ESPECIAL
   ESPECIAL

BR-364
A ÚLTIMA FRONTEIRA

Asfaltamento da BR-364 até Cruzeiro do Sul vai integrar definitivamente a vida das famílias acreanas

Sérgio Valle


Juracy Xangai
Fotos: Sérgio Vale

Mais do que o sonho de um povo que quer ver conquistado seu direito e de ir e vir quando quiser ou precisar, a conclusão da BR-364 ligando Rio Branco a Cruzeiro do Sul garantirá a integração dos vales do Acre e Juruá, vencendo assim a última fronteira que ainda impede a integração total do povo acreano.

Na primeira quinzena deste mês de junho, o governo do Estado está realizando a licitação para que empresas privadas dêem início às obras de construção e asfaltamento dos 230 quilômetros que partem de Sena Madureira e passam por Manuel Urbano para chegar a Feijó, para assim realizar nos quatro anos do governo Binho esse sonho acalentado há mais de 30 anos por todos que vivem à beira dessa estrada.

Homens e máquinas já trabalham na construção de pontes, galerias e bueiros nos 280 quilômetros entre Tarauacá e Cruzeiro do Sul, que poderá ter seu asfaltamento concluído neste ano.

Oito dias - de 18 a 25 de maio - foram necessários para que nossa equipe, composta pelos jornalistas Sérgio Vale, Senildo Melo, Ailton Oliveira, Josemir Melo, Pedro Devanir e Juracy Xangai, conseguisse com três dias a pé e cinco em lombo de burros vencer os obstáculos e a lama entre Manuel Urbano e Feijó para retratar o sofrimento, as esperanças e sonhos dessa gente que acredita no Acre.

Arroz de pilão

“Hoje o que nós temos para comer é arroz e só. Às vezes a gente mata um porquinho-do-mato ou outra caça, mas não é sempre que isso acontece. Para pilar pouco mais de dois quilos de arroz eu tenho que ficar socando neste pilão por mais de duas horas e meia. Se a estrada já estivesse boa a gente levava o arroz para descascar lá em Manuel Urbano e isso seria um alívio na minha vida”, declarou Maria do Carmo da Silva Campo, 41, moradora da colônia Flores, no quilômetro 38 da estrada de Manuel Urbano para Feijó.

“Aqui a gente se obriga a comprar todas as mercadorias como sal, açúcar, café e óleo no verão para não ter que ir à cidade no inverno. No começo deste ano passei mal e fui à cidade me consultar por causa da pressão. Sofri tanto que quase morri da viagem”, lembra. “Sempre fui PT porque o PT é o partido do trabalhador e a gente é trabalhador, por isso votei no Jorge e agora no Binho para governador. Peço que ele melhore, se der asfalte esta BR, porque aí tudo vai ficar mais fácil para nós.”

Desenganos

O seringueiro Odilon Monteiro da Silva, 48, é esposo de Maria do Carmo, e além do trabalho no roçado e com o gado ainda corta borracha para ajudar nas despesas da família. Ele explicou que uma doença misteriosa acabou matando vários de seus animais depois de passarem alguns dias prostrados no chão.

Mas, a exemplo de Alismar, o “Num”, e outros criadores que encontramos na região, Odilon é mais um que desde junho do ano passado espera o pagamento prometido pelo comerciante “Zé Roco” de Feijó pelas reses compradas e não pagas. “A gente trabalha mais de um ano cuidando e engordando um animal para depois alguém vir aqui, comprar e deixar o pagamento ao deus-dará. A gente só vende porque tem necessidade do dinheiro, por isso é que estou pedindo ao senhor para escrever um bilhete para que seu Raimundo Menezes entregue ao Zé Roco a fim de ele mandar o dinheiro sem que a gente precise entrar na Justiça.”

Volta ao campo

Assis Pereira da Costa, 47, pai de nove filhos, trabalhou alguns anos cortando seringa no Projeto Sudam. Resolveu levar os filhos para estudar, então foi morar no bairro da Cohab, em Manuel Urbano, onde trabalha na diária ou na empreita de serviços pesados. Durante todo esse inverno conseguiu uma única empreitada de R$ 600.

