MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Rio Branco 1903 / 1905
Depois da Revolução, novas guerras

Na medida em que nos aproximamos do centenário de morte de Plácido de Castro cresce a importância de compreendermos os acontecimentos que levaram ao assassinato do comandante-em-chefe do exército revolucionário acreano. Para tanto não podemos ceder à tentação de explicações fáceis diante de um contexto tão complexo quanto aquele que caracterizou os anos imediatamente posteriores à Revolução.

1903

O período final da Revolução Acreana, que pode ser delimitado no ano de 1903, foi bastante conturbado em razão das contradições e desencontros ocorridos entre os representantes do governo brasileiro. Ao despachar para o Acre o General Olympio da Silveira à frente de tropas do exército brasileiro o Ministro do Exterior Barão do Rio Branco não poderia imaginar que estava colocando em risco as conquistas dos revolucionários acreanos. Para o sucesso das negociações que culminariam com a assinatura do Tratado de Petrópolis era imprescindível para Rio Branco manter uma posição de força. Ou seja, manter em armas o exército acreano e ao mesmo tempo ocupar militarmente, de forma oficial, o território contestado à Bolívia.

Por isso, as instruções eram claras. O General Olympio e suas tropas deveriam ocupar a região do Acre Setentrional (ao norte de Volta da Empreza - atual Rio Branco), deixando ao Cel. Plácido de Castro e seu exército informal o controle do Acre Meridional (estabelecido em Xapury). Entretanto o arrogante general brasileiro, que havia participado da Guerra de Canudos, buscou desautorizar Plácido de todas as formas fazendo com que este dissolvesse as tropas acreanas.

Não era a primeira vez que Plácido tinha problemas com o exército brasileiro e também não seria a ultima. Mas esse conflito entre o general brasileiro e o comandante dos acreanos não interessava de nenhum modo aos planos do Barão que não teve outra alternativa senão tirar Olympio da Silveira do Acre. Uma clara demonstração de favorecimento a Plácido de Castro que saiu fortalecido do episódio. Em seu lugar foi nomeado o General Cunha Mattos que, com uma posição mais flexível, soube manobrar os conflitos entre os dois exércitos, o acreano e o brasileiro.

Com isso, Barão do Rio Branco estabeleceu as condições necessárias para a formalização do acordo com a Bolívia através do Tratado de Petrópolis (17 de novembro) e passou a cuidar da organização do Acre, cujo território era reivindicado pelo Governo do Amazonas, e das negociações com os peruanos que prometiam ser bastante difíceis, como de fato foram.

1904

Este ano começou com uma grata satisfação aliada a uma grande decepção para os acreanos. Se por um lado o governo brasileiro decidiu não permitir o domínio amazonense sobre as terras acreanas, numa grande vitória política. Por outro, ao contrário da expectativa de todos os que lutaram pela anexação do Acre ao Brasil, a Republica do Brasil gerou um aborto político-administrativo ao criar o Território Federal do Acre, numa clara demonstração de que seu principal interesse era explorar economicamente o Acre, ao mesmo tempo em que revelava seu completo descaso para com os acreanos que esperavam ver criado o Estado do Acre. Com isso, já a partir de abril de 1904, os acreanos se tornavam um pouco menos brasileiros do que todos os outros cidadãos da republica brasileira.

Plácido de Castro passou então a atuar em duas frentes simultaneamente. Pelo lado pessoal tratou de tentar estabilizar sua vida econômica deixando de trabalhar para os seringalistas na demarcação de seringais e se tornando ele próprio um seringalista. Pelo lado social, com todo o prestígio que passou a desfrutar depois da vitória sobre os bolivianos, procurou consolidar sua liderança política erguendo a bandeira da autonomia do Acre a partir do “Clube Político 24 de Janeiro” fundado em Xapury.

Em ambas as frentes a atuação de Plácido se tornou então muito controversa, especialmente no ponto de contato entre a vida pessoal e a pratica política. Para esclarecer essa característica basta lembrar que os primeiros Prefeitos Departamentais nomeados para governar os três Departamentos em que foi dividido administrativamente o Acre (Alto Juruá, Alto Purus e Alto Acre) eram todos generais. O que por si só já deve ter desagradado a Plácido que, como vimos acima, tinha um conturbado histórico de conflitos com o exército brasileiro (que vinha, na verdade, desde a Revolução Federalista que o havia levado a deixar o Rio Grande do Sul).

Entretanto, para complicar ainda um pouco mais a situação, para o Departamento do Alto Acre, que se constituía na área de atividade de Plácido, foi nomeado o General Cunha Mattos. O mesmo que comandou a ocupação militar do Acre depois da saída de Olympio da Silveira e que, portanto, já conhecia bem a situação acreana e o próprio Plácido de Castro. E já desde o inicio da história do recém criado Território Federal do Acre começaram a surgir os primeiros questionamentos acerca da atuação do Cel. Plácido, como nos mostra este trecho do relatório de Cunha Mattos.

“Havendo mais de habitante do Departamento requerido a entrega de autos de medição e demarcação de terras que lhes pertenciam, bem como outros papéis de não pequena importância que, diziam elles, deviam se achar archivados em poder de Plácido de Castro, deste reclamei pessoalmente taes documentos, respondendo-me Plácido que não existia nada em conseqüência de se haver incendiado o cartório de Porto Acre, onde os documentos requeridos se achavam recolhidos. Transmiti a resposta de Plácido aos interessados, que não se conformaram com Ella porque sabiam que todo o archivo fôra inventariado e encerrado em uma grande mala convenientemente fechada e lacrada pelo secretario de finanças Rodrigo de Carvalho. Entendendo-me de novo com Placido de Castro, negou este facto, e estavam as cousas neste pé quando procedente da Capital Federal aqui aporta o ex-revolucionário Hyppólito Moreira, que por sua vez me reclamou importantes documentos de demarcações e compra de terras pertencentes a Pergentino Eucracio Ferreira, seringueiro de Bagé.

A Hyppólito Moreira narrei o que acima disse, mas elle que suspeitava que os documentos pretendidos se achavam em poder de Plácido de Castro, empregou o estratagema de a este dirigir-se pessoalmente e por meios brandos e argutos pedir os documentos que, dizem Moreira e Pergentino, ter o valor muito maior de duzentos contos. O ardil empregado por Hyppólito Moreira produziu produziu óptimo resultado, porque Plácido de Castro em sua própria casa de residência em Capatará fez-lhe entrega dos documentos tão anciosamente procurados, pedindo, porém, a Hyppólito Moreira que guardasse sigillo! (...)” (Relatório de Cunha Mattos, janeiro de 1905)

Como se pode ver, sem entrar no mérito da veracidade ou não dos fatos acima descritos, é valido, ao menos, procurar através deles perceber como foram conturbados os anos imediatamente posteriores à Revolução Acreana, nos quais as motivações de caráter pessoal e aquelas de natureza política pareciam uma só. Uma história bastante complexa que continuaremos a ver na semana que vem, analisando também as outras versões desses momentos iniciais.

Obs: esqueci de mencionar que o artigo publicado em parte na semana passada foi escrito originalmente em 1997 como encarte para o jornal A Tribuna no Projeto Memórias e Imagens da Revolução Acreana, a pedido da Prof. Maria José Bezerra

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2008
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A