim levou Maria? Mãe, tô bonita? A pergunta de Clara traz de volta a mulher sentada na cama, entre as miudezas retiradas do balcão. Está linda, filha. As duas estão lindas. Vejo Anaís agarrada à sua boneca de pano, lembro do segredo perdido nas costas de Maria e me pergunto: o que sussurra à boneca, esta menina?
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