ESPECIAL
   ENTREVISTA
“A oposição quer destruir o que eu fiz”


Regiclay SaadyLeonildo Rosas

Quando assumiu o governo do Acre em janeiro de 1999, o engenheiro florestal Jorge Viana tinha 38 anos de idade. A herança que lhe foi conferida nas urnas não merecia comemorações.

Prestes a completar 100 anos de existência, o Acre vivia uma situação lamentável sob todos os aspectos. Funcionários públicos com os salários atrasados, prédios públicos destruídos, instituições desrespeitadas e o crime organizado exercendo um poder paralelo revelavam um quadro assombroso.

Mas, com essa herança nas mãos, Jorge Viana não se limitou a reclamar dos antecessores e a fazer uma administração olhando pelo retrovisor. Pelo contrário. Tratou de construir uma nova história na forma de administrar o patrimônio público.

Uma das primeiras providências tomadas foi a de regularizar os salários dos servidores, pagando os atrasados e garantindo o pagamento dentro do mês trabalhado. Também foram recuperados os prédios públicos e feitos investimento na qualificação profissional dos funcionários.

O governador também se esmerou em construir uma imagem positiva do Estado para além de suas fronteiras. A imprensa nacional, que antes destacava apenas os escândalos protagonizados pelos homens públicos, começou a perceber que aqui também aconteciam coisas boas.

As mudanças realizadas no primeiro mandato, merecendo destaque o desbaratamento do crime organizado e a recuperação da auto-estima de cada acreano, credenciaram Jorge Viana para exercer um segundo mandato nas eleições de 2002.

Agora, faltando quatro meses para entregar o cargo ao seu sucessor, ele anuncia que entrará com mais força na campanha do candidato da Frente Popular, Binho Marques, ao governo.

Jorge Viana, que afirma ter posto a sua vida na missão de administrar o Acre, também terá seu governo avaliado nas eleições deste ano. Nesta entrevista, ele defende o seu governo das agressões, revela o que pensa dos seus adversários e afirma que Binho Marques terá condições de fazer um governo melhor do que o seu.

O senhor tem dito que a partir de agora irá se empenhar mais na campanha. Como será esse empenho?

Nós dividimos a campanha em duas etapas. Na primeira etapa o Binho, o Tião e lideranças da Frente Popular conduziram o trabalho. Eu fiquei responsável, prioritariamente, de cuidar do governo. Agora, vou continuar no governo, mas vou, junto com os prefeitos, intensificar os trabalhos em cada município.

Como será esse trabalho?

Será conversando com as pessoas sobre os caminhos que tem para o Acre.

E quais são os caminhos?

Na minha visão há dois caminhos. O nosso, que representa um aprofundamento das mudanças no Acre e das melhorias da vida do povo. O outro é da oposição, que representa o Acre que a gente já viu governado por eles.

Que Acre é este governado por eles?

É o Acre do atraso e que representa o perigo de destruir aquilo que a gente fez com muito sacrifício.

O senhor não é candidato. Essas eleições estaduais, no entanto, acabarão sendo o julgamento dos seus oitos anos de mandato. Como o senhor acha que a população julgará?

Eu trabalho, junto com minha equipe, todo dia pensando na população. Queira Deus que esse julgamento seja positivo conforme mostram as pesquisas. Tenho tranqüilidade para receber o que as pessoas que moram no Acre decidirem.

Mas a oposição já vem julgando, e condenando, o seu governo?

A tranqüilidade que tenho para aceitar o julgamento da população está distante de um outro posicionamento meu.

É qual é esse posicionamento?

Eu não aceito que setores da oposição, que pessoas que governaram a prefeitura de Rio Branco por oito anos, destruíram a nossa capital, que governaram o Acre por mais uma década e começaram o processo de destruição do Estado queiram fazer esse julgamento.

Mas eles não têm esse direito?

Não, porque não têm autoridade moral para isso. Eles ficam fazendo o jogo de tentar enganar a população com a política rasteira, de agressão e de mentira, na tentativa de me pôr como candidato, mesmo eu não sendo.

O senhor fala que está sendo agredido. Como o senhor se defende?