“A cidade é pequena, tem pouco trabalho e muita gente desempregada. Há dois anos troquei uma vaca e um bezerro no valor de uns R$ 500 numa colônia de 50 hectares do João Batista de Farias, que já tinha comprado de outro seringueiro aqui no Projeto Aleluia. Ano passado desmatei quatro hectares e vou desmatar mais quatro neste ano, a coisa não é fácil, mas é essa a vida que eu gosto. Morei 12 anos na cidade, mas vontade de voltar para a colônia era no corpo inteiro”, afirma. “Antes esta estrada era só a tabatinga, a gente atolava até a coxa, mas foi no governo do Jorge Viana que descobriram essa terra vermelha para colocar aqui. Com ela, fazendo um pouco de sol, a gente já anda, mas se vier o asfalto vai ser uma beleza.”

Quem canta, os males espanta

Por volta do meio-dia, chegamos à fazenda Bela Vista, sob o som de animado forró movido a violão e triângulo para tirar a pasmaceira do almoço recém-engolido. A festa era comandada por Pedro Tomé da Silva, 30, filho de “Seu Otávio”, proprietário das terras em que estavam cortando o mato que invadia o pasto.

“A gente tem trabalhado muito, mas a pecuária já não está dando mais o lucro que dava, por isso agora, mais do que nunca, nossa esperança é a de que abram esta estrada para a gente poder produzir e escoar outras coisas. Só com a promessa de que vão aslfatar, o pai já está preparando uma área muito boa para plantar banana”, afirma Pedro.

Engenheiro verão

“Desde menino eu ouço falar dessa história de asfaltar a estrada, já estou ficando velho e ainda não vejo nada. Se fizerem vai ser muito bom, mas eu mesmo só acredito vendo. O que eu sei é que quando chega o verão a vida da gente se transforma, tudo fica mais fácil, é ele quem dá passagem aos caminhoneiros e esses nos ajudam muito transportando nosso milho, nossos porcos, galinhas e banana para vender e preparar o rancho para sobreviver por mais um inverno”, afirmou Pedro Braga Nunes, 24, morador da colocação Juruá, no seringal Sardinha.

Ele explicou que o pai tem mais de 65 anos e está aposentado, depois de trabalhar a vida inteira cortando borracha. “Agora já não enxerga direito nem agüenta ficar fazendo essa viagem e por isso resolveu morar na cidade para receber a aposentadoria. Os mais velhos gostam muito da colônia, mas estão morando na cidade. Lá pelo menos podem se reunir, conversar e contar histórias uns para os outros.”

Matador de onça

Lobinho, Rex, Vencedor, Baleia, Bagunça e Piaba são os amigos fiéis de Alismar da Silva Miranda, 21, pai de um filho de três meses. Ele informou que, ao longo dos últimos nove anos, matou pelo menos 30 onças que ameaçavam comer seus porcos e bezerros na colônia Besouro, no quilômetro 30 da estrada de Manuel Urbano para Feijó.

“Nunca vi igual. Aqui nesta colônia às vezes a gente brocava para fazer lavoura e os cachorros acuavam onça. Dia desses meus irmãos Aliosmar e Arival, mais o cunhado Auricélio, estavam trabalhando no roçado quando os cachorros acuaram uma onça que ficou trepada num galho. Eles não tinham levado espingarda. Então ele encastoou o terçado numa vara e quando tentou furar a bicha, ela caiu e correu. Os cachorros acuaram ela na raiz de um pau, ela arranhou a cara de um deles que o focinho partiu no meio. Nessa hora meu irmão Aliosmar rolou a cabeça da onça numa terçadada. Pensei que o cachorro fosse morrer, andei o dia todo até a cidade para comprar remédio pra ele, ficou dois meses dentro de casa, recuperando-se. Um cachorro é de muita utilidade para nós. Agora ele não quer mais nada com onça, só corre atrás de porco e jabuti”, conta.

46 anos de estrada

Aos 14 anos, Raimundo Quaresma iniciou sua vida de construtor de estradas alternando horário sobre uma das primeiras máquinas de esteira do Acre com seu pai e mestre, o carioca Raimundo Quaresma da Silva. “Eu trabalhava de dia e meu pai de noite na construção da estrada do Quinari. Depois fizemos a abertura da estrada para Brasiléia. Operei a máquina quando o então governador Kalume ajudou a derrubar a última arvore na chegada a Assis Brasil. Também trabalhei abrindo estradas em Xapuri e no Juruá. Onde estivesse uma frente de trabalho do Deracre eu estava junto”, recorda.

