ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte X)


Nesta edição chegamos ao fim da quilométrica entrevista com o sertanista José Carlos Meirelles dos Reis Júnior, “o velho do rio”, protetor dos povos isolados na fronteira do Acre com o Peru. A entrevista foi publicada em dez partes, simultaneamente, no jornal Página 20 e no site da Biblioteca da Floresta.

Paulista de Ribeirão Preto, onde estudou até o terceiro ano de Engenharia, largou a cidade e os projetos bem encaminhados de uma vida urbana no sul do país para embrenhar-se na Amazônia, inicialmente no Maranhão e depois no Acre. Por aqui, embrenhou-se de verdade, como indigenista e sertanista da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

Hoje, aos 60 anos, continua na luta com muita história para contar. Em 2007, ganhou o prêmio nacional Chico Mendes do Ministério do Meio Ambiente, na modalidade Iniciativa Individual. Em 2008, ficou internacionalmente conhecido como o sertanista que, obstinadamente, se empenha na proteção aos índios isolados desta parte da Amazônia. Como chefe da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, comanda operações de risco na defesa de cerca de 800 índios isolados que, em pleno século XXI, sofrem pressões de madeireiros, empresas petrolíferas e traficantes de droga, invasores de suas florestas e rios.

Meirelles soma mais de 30 anos de trabalho junto aos índios do Acre, e há 20 cuida dos isolados, procurando impedir a penetração da sociedade branca no entorno de seu mundo pouco conhecido. Essa é a nova estratégia adotada: ao invés de contatar os índios para uma vida incerta entre os brancos, melhor que eles se mantenham sem serem importunados e façam a opção do contato quando e se acharem conveniente. A escolha é deles.

À frente dessa tarefa, certamente incômoda para os planejadores da modernidade que avançam sobre a floresta empunhando a bandeira do progresso a qualquer preço, Meirelles se empenha de corpo e alma e se transforma num herói historicamente raro. Em 2004, foi flechado no rosto por aqueles a quem defende. A ponta da flecha entrou em sua face esquerda e varou no pescoço.

O incidente foi percebido por ele como um sinal de que a situação dos índios isolados estava se agravando. Por isso, tinha que procurar novos parceiros para uma intervenção salvadora. O Governo do Acre, através de sua Assessoria Indígena, atendeu a seus apelos e, em fins de abril de 2008, Meirelles fez sobrevôos sobre as áreas dos isolados, obtendo 1.200 fotos aéreas, além de informações fundamentais para a demarcação da Terra Indígena (TI) Riozinho do Alto Envira, última área destinada aos povos isolados ainda não regularizada ao longo do Paralelo 10º Sul, no lado brasileiro da fronteira.

As fotos foram divulgadas no mundo inteiro, o que de certa forma alertou o governo peruano para as agressões ao meio ambiente e aos índios isolados na parte que lhe cabe na fronteira. E lá foi o Meirelles conversar com entidades de proteção aos índios no Peru, e representantes do governo do lado de lá. Agora o número de parceiros se ampliou e a cobrança de uma solução também. Recentemente, esteve em Brasília com o Embaixador peruano, Hugo de Zela, acompanhado pelo presidente da FUNAI, o antropólogo Márcio Meira, expondo as razões que o levam a acreditar na migração forçada de povos isolados para as florestas dos altos rios acreanos em decorrência da exploração ilegal de madeiras e o início da prospecção e produção de petróleo e gás no lado peruano da fronteira.

Atualmente, o trabalho do sertanista está subsidiando uma exposição sobre os isolados que está sendo montada na Biblioteca da Floresta e será aberta ao público no dia 8 de agosto próximo. O próprio Meirelles orienta a exposição, que conta também com a colaboração dos antropólogos Terri Aquino e Marcelo Piedrafita, além do webdesigner Maurício Lara Galvão.

A entrevista com Meirelles foi feita em três etapas na Biblioteca da Floresta. A primeira, em fevereiro, durou três horas. A segunda aconteceu logo após o Encontro de Sawawo, em maio, onde ele se reuniu com lideranças e dirigentes de organizações indígenas de ambos os lados da fronteira Brasil-Peru, bem como representantes de entidades indigenistas brasileiras e peruanas, para tratar da questão dos isolados. E na terceira etapa, que encerra esta série, ele narra os sobrevôos realizados nas malocas e roçados dos “brabos acreanos” na região do Alto Envira.