Estou tendo que procurar na Justiça a maneira de me defender e, ao mesmo tempo, nos espaços que tenho na imprensa onde sou perguntado sobre o assunto. Contra a mentira ponho a verdade, em defesa do governo e das candidaturas do presidente Lula, do Binho e do Tião.

Numa eventual vitória do candidato Binho Marques, o senhor acha que seria um governo para continuar seu trabalho ou que poderia fazer mais mudanças?

Nesse momento, o Acre está precisando das duas coisas. Necessita que algumas continuem e outras sejam mudadas. O melhor é juntar as duas coisas. O Binho representa isso para o Acre e o presidente Lula, para o Brasil.

Como o senhor imagina que seria um governo de Binho Marques?

Tenho certeza de que o governo do Binho vai continuar o que está bom e mudar tudo aquilo que precisa ser mudado para melhor. E tem mais: acho que o Binho tem condição de fazer um governo muito melhor do que o que eu fiz.

Por que essa certeza?

Porque o Binho é um dos melhores e mais experientes gestores que a gente tem. Ele conhece a fundo os problemas do governo e sabe como resolvê-los. Outro ponto favorável é que ele terá mais condições do que eu, porque irá pegar a sucessão da gente.

Setores da oposição declararam que fariam uma campanha sem agressão. No entanto, a situação mudou depois da divulgação da primeira pesquisa. A que o senhor credita essa mudança?

Ao desespero. Eu lamento de todas as formas que isso esteja acontecendo. Espero que a Justiça Eleitoral não permita que, já no começo da campanha, a gente tenha que sofrer tantas agressões.

De onde partem essas agressões?

Tem um jornal e uma televisão, a mando do senhor Marcio Bittar, que diariamente agridem a minha honra, o governo e o povo acreano.

Mas essas são posições políticas...

Não adianta vir com essa conversa que é um político que está dando opinião. São paus-mandados do senhor Marcio Bittar, que vai com um sorriso de ‘me-engana-que-eu-gosto’ por um lado tentando enganar o povo do Acre, enquanto manda as pessoas que aceitam esse papel deprimente me agredir diariamente.

Qual é a sua resposta para isso?

Primeiro, tenho procurado a Justiça. Já tenho mais de cinqüenta processos tentando o direito de me defender. Em segundo lugar, respondo trabalhando mais ainda, converso com a população para que a gente não permita que esse tipo de pessoas, que só sabem fazer a política do ódio e da destruição, tenha espaço na política acreana.

Mas o senhor está querendo impedir a oposição de agir?

Não é isso que defendo. O Acre precisa continuar esse processo de renovação política botando pessoas honestas e boas para se somar ao que a gente está fazendo. Não podemos é piorar o nível.

Na sua avaliação, qual é a diferença entre o grupo político que dá apoio a Binho Marques para o que apóia Marcio Bittar?

O Binho tem orgulho de dizer que tem referências na administração de Raimundo Angelim na prefeitura de Rio Branco, na minha à frente do governo, no mandato do senador Tião Viana no Senado, da Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e das demais lideranças da Frente Popular.

E Marcio Bittar?

Ele tem vergonha de apresentar Mauri Sérgio como prefeito, Flaviano Melo como governador, Narciso Mendes como empresário e seu irmão como secretário e homem-forte no governo de Flaviano. Essa é a diferença. O Binho se orgulha dos seus aliados, enquanto Marcio tem vergonha.

Então, o que está faltando?

Está faltando sinceridade de Marcio Bittar. Ele deveria ser sincero com a população, dizendo que o prefeito que ele ajudou a governar, que lhe ajudou a dar um mandato de deputado federal, foi o Mauri Sérgio, que é sua fonte de inspiração. Ele deveria dizer que o governo que imagina para o interior do Acre é o que Flaviano fez, que aliás foi uma tragédia. Ele deveria assumir isso, porque o Binho assume e se inspira nos aliados que tem.

Como o senhor acha que a população pode definir em quem votar?

