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Debate/Aquecimento global - Parte 5 *

O pensamento de Aziz Al`Saber sobre a ameaça de savanização da Amazônia

Em Beirute ele ficava na porta do mercado indo auxiliar as pessoas que queriam comprar guilhos(F) e outros, ou comprar ouro nos mercadões do oriente médio, tanto no Cairo como em Allepo(F), etc., as pessoas pegam punhado de jóias de ouro, jogam na balancinha e fazem um cálculo e a pessoa leva aquilo para depois revender. Então, meu pai era um boy de mercadão. E os beduínos inteligentes que ficavam na porta ensinaram tudo a ele, a escrever, a ler e ensinaram a ele ética e outras coisas mais. Se eu fosse contar os problemas que ele me contava quando era pequeno sobre a ética do beduíno da frente do mercado nós ficaríamos horas aqui. Mas resultado, quando ele completou 15 anos minha avó pegou e disse: Você vai para o Brasil, vai lá, porque tem que trazer o meu marido. Ele está ficando tempo demais lá em São Luiz do Paraiti que eu não sei nem onde fica, eles não tinha mapas, eles vinham para América às vezes do sul pensando que o Brasil se chamava América, tem o caso de uma família de um conhecido meu lá de São Paulo, muito conhecido que a senhora trouxe os filhos para encontrar o marido e veio, chegava em Recife, aqui é América? O cidadão muito burrinho dizia aqui não é América. Prosseguia em Vitória aqui é América? Não, não é América. Chegou no Rio de Janeiro: Aqui é América? O sujeito disse: Não, aqui não é a América.

Quando chegou em Rio Grande do Sul perguntou: Aqui é América, perguntou para o piloto, ele virou e disse: Aqui não é América, mas a senhora vai ter que descer, porque é o último ponto do nosso roteiro marítimo e deixaram a mulher dentro da alfândega com os 4 filhos, a envolveram nos fardos etc., e só depois que em Pelotas alguém soube do caso e conhecia a região da senhora, ajeitou e levou para São Paulo e fez assim, mas o meu pai veio para o Brasil para buscar o meu avô, atravessou o mediterrâneo e o atlântico, naquela época a França era tudo para o Líbano, então eles queriam, o meu pai queria conhecer um pedacinho da França, que fosse, na parada do navio, Marselha sobretudo, mas o navio parou em Gênova, por que era um navio italiano e o meu pai não era muito conhecedor de história do mundo não gostou muito não, porque o problema dele era pisar na França onde os primos dele já tinham estudado e ele gostava muito disso. Chegou no Rio de Janeiro, chegou no Rio de Janeiro.. E o grande Adib Jatene, os pais chegaram até Rio Branco no Acre e hoje eu perguntei um dia para o Dr. Adib que eu tenho uma certa intimidade com ele, doutor Adib, porque o senhor não vai visitar sua terra no Acre? Ele virou pra mim e disse: Eu não gosto de andar de avião. Bom, mas o certo é que o Nassibinho, no navio ele fazia tudo que podia, imagina o que é que era a geografia humana da imigração, tudo que podia para ganhar um pouquinho de dinheiro.

