OPINIÃO
   RETRATOS DO JURUÁ

Nelson Liano Jr.

 

Balaio de gatos

É impressionante! Em tempos em que os tribunais eleitorais cobram a famigerada “fidelidade partidária”, as composições das eleições no Juruá provam que questões ideológicas ficam em terceiro plano na disputa do poder. Na verdade, isso é uma questão nacional e não regional. Mas como dizia Tolstoi, para entender o universal a gente fala da nossa aldeia.


O fato é que a maior coligação partidária no Acre, a Frente Popular, corre o risco de sair esfacelada depois dos resultados das eleições no Juruá, seja qual for. Alguém vai ficar insatisfeito.


Em Mâncio Lima, o professor Cleidson Rocha, do PMDB, tem como candidato a vice Eriton Maia, do PC do B. Do outro lado, o paraibano Coutinho, do PP, candidato do atual prefeito Luis Helosman(PP), tem como vice a Joyce, do PT. A menos de 30 KM de distância em Rodrigues Alves, o adversário do PP, do Mido, é o próprio PT, do Burica. É incrível, né? O PT se alia ao PP em Mancio Lima e enfrenta o mesmo partido em Rodrigues Alves. Realmente não dá para entender. É muito contraditório. Por outro lado, o vice do Mido é do PC do B, que vai enfrentar o PP no município vizinho e o PMDB, em Cruzeiro do Sul, onde tem o vice Zequinha Lima. Complicado.
Outra fato interessante, em Mancio Lima, o candidato do prefeito Luis Helosman, Coutinho é a Frente Popular. Mas todo mundo sabe que Helosman é irmão do ex-deputado, João Tota, agora no PTB, e candidato a vice na chapa da prefeita Zila Bezerra (PTB), arqui-adversária da FPA, em Cruzeiro do Sul. Um especialista em ciências políticas se perguntaria: “como assim?”

Vamos ver ainda a situação no Guajará (AM), município há 16 Km de Cruzeiro do Sul. Na eleição passada, o candidato do PC do B, Valderi, enfrentou o atual prefeito Samuel Farias (DEM) numa disputa que se estendeu aos tribunais muito depois de abertas as urnas. Agora, pasmem, Samuel abriu mão da reeleição para apoiar o Valderi, do PC do B. Um verdadeiro balaio de gatos.

Situações estranhas como essas se espalham por todo Brasil. Vejam os casos das coligações partidárias de Belo Horizonte, de São Paulo e de Manaus. Quem era adversário virou aliado. E aliados tradicionais se tornaram adversários. Então, eu pergunto: o que vale o partido ou o candidato? Parece ser mais o jogo das personalidades. Há muito os partidos perderam a sua identidade. As alianças são feitas de acordo com os interesses imediatistas para se chegar à vitória nas urnas.

Quem ainda se lembra que a origem do PPS é o Partido Comunista, que era conhecido como Partidão? O PTB, seria o maior baluarte trabalhista da tradição política brasileira. Mas quantos operários e sindicalistas são candidatos pelo PTB Brasil afora?

Nas eleições de Cruzeiro do Sul, os quatro candidatos são empresários. Dos vices, apenas um é funcionário do Ministério do Trabalho, Mazinho Santiago, que saiu com Vagner Sales (PMDB) e Zequinha Lima (PC do B) que tem origem no SINTEAC, parceiro do Zinho Santos (PP). Definitivamente num país governado por um operário, Lula, parece que os trabalhadores têm poucas oportunidades de chegarem ao poder nessas eleições.

Acredito, que depois destas eleições os parlamentares brasileiros têm que se debruçar com urgência na reforma política do país. Não tem sentido pleito a cada dois anos. Tem político que se elege deputado na intenção de ser prefeito e prefeito que se elege na intenção de ser deputado. Cada macaco no seu galho. Cada um tem que saber o cargo que quer e que tem condições de ocupar e não ficar pulando de galho em galho conforme os interesses pessoais e não universais.

Em Cruzeiro do Sul, todo mundo sabe que existe um acordo entre a atual prefeita Zila Bezerra e o ex-deputado João Tota. Se ela ganhar daqui a dois anos é candidata a deputada. Quer dizer que o eleitor estará votando ao mesmo tempo a prefeito e deputado?

Aí, a coisa se complica ainda mais quando pensamos no tal coeficiente eleitoral. Quem não se lembra que o falecido deputado federal Enéias Carneiro, do Prona, que devido a sua grande votação colocou na Câmara Federal dois deputados com menos de mil votos no maior colégio eleitoral do país que é São Paulo. Não ganha, nas proporcionais, quem tem mais votos, mas as coligações que conseguem maior coeficiente. É uma contradição, porque no Brasil ainda se vota em candidatos e não em partidos.

Claro que tudo tem o seu lado positivo, no caso do Brasil, a consolidação da nossa democracia. Mas a reforma política poderá colocar ordem no caos, sobretudo, se for um espelho da nossa realidade. Não adianta fazer leis para inglês ver. Tem que ser de acordo com os costumes do país, melhor dizendo, tem que refletir as tendências culturais e antropológicas do nosso povo.

Acho o financiamento com dinheiro público das campanhas uma hipocrisia. Todo mundo sabe que os candidatos mais ricos continuarão a dar o seu “jeitinho”para jogarem mais dinheiro nas campanhas do que o permitido. As compras de votos, infelizmente, continuarão a existir. É necessário que se tenha regras definitivas para o jogo eleitoral que possam permanecer e não mudar a cada eleição.

Mas de qualquer maneira vale lembrar que estamos aprendendo com os nossos erros e uma hora a coisa engrena, por isso, viva a festa da democracia!

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2008
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A