É só comparar como é que o Acre está depois de sete anos e sete meses do nosso governo com o Acre da época que Flaviano Melo e a turma do Marcio Bittar, Mauro Bittar, Mauri Sérgio e Narciso Mendes governava. O Acre vivia nas páginas policiais e nas tragédias.

Foi fácil reverter essa imagem?

Não. Deu muito trabalho pra a gente reconstruir o Acre. Infelizmente, essa turma não quer ganhar o governo para fazer o bem e melhorar o Estado.

Então quais são os interesses deles?

Eles querem ganhar para destruir o que nós fizemos. Para destruir as vidas dos servidores públicos, como já destruíram no passado. Para tentar me destruir. Para tentar destruir pessoas honestas que trabalharam comigo e levantaram o Acre. Tenho fé em Deus que a população fará o julgamento justo e essas pessoas terão o acerto de contas no voto, que é a essência da democracia.

Binho Marques foi secretário de Educação do seu governo. Quais foram os avanços obtidos nesse setor?

Nós, coordenados pelo Binho, fizemos uma revolução na educação. Nunca se fez tanto pela educação como agora. Todos os nossos professores ganham o melhor salário do Brasil. O de Brasília é um pouco maior do que o nosso, mas é para quarenta horas. O nosso é para trinta horas. Todos os avanços são fruto do homem da educação, que é o Binho.

Como o senhor qualifica o projeto da oposição?

O projeto deles é o projeto do ódio e da destruição. Eles governaram Rio Branco e muitos municípios durante décadas. Eles são a turma do salário atrasado, das contas fantasmas, que desviava os donativos da alagação, ficando com os remédios, colchões e comida que eram para os mais necessitados.

Como o senhor imagina que o eleitor acreano irá se comportar nessas eleições?

Acho que haverá uma comparação entre eles, que já governaram e trouxeram o caos para o Acre, e a gente, que está tentando tirar o Estado dessa situação. Graças a Deus estamos conseguindo.

Mas Marcio Bittar se apresenta como a novidade da política acreana...

Sinceramente, não tem novidade na sua proposta. Ele representa o velho e o perigo de o Acre voltar a viver as tragédias que já viveu no passado.

A coordenação da campanha de Binho Marques é bem definida, inclusive o senhor é um dos membros. O senhor sabe quem está por trás da campanha de Marcio Bittar?

Todos nós sabemos o que o Marcio representa. Todos nós sabemos que foi seu irmão Mauro Bittar, o homem-forte do governo Flaviano Melo, que lhe pôs na política naquele período da conta fantasma Flávio Nogueira.

Mas é somente Mauro Bittar?

É de domínio público que um político muito próximo dele é o ex-prefeito Mauri Sérgio, que foi uma das piores experiências administrativas que o povo de Rio Branco já viveu. Mauri foi julgado nas urnas ao se candidatar após sair da prefeitura. Todos sabem que o grupo político de Marcio Bittar também está representado em Alércio Dias, Flaviano Melo e Narciso Mendes.

Mas é necessário o senhor mencionar os nomes dessas pessoas?

É claro que sim. A população tem que saber quem são essas pessoas. Pelo parece, nós não podemos nem dizer os nomes delas porque vão afirmar que estamos acusando-as de alguma coisa. Nós queremos que a população saiba, porque tenho muito amor pelo Acre.

Governador, não é legítimo a oposição querer vencer o governo?

O problema e que eles têm uma gana não de ter o governo, mas de destruir o que eu fiz. Eles não querem melhorar o que foi feito nem consertar o que está errado. Querem tomar posse do Acre para fazer a política do ódio, da perseguição e da destruição.

Mas o senhor acha que o povo do Acre vai aceitar isso?

Não. Acho que o povo acreano não aceitará isso. Não está em jogo uma disputa de PT e Frente Popular contra os partidos deles. O que está em jogo é a nossa vida e o nosso futuro. Eu acho que devemos ter responsabilidade com o nosso futuro.

Em 1998, quando concorreu ao governo, o senhor contou com o apoio de apenas três prefeitos. Agora Binho Marques é apoiado por dezoito. A que se deve essa mudança?