Meirelles, além de se expor aos riscos inerentes à sua vida na floresta com a missão de proteger os isolados, sabe fazer política a favor desses povos: articula, escreve textos e relatórios, propõe ações conjuntas com o governo do estado, o Centro de Trabalho Indigenista e a Comissão Pró-Índio do Acre, pesquisa e, quando necessário, critica a quem faz corpo mole ou se conforma com práticas atrasadas de atendimento aos índios. Ele condena, por exemplo, a burocracia oficial que dificulta a utilização de verbas numa região do interior amazônico.
Para finalizar essa série, mais uma vez com a palavra o velho do rio. Boa leitura aos interessados nesses papos brabos. Fala Meirelles! (Elson Martins)


Entendimentos binacionais e apoio do Governo do Acre são hoje necessários para a proteção aos isolados na fronteira Brasil-Peru

Elson: Há quanto tempo os famosos “brabos acreanos”, aqueles das fotos amplamente divulgadas na mídia internacional, estão vivendo nas florestas de terras firmes dos divisores de águas dos rios Humaitá/Envira?

Meirelles: Olha Elson, têm-se notícias antigas desses índios desde o início do tempo da seringa. Já se falava neles, quando os patrões do seringal Califórnia pagavam ao pai do Pedro Biló, o velho Biló, para ele ser polícia de fronteira, protegendo turmas de madeireiros que exploravam madeiras no alto rio Envira e em seus principais afluentes, como os igarapés Jaminauá, Furnanha, Riozinho, Xinane e outros. Felizardo Cerqueira, famoso amansador de brabos no Acre, no início do século passado, já falava nesses índios sem contato com o mundo dos brancos. Serão eles que Felizardo chamava de Amoacas, dizendo que não havia conseguido amansá-los? Será esse mesmo povo? Sei lá! Enfim, parece-me que eles são bem diferentes dos brabos que moram atualmente nas cabeceiras do Riozinho e do Xinane. Estes últimos usam cabelos curtos iguais aos dos Jaminawa. Esses brabos das cabeceiras do Xinane chegaram há pouco tempo do Peru. E deve ser um povo Pano, parente de Jaminawa. Pelo menos o corte de cabelo é muito parecido. Agora esses outros brabos lá das cabeceiras do Humaitá/Envira, que foram fotografados agora pelo Gleílson Miranda, da SECOM, também parece Pano, porque eles plantam muita banana, milho, macaxeira, amendoim, batatas, algodão. Isto deve ser coisa de grupos Pano, que são excelentes agricultores. As folhas que eles usam presas às costas em seus cintos de algodão, como proteção espiritual, é igualmente um costume dos povos Pano.

Txai: Pelas fotos dá para perceber que esses isolados são bons agricultores. Manejam três ou quatro roçados por ano. O que você observou nos recentes sobrevôos nos seus roçados? Diferentemente, os Mashco-Piro, um dos quatro povos isolados no Acre, não colocam roçados porque são caçadores e coletores, não é isso?

Meirelles: Temos agora 1.200 fotos de malocas e roçados de três povos isolados que habitam a região do alto rio Envira. Aliás, suas malocas e casas são construídas no meio ou nas proximidades de seus roçados. A primeira coisa que a gente viu muito foi milho. Eles enchem seus roçados principalmente de milho, macaxeira, banana e mamão. Em algumas fotos dá para ver pés de algodão e urucum plantados. Tem fotos que se ver claramente algodão batido estendido numa esteira de palha na porta de uma maloca. O Pedro Biló já falava que eles dormiam em maqueiras de algodão. O cinto que os homens usam na cintura também é de algodão. As saias das mulheres e as tiaras dos homens são igualmente de algodão.