No segundo ano do governo Orleir (1996), Quaresma se aposentou, entrou em depressão, teve um início de derrame e não teve dúvidas: voltou para a estrada, sendo hoje o coordenador da equipe que reabre a BR-364 no sentido Manuel Urbano Feijó. “Se eu continuasse em casa já teria morrido, minha vida é o acampamento, é a estrada. Hoje posso dizer que nossas estradas ainda não são o que a gente deseja, mas melhoraram muito. Todos os governos mexeram com alguma estrada, mas nesses 46 anos que estou trabalhando no Deracre, nunca vi um governo que mexesse com tantas estradas e fizesse tantas obras bem feitas como o governo do Jorge Viana.”

Melhorando vidas

Ainda que sua reabertura seja temporária, os três ou quatro meses em que a BR-364 consegue garantir o tráfego de Rio Branco a Cruzeiro do Sul deixa alguns benefícios permanentes. Um dos exemplos disso é vivido por Valdete Alves da Silva, 34, mãe de cinco filhos, uma das quatro cozinheiras do acampamento do Deracre no Purus. Ela mora na colônia São Pedro, no quilômetro 5 da BR-364 a partir do rio Purus no sentido Manuel Urbano, Sena Madureira.

“Faz oito anos que meu marido morreu. Fiquei com quatro filhos, o maior tinha onze anos. Sozinha na colônia, minha cunhada me ajudava em tudo que podia. Passamos muita dificuldade e fome até conseguir uma pensão do falecido. Em 2002 comecei a trabalhar aqui no acampamento e assim juntei dinheiro para construir a casa de 6 por 8 metros em madeira serrada. No ano seguinte comprei cinco cabeças de gado, a avó deu uma novilha para meu menino e o vizinho deu outra. Com o dinheiro de 2006 comprei mais 15 animais, agora temos 23. A vida foi dura com a gente, mas graças a Deus e a esta estrada está melhorando bastante e quando tiver o asfalto nossa vida vai ficar muito melhor.”

Fé na vida

Aos 79 anos, quatro esposas e tantos filhos que nem sabe contar, José Isídio da Silva, o “Zé Isídio”, é um daqueles ex-seringueiros que só parou de cortar borracha quando o preço caiu tanto que ninguém mais queria o produto. Na dura vida do seringal, ele aprendeu que além da força física um homem precisa ter fé e assim aprendeu com os rezadores Francisco Rosa e Agostinho as orações com que atende as pessoas vindas dos seringais mais distantes e até da própria cidade de Manuel Urbano.

“Eu não curo ninguém, mas rezo contra quebrando, susto, peito aberto, espinhela caída e outros males que fazem o povo sofrer. Como já disse, não curo nada, apenas benzo com as palavras de Cristo e elas se curam, eu não sei como”, diz. “O que sei é que eu tenho um pouquinho de fé, mas quem vem até aqui traz uma fé maior ainda.”

O barqueiro do Purus

Assim que as primeiras máquinas reabrem a BR-364 entre Sena Madureira e Manuel Urbano, Giovani Silva de Souza, 16, já coloca em funcionamento a catraia soalhada de tábuas para fazer o papel de pequena balsa que, empurrada pela rabeta, faz a travessia de motos e passageiros pelo rio Purus.

“Durante o inverno ajudo meu pai na colônia, pesco, caço alguma coisa e quando começa o verão trabalho com este barco do Bastião. Cobro três reais para passar uma moto. Um real é meu. O mesmo acontece a cada três passageiros. É preciso trabalhar o dia inteiro para aproveitar bem o verão porque este é o maior dinheiro que eu consigo ganhar durante o ano. Se asfaltarem a estrada vai ficar muito melhor porque as pessoas vão poder passar todo dia por aqui.”

Luz para todos

Enquanto a lenha queimava preguiçosa esquentando a água em que Alda Pereira de Mendonça, 49, mãe de dez filhos, moradora da colônia São Francisco, no quilômetro 17 da estrada de Manuel Urbano para Feijó, escaldava pacientemente as tripas da novilha que havia matado para o casamento do filho que aconteceria domingo. Informou que ela e o marido Dulce Dimas não iriam à festa na cidade porque não estavam dispostos a enfrentar a lama, e com a pureza de um sorriso desses que só se encontra na roça nos convida a um suco de graviola.