A mãe dele trocou um pouco de dinheiro em libras e ainda deu uma corrente de ouro para, se você tiver necessidade venda a corrente que você pode sobreviver algum tempo, mas chegando no Rio, depois de toda aquela trajetória fantástica marítima em que o pessoal que parou no Cairo pegou os barquinhos para irem até, parou no Egito para ir até a Alexandria, o pessoal foi todo roubado, voltaram para o navio a zero, então o Nassibinho, não foi nem um pouquinho que ele tinha foi desgastado. Mas chegando no Rio de Janeiro, desceu do navio muito contente por conhecer uma cidade do Brasil e quando desce todo mundo se espalhou cada qual para um canto e ele ficou sozinho na praça da alfândega. Eu que tenho uma sentimentalidade muito grande para com essas coisas imagino como é que foi o susto dele de sair de um lugar que quase uma família ocasional e parar na alfândega do Rio. E aí ele então começou a fazer rodeios nas praças e voltando sempre ao mesmo lugar com medo de se perder e de repente procurando alguém que tivesse os olhos de árabe. Não é qualquer pessoa que tivesse os olhos de árabe, mas as mulheres tem e encontrou uma árabe e falou em árabe com ela e ela disse: Ah! O que é que você está fazendo? Aí ele explicou que precisava ir até São Luiz do Paraitinga via Taubaté. A moça disse: Não tem problema. Você tem algum dinheirinho troca aqui as libras, porque vai precisar. Você segue essa rua reta, quando chegar uma rua transversal a essa e não dá para seguir você quebra para a esquerda vai dar na estação central do Brasil. Chega lá você tira um dinheirinho médio e uma nota e põe no bilheteiro e diz: Taubaté. Não fale muito que bilheteiro não quer falar muito. E ele tinha um pouco de razão.

E assim o Nassibinho, sem comer desde a manhã até a tarde saiu do Rio de Janeiro para vir para Taubaté. Morto de fome. Quando chegou perto de Guaratinguetá, não agüentava mais, chegou para o dono, para o chefe do trem e disse assim. E deu um dinheiro, o chefe do trem: Muito obrigado e ele passou fome de novo, não é? Mas depois ele agarrou o chefe do trem e disse, aí o chefe entendeu deu uma risadinha arranjou uma parada lá do trem arranjou um sanduíche. E aí chegando em Taubaté a mesma coisa, Taubaté naquele tempo tinha o centro histórico da cidade, uma igreja da matriz, uma praça bonitinha, uma descida para a praça do mercado e uma saída para o, a estação da central. E ele parou na estação da central e ficou, não, sabia que como é que iria encontrar o lugar para ir para São Luís do Paraitinga, não é? Eu considero isso uma história do imigrante e eu tenho provocado muita gente para escrever a história de seus pais, quando eles vieram de muito longe da Alemanha, ou da Suíça, ou da Polônia, ou da França, mas aí ele começou a girar em torno dos quarteirões próximos das estações, porque tinha uma rua um tanto reta que saía da estação e ia até a matriz e a pracinha e chamava-se Rua das Palmeiras. Eu tenho ido lá, hoje é uma rua portentosa, mas era apenas o começo das ruas das Palmeiras. E chegando lá nos quarteirões, ele fez verdadeiros passeios procurando alguém que tivesse olhos de árabe e encontrou de novo uma árabe, por isso que eu costumo dizer que as mulheres têm que ter muito cuidado comigo, porque o meu pai encontrava árabes com facilidade, quem sabe se eu herdei isso, não é? Bom, mas a realidade, na realidade o Nassibinho seguiu o que a árabe disse para ele: Vai por essa rua, que é a rua das Palmeiras quando chegar na frente da matriz você passa em frente vai reto ainda como se fosse essa mesma reta, aí tem uma ruazinha cheia de pequenos comércio, depois tem a praça do mercado. E ao lado tem uma porção de parentes de patrícios seus e você lá vai falar em árabe com eles e eles vão resolver o problema de como você vai chegar em São Luís do Paraitinga.