Nos seus roçados, eles cultivam muito milho, muita macaxeira, muito mamão, muita banana, batata doce, amendoim, urucum, cana e flecheira, essa última na beira dos roçados. Isso foi que a gente viu do alto, mas provavelmente deve ter ainda muito cará, inhame e outros legumes finos que não faltam nos roçados de índios. Dá para perceber que os roçados são grandes e estão em diferentes fases de amadurecimento. Pelas fotos dá para perceber que eles são bem saudáveis. Têm roçados novos, roçados velhos, roçados que já viraram bananais. Roçados velhos e recentemente abertos, capoeiras novas e antigas. Quer dizer, esses brabos manejam três ou quatro roçados por ano. E cuidam cedo de seus cultivos. Já em abril, seus roçados estavam derrubados, encoivarados e plantados. São muito bem zelados e limpinhos. E já estão sendo derrubadas com machados de aço. Dá para perceber isso no corte das árvores derrubadas.

Os brabos acreanos estão vivendo realmente numa grande fartura. Muitos roçados é um indicativo disso. Caça e peixe, você sabe que nessa região têm muito. E como eles estão vivendo até agora tranqüilos, pelo menos no lado acreano da fronteira, estão em boas condições de aumentar suas populações. De fato, os grupos isolados acreanos tiveram um notável crescimento demográfico nesses últimos 20 anos. Pelas fotos dá para perceber que eles são bem saudáveis.

Só não vimos nos últimos sobrevôos roçados e malocas de Mashco-Piro, porque se trata de um povo isolado meio nômade, em constantes descolamentos pelas florestas dos altos rios de ambos os lados da fronteira. Mas já vi muitos tapiris nos seus acampamentos nas cabeceiras dos rios Envira e Iaco. Esses Mashco são caçadores e coletores. Não colocam roçados. Comem carne de caça com cocos ouricuri e outros frutos silvestres.

Enfim, os quatro povos isolados existentes hoje no Acre, com uma população estimada em mais de 800 índios isolados, se incluirmos os Mashco-Piro que transitam pelas cabeceiras dos altos rios Iaco, Chandless e Envira. E atualmente está havendo migrações de outros grupos isolados para as florestas dos altos rios acreanos em decorrência da exploração ilegal de madeiras e do início da prospecção de petróleo e gás no lado peruano da fronteira. Quer dizer, os brabos acreanos constituem uma população considerável. E estão aumentando consideravelmente no estado.

Elson: Considerando o entorno dos territórios ocupados pelos brabos, é interessante observar que eles não possuam ainda armas de fogo. Pelo menos nas fotos dos últimos sobrevôos só se ver arco e flechas.

Meirelles: Olha Elson, nas fotos dos parentes isolados das cabeceiras do Humaitá/Envira realmente eles estão apenas com arcos e flechas. E flecharam para valer o pequeno avião que sobrevoava suas malocas e roçados. Recentemente um bando de brabos saqueou as casas da aldeia Simpatia, dos Kampa do alto rio Envira, desse pessoal de cabelo cortado que nem Jaminawa, que alguns deles tinham, sim, espingardas. O problema é umidade na munição. Pode ter certeza que eles têm espingardas. Não acertaram ainda carregar os cartuchos. Os tiros ainda são meios fofos. Mas uma hora dessas, eles acertam o carrego dos cartuchos.

Eles ainda têm problemas de como armazenar a munição. A pólvora é muito difícil de guardar. Com qualquer umidade, fica ruim de fogo. Velhas espingardas foram saqueadas ainda no tempo da seringa e hoje são roubadas nas casas dos moradores, brancos e índios, dos altos rios Envira, Tarauacá, Humaitá, Jordão e Breu, no lado brasileiro da fronteira, e nos acampamentos de madeireiros ilegais que invadem seus territórios tradicionais, no lado peruano da fronteira. O problema é que essas espingardas ficam logo enferrujadas, porque eles não passam óleo queimado nelas para melhor conservá-las. Então, acho que nós temos agora um novo desafio.