“A luz elétrica chegou para nós no ano passado, foi uma benção, mas gerou mais uma despesa que a gente tem de pagar. Com ela funciono a geladeira, onde conservo as polpas de graviola e cupuaçu para vender na cidade. Assim ajudo a pagar as contas da luz. Com a energia também deu para a gente instalar o telefone e falar sempre com os filhos que estão na cidade. De noite a gente ouve música e pode dormir com o conforto do ventilador. Agora só me falta mesmo é o asfalto dessa estrada, quando ele estiver pronto nós vamos poder produzir mais, ganhar mais dinheiro e viver ainda melhor.”

Cozinheira do trecho

As turmas de trabalhadores vão e vêm de dia e de noite e para garantir toda energia física de que necessitam, eles precisam estar bem alimentados e aí é que no acampamento montado pelo Deracre às margens do rio Purus, em Manuel Urbano, entra em cena a cozinheira Célia Pegoretti, 58, mãe de dois filhos. Nascida em Patos de Minas, aos 16 casou-se com um militar do Batalhão e Engenharia e Construção do Exército e a partir daí esteve sempre presente nas obras de construção de quartéis em Rondônia, Amazonas e Acre, além de acompanhar o marido nos trabalhos de abertura e construção de trechos da BR-364, da Transamazônica até o Pará, das estradas para Manaus, Lábrea, enfim, por toda a Amazônia.

“A cada beira de rio era um acampamento e uma casa de palha onde eu morava para não ficar longe de meu marido nem das obras. Quando ele pediu para ir para a reserva, voltamos para Joinville, onde vive um filho meu, a filha mora em Rio Branco. Não me adaptei mais à vida na cidade.” Célia traz uma rica memória: “No meu primeiro acampamento em Comodoro do Oeste, os índios atacavam, flecharam até um dos cozinheiros. Aqui na cozinha preparo a melhor comida possível e até chazinhos pra eles. Acho que dessa maneira estou ajudando a construir um Acre melhor para essa gente que vive aqui isolada. Quando a estrada estiver reaberta vou conhecer Cruzeiro do Sul, depois subo o rio até Santa Rosa para tocar um restaurante. Isso tudo dá mais sentido a minha vida.”

Peregrina das estradas

Em meio aos atoleiros do quilômetro 26 da estrada entre Manuel Urbano e Feijó, encontramos Maria da Silva, 52, mãe de três filhos, e a filha Naiane, de apenas oito anos de idade. Com uma trouxa de roupas às costas e alguns dedos de banana maçã na sacola, seguiam viagem batendo de porta em porta nas colônias e fazendas à procura de trabalho e abrigo.

“Moro em Rio Branco, onde estão meus outros filhos. Durante o verão trabalho como cozinheira nas fazendas preparando comida para os peões que vão fazer derrubadas ou a manutenção dos pastos e currais. Neste ano o inverno está se alongando e não estou conseguindo encontrar serviço em lugar nenhum, por isso vou caminhando e batendo nas portas até encontrar.”

Ouvinte Difusora

Todas as manhãs, ainda antes de o sol nascer, João Miguel da Silva, 78, morador da colônia São Francisco, no quilômetro 45 da estrada de Manuel Urbano para Feijó, levanta, vai para a cozinha, acomoda o pequeno rádio sobre um tamborete e ouve músicas enquanto aguarda começar o Jornal Difusora.

“Escuto a Difusora todos os dias, é a melhor rádio que tem para saber das coisas do Acre; também gosto muito do Whashington Aquino. A gente ouve muitas notícias boas, mas também tem tanta notícia ruim sobre essa violência e mortandade de gente que dá até medo. Nossa vida aqui não é fácil, mas, para dizer bem a verdade, não dá vontade de sair daqui para conhecer um lugar desses”, afirma.

Milagre do Edmundo Pinto

Mãos postas com as contas do terço entre os dedos, a beata Maria Simão da Silva, 79, lembra que nos tempos do seringal rezava ainda mais que agora sempre postada diante de sua fileira de santinhos, dos quais de um falta a imagem que nunca viu, mas à qual apegou-se por ouvir dizer e nas conversas de rádio.