Isso deixa claro que nós estamos fazendo a política certa. Reconheço que já erramos muito na política. Esses erros são importantes para corrigir rumos. Hoje, temos prefeitos de vários partidos que estão ajudando o presidente Lula, o Binho e o Tião.

Mas por que isso?

Porque em todos os municípios o governo está trabalhando em parceria com os prefeitos. Há união e trabalho. Esses prefeitos estão sendo gratos pelo trabalho que nós fizemos. Tenho certeza de que no governo do Binho e no segundo mandato do presidente Lula será possível fazer muito mais. Perdeu-se muito tempo brigando.

Por que o senhor critica tanto os seus adversários?

Primeiro, eu não critico, respondo aos ataques que me são feitos. Sei que construir dá trabalho e exige sacrifícios. Agora, destruir é bem rapidinho. Por isso eu falo que é um perigo alguns grupos políticos pegarem o governo. Eu sei que eles querem o dinheiro. Eles não querem a oportunidade de trabalhar porque demonstraram isso quando governaram. Temos que ficar vigilantes.

A Frente Popular também é bastante criticada pelas alianças que faz. Recentemente as críticas foram em cima das coligações com o PL e o PP...

Desde que comecei o meu trabalho, em 90, pela Frente Popular, sempre me coloquei como uma aliancista. Acho que o que está agora não é um projeto do PT nem da Frente Popular. É um projeto mais amplo. Que bom que mais pessoas de outras forças políticas estão vendo na nossa proposta a melhor proposta para o Acre. Acho que a gente tem que estar aberto a isso. Mas a aliança que eu sempre gostei de fazer foi com a população.

E a população gostou de fazer aliança com o senhor?

Sim, ela sempre quis. Estão aí a aprovação do governo e o carinho que a gente tem.

E os seus adversários?

São arrogantes e prepotentes. Por isso estão diminuindo, pode prestar atenção. Eles já tiveram o MDA. Eu não sei que letra sobrou do MDA porque a cada eleição eles diminuem um pedaço.

A quer o senhor credita essa diminuição?

Porque querem mandar e dar ordem em todo mundo. Querem fazer a política do coronelismo. Esse tempo já passou e eles não entenderam.

O que o senhor espera das eleições?

Que sirvam de lição para alguns. Queira Deus que o povo do Acre, com a sabedoria que sempre teve, continue a limpeza na política, botando alguns desses candidatos Copa do Mundo para fora.

Candidato Copa do Mundo?

Sim, são aqueles que só vêm atrás de mandato de quatro em quatro anos. Pode olhar que no dia dois de outubro eles pegam o avião e vão embora para retornar na eleição seguinte. São os que fazem os discursos mais exaltados, mas são os que menos gostam do Acre.

Em janeiro de 2007, o senhor vai entregar o Estado com 104 anos, tendo sua história contada por meio de uma minissérie. O que isso representa para o senhor?

É um presente da minha vida que está sendo produzido pela Rede Globo e escrita por uma talentosa acreana chamada Glória Perez. Iremos ter a oportunidade de mostrar a Amazônia para o Brasil e o mundo através do Acre. Vou sair do governo dia primeiro de janeiro e a minissérie estréia dia dois.

Qual o outro presente que o senhor gostaria de receber?

Esse outro a gente está lutando e vai batalhar, dia-a-dia no meio da rua, falando com as pessoas e pedindo que elas me ajudem a dar uma grande votação para o presidente Lula, que é de longe o melhor presidente para o Acre. Também vou pedir que elejam o Tião, que é um senador importante para o Acre e para o Brasil. E o presente que eu gostaria de receber é ver esse trabalho que a gente fez com tanto amor e carinho ter continuidade com o Binho.

Qual é a importância de Binho Marques nesse projeto da Frente Popular?

Ele já andava nos seringais dando aula, construindo escolas com Chico Mendes quando eu nem pensava em ir para os seringais. O Binho está no começo dessa história. Ele começou antes da Marina e de mim o movimento político. Agora está na hora de nós devolvemos para ele o que ele fez por todos nós. E essa devolução se concretiza elegendo-o governador. Tenho certeza de que ele será melhor do que eu fui porque terá mais condições de governar.

 

 
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Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2006
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