OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

O vôo de Ícaro

Para Gilber Félix da Silva

Uma manhã clara, porém sombria.
Uma tarde ventilada, no entanto cinza.
Uma noite escura, escura, feito o breu.
Longe, muito longe, muitíssimo distante,
No tempo e no espaço, na Grécia das lendas,
Um belo moço, na flor da idade, corajoso,
Se põe a cumprir dificílima tarefa.
Iria, com asas que acabara de criar, novinhas,
Até o Sol experimentar-lhe a temperatura...
Faltava-lhe tão somente a permissão do Pai.

O intrépido primeiro internauta nosso,
Cujo pai era Dédalo, tinha por nome Ícaro
E não obteve o consentimento do Pai, mas voou...
De cima viu os cumes dos mais belos montes,
De toda a Grécia viu falcões e a fênix renascida.
Depois, pode admirar a grande Europa
Na plenitude de toda a beleza do mar Egeu
Ao Atlântico, do Mediterrâneo aos Pirineus...
As asas suportavam, havia força e coragem.
Então, pensou o moço: por que não ir ao Sol?

Atraído pelo calor e pela luz do astro-rei,
Ícaro fez do seu sonho realidade.
Ignorando o calor extremo, sufocante,
Foi-se aproximando mais e mais...
Mas veio o momento não previsto nos planos,
Mesmo com tanto cálculo, apesar de tanto cuidado.
Tudo fora deveras muito bem projetado,
Mas as grandes asas, para justificar a tragédia,
Haviam sido coladas com cera...
E Ícaro mergulhou para morte tão prematura.

E o caro irmão Gilber, internauta do agora,
Parceiro bom e amigo, que já viajou tanta poesia comigo,
Agora mesmo se foi sem dizer adeus, adeus, adeus...
Era ele, sim, o herói de si próprio, dele mesmo,
E do filho que ainda não compreende o acontecido,
E da esposa que chora a falta do cavaleiro andante,
Sempre na busca do futuro melhor para os seus.
Voa, Gilber, voa! Vai lá no céu e busca uma estrela
Com a qual tu possas, daí, iluminar tantas vidas,
Como a minha, como a dos irmãos teus de copo e de cruz.

É preciso crer, pois é a mais clara verdade.
O grande salto que tu deste para o infinito
Se fez trágico demais para as mil almas,
Amigas da tua alma, que choraram a tua perda.
No entanto, todos hão de observar, que
O alvo da queda, como por encomenda,
Foi exatamente o colo do Criador,
Onde agora estás sentado, quieto, pensativo...
Segura na mão do Anjo e vai, grande companheiro.
São novos mundos onde cumprirás novas missões...

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 3 de junho de 2007
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