“Lembro de uma música que dizia que a gente leva a vida num arame, assim cada um de nós vai se equilibrando enquanto carrega sua cruz e para vencer preciso ter muita fé. O ex-governador Edmundo Pinto era uma alma muito caridosa que hoje faz milagres, em tudo que me apeguei a ele recebi a graça, só me falta uma coisa e eu tenho fé de que hei de receber, porque a fé vence todas as barreiras.”

Um mundo de problemas

O professor Moisés Lima do Nascimento, 23, leciona na escola do quilômetro 54, mas, apesar do inverno, enviou a esposa Isa para Manuel Urbano porque está completando nove meses de gravidez. “Mandei a esposa para ter nosso primeiro filho no hospital porque se ela tivesse algum problema aqui não haveria muito o que fazer.”

Na escola ele tem 17 alunos de primeira à quinta série e 12 no telecurso primeiro grau. O problema é que a prefeitura recebeu todos os programas gravados em DVD quando as escolas municipais só têm aparelhos de videocassete e isso os impede de assistir às aulas. Mas os problemas não param por aí porque, aproveitando as horas vagas, o professor plantou 36 litros de milho. “Colhi mais de 150 sacas de um milho muito bom, mas agora estou com ele empancado sem ter a quem vender nem como escoar, por isso estou trocando parte dele por patos e galinhas, que vou acabar de engordar para vender no verão”, reclama.

Socorro na rede

A dona de casa Rosália Marcelino Bezerra, 37, vive na colônia Fé em Deus, localizada no quilômetro 53 da BR de Manuel Urbano para Feijó. Ela relata dois casos de pessoas da comunidade que precisaram ser socorridas às pressas durante o inverno. “No finzinho de março, o Antônio José, um seringueiro que mora a uma hora no rumo de dentro, ia chegando do banho quando uma vaca com bezerro novo atravessou no caminho dele, ele se atrapalhou, caiu no chão e ela pisou na cara dele, que ficou com três rasgos, por onde a gente via todos os seus dentes. Foi uma correria e o pessoal levou dois dias em lombo de burro para conseguir chegar com ele no hospital de Manuel Urbano”, recorda.

Um segundo caso aconteceu com sua vizinha. “A Rosilda, mulher nova que ainda tem só quatro filhos, teve problema duma hemorragia que o pessoal teve de tirá-la na rede. Foi um sofrimento, eram sete homens se revezando mais de dois dias para chegar ao hospital. Nessa hora acabam-se as diferenças entre a gente todo mundo ajuda o outro.”

Pioneiro da estrada

Aos 53 anos de idade, o seringueiro Claudomiro da Silva Brito é pai de 16 filhos, 11 deles vivos. “Moro aqui há 33 anos e fui um dos que trabalhou no terçado ajudando a abrir o pique desta estrada quando ainda tinha 14 anos. Quando vieram os serviços de limpeza, a gente derrubava as árvores e depois cavava para arrancar os tocos no enxadeco. Na época em que o 5º BEC fez isso eu já tinha um pouco mais de 20 anos, depois é que veio o 7º BEC terminando o serviço. Eu era rapazinho e o pessoal já falava em asfaltar esta estrada, nós nunca perdemos a esperança e é por isso que continuamos aqui”, diz.

Sua esposa Célia reclama da burocracia do Bolsa-Família que acaba complicando a vida de pessoas que vivem isoladas como eles. “Temos três crianças no programa, por isso recebo R$ 105 a cada dois meses, mas a despesa para a gente ir até a cidade é muito grande, então vamos a cada dois meses, quando chegamos lá o cartão está bloqueado. Neste ano já enfrentei lama duas vezes para receber o dinheiro, gastei oito dias só para fazer uma viagem”, queixa-se.

Amor roubado

Nosso tropeiro Raimundo Menezes da Silva, 66, e a mulher Maria Nunes do Nascimento, 50, que juntos tiveram e criaram 13 filhos, viveram desde o princípio uma típica história de amor da floresta, conforme relata Maria. “A gente se conhecia desde criança e fomos nos engraçando um do outro até que quando completei 14 anos ele me roubou da casa dos meus pais. Botei minhas coisinhas em um saco, descemos o rio de canoa e fomos para a casa de um conhecido nosso. Ficamos quase um ano sem eu ir lá em casa nem nenhum deles vir cá aonde a gente estava. Daí o Raimundo foi conversar com eles para não considerarem mais o que tinha se passado, eu já estava grávida do primeiro filho Erivaldo e meu pai passou a gostar muito de meu marido”, conta.

