| ALMANACRE | |||
| Elson Martins | |||
Noiva do Sol Eu sempre quis conhecer Natal, a capital do Rio Grande do Norte cujo filho mais ilustre, Luis da Câmara Cascudo, chamou de “noiva do sol”. Nada mais poético e apropriado: ali tem sol o ano inteiro atraindo turistas de toda parte para suas praias lindas. E pensar que quase perdemos essa beleza toda! De fato. Pelos idos de 1535, piratas franceses fizeram amizade com os índios da terra, os potiguares, e tomaram conta desse pedaço do litoral nordestino. Os portugueses abrasileirados que se aproximavam eram rechaçados. A situação se estendeu até 1597, quando o rei de Portugal enviou uma esquadra que expulsou os invasores e construiu o forte dos Reis Magos, uma das maravilhas do Brasil. Para conhecer essa e outras fascinantes histórias de brasilidade é preciso ler Câmara Cascudo, que produziu fenomenal obra literária composta de 160 livros. Nós, acreanos e amazônidas, conhecemos pouco desse homem genial que pesquisou e escreveu sobre folclore, gastronomia, história, música e religião; que fez ensaios sociológicos e antropológicos; enfim, que se tornou uma lenda nordestina e brasileira no campo da cultura. A viagem foi possível porque descobrimos que existe uma espécie de empresa aérea “pirata” através da qual se compram milhas por um preço em conta, obtendo-se passagens para qualquer parte do país e do mundo. Assim pousamos no terceiro andar do Solar da Candelária, num bairro novo e simpático da capital ensolarada. Tivemos sorte. No andar de baixo encontramos o sociólogo e escritor Homero Costa, professor do curso de doutorado da Universidade do Rio Grande do Norte que na passagem dos anos oitenta para os noventa andou por aqui. Ele lecionou na Ufac e se envolveu com as lutas de Chico Mendes, depois casou com a Marciane, funcionária da Embrapa (com quem tem duas filhas lindas), e voltou para Natal. Tem saudade do Acre e dos amigos, foi para nós um parceiro e tanto. Além do Homero contamos com outros cicerones notáveis, como Anna Maria Cascudo (filha de Câmara Cascudo, promotora de Justiça, jornalista e escritora como o pai), que com o marido construtor Camilo Barreto nos aguardava no aeroporto. E haja gentileza do casal a que nos levou para almoçar e jantar, conhecer praias, rodar pela cidade e nos presenteou livros históricos e da cultura potiguar. Tivemos também a companhia de uma pessoa muito especial que conheci pela internet. Refiro-me à Lúcia Helena Pereira, sobrinha-neta de Juvenal Antunes, notável poeta que viveu no Acre no começo do século passado e durante 30 anos foi hóspede do Hotel Madrid, no Segundo Distrito de Rio Branco. Aos 65 anos, pareceu a encarnação do tio-avô, que morreu em l943, antes de ela nascer. Tal qual o poeta, Lúcia é completamente desassossegada e transpira afetos em tempo integral. Com Lúcia Pereira fizemos uma notável viagem pelos verdes vales do Ceará-Mirim, terra de Juvenal Antunes e dos senhores do Engenho, onde vi semelhanças com os seringais do rio Iaco, apesar da total diferença na paisagem. Percebi nessa viagem o quanto nós, acreanos, temos de alma nordestina. Sobre a cidade eu fiz algumas observações contraditórias. Gostei muito de sua beleza natural e seu urbanismo com prédios e casas bonitas, dos shoppings movimentados, dos hotéis e restaurantes modernos, sobretudo das boas livrarias onde os intelectuais se encontram para conversar. Percebi que muitos cultivam o hábito de formar bibliotecas em casa. Homero tem mais de três mil livros, assim como o Pedro Vicente. E conheci o Inácio Fernandes, que tem 35 mil. Desagradou-me, porém, a ganância imobiliária que avança formando paredões de apartamentos ao longo das praias. A famosa Ponta Negra, na área nobre de Natal, nos fins de semana vira uma tumultuada feira livre, onde gringos, vendedores ambulantes e indivíduos suspeitos se atropelam correndo atrás do vil dinheiro. Os preços altos são uma constante na cidade, que aos poucos troca a identidade nordestina pela vida impressa em dólar.
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