E naquele tempo ainda existiam tropas para levar o café do vale do Paraíba médio para Ubatuba. E ele chegando em, lá nos patrícios, eles disseram: Não tem problema, toda a madrugada sai uma tropa levando café e eles levam algumas pessoas a cavalo, então você vai lá e contrata com eles para ir para lá, provavelmente eles não vão te cobrar, porque você é muito moço e tal. Mas você vai ter um problema, vai ter que dormir na calçada, porque as casinhas dos tropeiros são muito pequenas, minúsculas como eram as casinhas lá na praça da, na rua 25 de março onde paravam os que vinham de Santo André e de outros lugares do sul, lá do litoral, não é? Aí ele dormiu lá na calçada, quando chegou as 3 horas da madrugada acordaram ele e disse: Vamos. E então a tropa seguiu para São Luís e ele conseguiu chegar lá e em lá chegando ele foi falar com um irmão dele que já estava aqui e que não lembrou dele, porque ele era pequeno quando o irmão veio com o avô para cá. Aí ele chegou e disse: Me diga uma coisa: Você está aqui na porta do mercado e eu estou chegando do Líbano e eu queria fazer uma lojinha um pouco como a sua, não tão grande. O que é que você me recomenda? O irmão dele, o Najib deu um murro na Mesa, você quer vim competir comigo aqui não tem nem condições para mim próprio ainda vem você lá do Líbano fazendo essa mesma coisa? E assim ele acabou no outro dia, ele se identificou foi uma festa no outro dia ele foi encontrar o meu avô que morava lá na roça numa vendinha de beira de estrada secundária e tinha cavalos, tinha arreios, e tinha armazém de secos e molhados, naquele tempo secos e molhados era porque tinha alguma coisa de alimento, mas tinha outras coisas, uma chinela, ou uma outra coisa, pois bem, e aí foi aquela festa, voltaram para o Rio, aí o meu avô já falava razoavelmente o português ficou numa pensão, depois tomaram o navio e voltaram para o Líbano. Mas note bem, a volta para o Líbano teve conseqüências impensadas, porque como ele tinha vindo da Síria com 15 anos, do Líbano com 15 anos até o Rio ele quando voltou ele era o pequeno herói da família e ele ia para Beirute para fazer as compras com a mãe dele, com a minha avó, ia para as compras e ele então, ajudava a localizar os lugares mais baratos, etc., e um dia chegando no mercadão um grupo de idosos entrou ostensivamente e botou um revólver na cabeça do Nassibinho que agora estava com 16 anos e meio e perguntou assim: É um Cristão que morre? E aí o outro disse: Não tenho certeza.

E por isso ele foi salvo e a família ficou desesperada e a minha avó disse: Nassibinho isso não é terra para você, vai embora para esse país de que o seu avô fala tão bem, onde não há guerra religiosa, não há guerra e a gente é bem recebido. Eu falo isso com emoção, porque esse é o elogio maior que se fez ao nosso país lá fora num outro tempo, não é? E queria também dizer que assim ele veio, mascateou um pouco, depois ele, aliás, ele chegou em São Paulo por Santos e não pelo Rio, chegou ao Brasil por Santos, e aí o irmão dele que tinha a lojinha de lá estava trabalhando sabe onde? Na barragem que tem no Rio São Francisco, Sorocaba que hoje pertence ao Antônio Ermírio de Morais por isso que eu não gosto deles. Mas veja bem, o irmão estava trabalhando em carregar pedras e montar a barragem e perdeu um rim, ficou com um problema no rim, naquele tempo não tinha antibiótico e não tinha nada, arrancaram o rim do pobre Najib e o Nassib ficou trabalhando na rua do gasômetro com marcenaria que ele tinha aprendido lá na porta do mercado. Mas tudo isso para dizer a vocês que eu tenho para com o mar uma atitude extraordinariamente simpática e alegre. Esse mar que vem do mediterrâneo até o atlântico, esse mar que eu já vi lá das costas altas de Portugal, no Cabo das Rocas e que aqui tem um Cabo Frio, porque tem uma emergência de águas frias na região entre Macaé e Cabo Frio, mas então todo o lugar que eu estou eu fico testando o que pode acontecer se o calor for muito grande durante o aquecimento global e o mar crescer de novo e inundar a cidade, quer pela barra dos rios, quer pelas planícies e talvez, se for maior, inundar a cidade por cima das planícies de restinga. Então o meu conselho é que se deva fazer tudo para mitigar as emissões de gases particulados e tudo para conhecer os locais e saber, dentro dos próximos 30 a 50 anos, o que fazer, se é que o que aquecimento global venha a ser uma réplica do acontecimento natural, que foi o ótimo climático.

* Continua amanhã

 
 
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Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2007
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