A mãe de Maria ajudou no primeiro parto, mas os filhos Francisco e José ela precisou se virar sozinha, porque não havia nenhum adulto em casa na hora em que sentiu as dores na colocação Anajá, seringal Santo Antônio, no rio Jurupari, subindo 12 horas de canoa a partir da beira da estrada. “Lá hoje não mora mais ninguém e a mata tomou conta de tudo de novo e agora é morada de onça.”

Tabaco regional

Quem entra na casa de Antônio Lima de Souza, 24, no quilômetro 58 da BR-364 entre Manuel Urbano e Feijó, mal consegue ver as palhas do telhado porque estão entremeadas com folhas de fumo, recém-colhidas, as quais secam penduradas no paciente preparo até serem transformadas em paus de tabaco que se vendem nos mercados do Juruá.

“Neste ano nós plantamos mil pés de fumo. A produção não foi muito boa porque teve um mal que pintou as folhas, mas a colheita vai dar mais de 40 paus de tabaco com uma base de dois e meio a três quilos cada um. Vendemos a R$ 25 o quilo e esta é a lavoura que mais dá dinheiro pra gente. Eu morei na cidade até os 18 anos, mas não quis estudar, me arrependi e agora estou fazendo o telecurso. Quero aproveitar essa nova oportunidade e se Deus quiser vou ser engenheiro florestal.”

Fartura em casa

Ao passarmos pela porteira da casa de Pantaleão Filinto de Souza, pai de 12 filhos e dono da colônia Santa Luzia, no quilômetro 63 da BR de Feijó para Manuel Urbano, encontramos os varais cobertos pelas mantas de carne de porco que secavam ao sol.

“Matei três queixadas, já fazia mais de três meses que não matava nenhuma, mas agora um bando passou aqui pelo aceiro do roçado e meu menino conseguiu matar os primeiros porque eles aparecem mais no verão mesmo. Isso é uma fartura em casa, gosto dele cozido com macaxeira”, diz Pantaleão. Mudando de assunto, ele destacou: “A gente sempre viveu abandonado nesta estrada, mas nunca perdemos a esperança e eu tenho uma fé muito grande nesses que estão no poder agora porque já mostraram muito trabalho. Gostei demais do Jorge Viana e acredito que o Binho vai fazer igual e até mais pela gente. Deus me livre da cidade, com toda dificuldade. Aqui de qualquer jeito a gente passa”.

Integrando vidas

Ocimar Mota de Souza, 44, trabalha há 24 anos como motorista do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (Deracre) em Feijó e, a exemplo das demais pessoas que vivem naquela região, sonha com a abertura permanente da estrada.

“Minha vida é trabalhando nesta estrada. Conheço a importância dela porque minha mãe mora em Rio Branco e eu só me encontro com ela uma vez por ano, quando o verão seca a estrada e permite que eu vá lá. No governo do Romildo a estrada ficou fechada por dois anos, não agüentei de saudades, me obriguei a pedir uma passagem de avião e fui ver minha velha mãe. É assim a nossa vida!”.

Em obras

O engenheiro civil Márcio Morales de Souza é o responsável pelas obras que vêm sendo realizadas pelo Deracre na regional Envira-Tarauacá, incluindo-se aí o município de Jordão. “Desde o dia 17 de maio, estamos com homens e máquinas trabalhando no trecho de Feijó para Manuel Urbano e nossa previsão é liberar o tráfego de veículos na segunda quinzena de junho, já que neste ano as chuvas se estenderam além do previsto. O trabalho é demorado porque temos de raspar toda a lama acumulada no inverno e substituir por uma camada de terra boa que precisa ser compactada para garantir segurança aos viajantes”, disse.

Suas equipes também estão trabalhando na recuperação dos 40 quilômetros já asfaltados entre Feijó e Tarauacá. A partir do quilômetro 19,5, no sentido Tarauacá - Cruzeiro do Sul, fiscalizam os trabalhos de construção de base e asfaltamento de mais 34 quilômetros pela Construmil. “Temos trechos de estrada, obras de arte e pontes sendo construídos em todo o trecho que cuidamos até o rio Gregório. Nos próximos dias vamos reiniciar os trabalhos de conclusão da pista do aeroporto de Jordão, onde também estaremos abrindo neste ano os 32 quilômetros do ramal que vai ligar a cidade ao porto do rio Muru, a primeira estrada daquele município.”

Operação 2007

241 quilômetros desde Sena Madureira até Feijó
47 máquinas operando em duas frentes de trabalho
150 trabalhadores por conta do Deracre
50 pontes em reforma e manutenção
4 balsas na travessia dos rios Purus, Envira, Tarauacá e Juruá

Trechos em obras na BR-364

84 quilômetros de reabertura de Sena para Manuel Urbano (Deracre)
140 quilômetros de reabertura para Manuel Urbano/Jurupari/Feijó (Deracre)
Construção da ponte sobre o rio Jurupari (Construmil)
Recuperação do asfalto entre Feijó e Tarauacá (Deracre)
Construção da ponte sobre o rio Pirajá com 43 metros (Construmil)
124 quilômetros de Tarauacá/Gregório/Liberdade (Empresas)

Obras em andamento de Tarauacá para Cruzeiro

Lote 1 – Asfaltamento de 33,9 quilômetros da estrada de Tarauacá para Cruzeiro a partir do quilômetro 19,5 (Construmil)
Lote 2 – Asfaltamento de 20 quilômetros (Etam)
Lote 3 – Construção das pontes sobre o rio Taoari, com 140 metros, e rio Gregório, com 208 metros (JM Terraplenagem e Construção Ltda,)
Lote 4 – Asfaltamento 50,01 quilômetros (Construmil)

Geração de empregos

740 nas ações de manutenção das estradas estaduais
1.200 trabalhadores nas obras da BR-364

Resultados da reabertura da BR em 2006

22.997 passageiros transportados
375 viagens de ônibus
780 trânsitos de motos
2.881 trânsitos de carros pequenos
2.253 trânsitos de caminhões
1.750.020 litros de combustível transportados
14.796 de toneladas de material de construção transportados
37.245 toneladas de abastecimento para os municípios

Desenvolvimento sustentável

“Queremos que as obras da BR-364 sejam um exemplo de promoção de desenvolvimento sócio-econômico sustentável com respeito ao meio ambiente e ao modo de viver das populações tradicionais”, afirma o diretor-presidente do Deracre, Marcus Alexandre. “Esse é o grande desafio porque queremos garantir desenvolvimento com igualdade de oportunidades e garantia de vida digna para todos.”

Para que isso seja possível, além do R$ 1,9 milhão em recursos próprios que o Deracre está investindo para reabrir os 230 quilômetros entre Sena Madureira e Feijó, há uma ampla parceria de trabalho do governo do Estado com as prefeituras, entidades não-governamentais e associações de produtores para garantir a documentação das terras e a preservação da natureza. “Ao longo dos oito anos do governo Jorge Viana, a malha viária do Acre praticamente dobrou. Consideramos que o sucesso desse trabalho depende da colaboração de todos, agora temos a oportunidade de consolidar a BR-364 nesses quatro anos e isso será um mérito de todos os acreanos. Até agora é trabalhar, trabalhar e trabalhar”, declarou.


Os heróis da floresta

Esta foi, sem dúvidas, a pior viagem de minha vida. A lama, o calor, a chuva e o frio maltratavam o corpo quando caminhava a pé ou tentava equilibrar sobre o burro. Trocamos vários animais porque se esgotavam, caíam e não agüentavam de tanto esforço.

Mas esta não era uma viagem de aventura, era uma missão que cumpríamos por aquelas pessoas, os verdadeiros heróis da floresta para as quais estes problemas fazem parte do dia a dia. Aprendi muito com elas. São pessoas que apesar das dificuldades mantêm sempre um sorriso no rosto, a esperança no coração e os braços abertos para receber quem chega ou passa.

Uma gente para a qual “pequenas coisas” como o Luz para Todos, o Bolsa Família, as escolas, ou a estrada reaberta a cada ano e revestida de terra vermelha já significam grandes mudanças que melhoram suas vidas. E tem fé de que nestes quatro anos terão asfaltada sua estrada da esperança. As máquinas já estão na obra.

Juracy Xangai

 

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 3 de junho de 2007
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A