Se a gente não planejar as ações junto com o pessoal que atua no lado peruano da fronteira, a coisa vai ficar sempre meio capenga. Se a gente também não conseguir preservar as florestas dos dois lados da fronteira, a coisa vai ficar muito difícil para esses pequenos e diversos grupos isolados que habitam hoje ambos os lados da fronteira internacional. Se a gente conseguir que o governo peruano preserve os territórios dos brabos do outro lado de sua fronteira, aí nós vamos ter uma área maior para o deslocamento de suas populações que, como vimos agora nos sobrevôos, no lado acreano, estão aumentando muito. Como no Acre, o governo brasileiro já regularizou as terras dos isolados ao longo do Paralelo 10º Sul, linha da fronteira internacional, a última delas está sendo demarcada agora, a TI Riozinho do Alto Envira, é preciso agora que o governo peruano garanta também regularizar as reservas territoriais destinadas aos povos isolados do lado de lá da fronteira, especialmente as Reservas Territoriais Mashco-Piro e Murunahua. Acho que tudo passa por esse entendimento entre as autoridades brasileiras e peruanas.

É bom que se diga que há certo ranço na FUNAI de achar que só ela pensa e tem idéias sobre os índios isolados. Acho que não é por aí, não. Por outro lado, se a gente não contar com o apoio dos governos brasileiro e peruano, com ajuda do Governo do Acre, com a força de vocês antropólogos e jornalistas no estado, com o respaldo de organizações peruanas preocupadas em defender os índios isolados, só a FUNAI não vai dar conta de resolver essas questões relativas aos povos isolados que transitam na fronteira internacional. Então, a coisa toda é bem mais complexa e ampla.

Serão necessários entendimentos e ações binacionais para proteger efetivamente o modo de vida dos índios isolados e os seus territórios tradicionais. A FUNAI sozinha, nessa região de fronteira, não vai dar conta disso tudo, não. O apoio e o envolvimento efetivo do Governo do Acre serão também de fundamental importância nessa questão.

Txai: Nos últimos 20 anos que você vem trabalhando na proteção dos brabos acreanos e seus territórios, que instituições fora da FUNAI têm ajudado a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira?

Meirelles: Aqui no Acre, parece até fácil a gente trabalhar em parceria com o governo do estado. No tempo do Jorge Viana houve um convênio com a FUNAI que se iniciou, mas acabou sendo logo extinto. Mas recursos desse convênio deram para pagar alguns meses aos trabalhadores da Frente de Proteção Envira. E ainda comprei algumas mercadorias e instrumentos de trabalho, mas aí a coisa não foi para frente. Desde então, o Governo do Acre vem dando apoios pontuais, como o dos sobrevôos que a gente fez agora.

Acho que já está na hora da gente amarrar um apoio de mais longo prazo, com obrigações de ambas as partes, um convênio de verdade mesmo, com obrigações de ambos os lados. Acho que está na hora da gente amarrar esses apoios para que essas coisas não fiquem soltas. Recentemente, apresentamos uma proposta de trabalho para a proteção dos índios isolados acreanos e seus territórios ao Governador Binho Marques. Espero que essa proposta sirva de base para elaboração de um convênio efetivo entre a Coordenação de Índios Isolados, da FUNAI, e o Governo do Estado do Acre. Temos que aprender a pensar e trabalhar juntos.

O CTI também já deu grande força aos trabalhos da Frente de Proteção Envira com recursos que recebeu através de um convênio firmado com a Fundação Moore, no período de dois anos e meio. A base do Posto de Vigilância do Douro, na TI Alto Tarauacá, foi totalmente construída e implantada com recursos da Fundação Moore, via CTI. E parece que esse convênio poderá ser reeditado. Algumas pessoas da Frente de Proteção, como a Paula e o Artur, também foram treinadas com recursos da Moore. Uma parceria que deu frutos e foi muito importante. O CTI está negociando a continuação desse convênio. O que vai ser ótimo, se isso acontecer e a Frente de Proteção Envira continuar sendo beneficiada.

Enfim, estamos sofrendo hoje um problema muito sério na FUNAI. O problema da Funai hoje, por incrível que pareça, não é falta de dinheiro. É o de conseguir gastar o dinheiro. A burocracia é tão grande que, desculpem-me a verdade, a Administração Executiva Regional da FUNAI de Rio Branco está tão inoperante que demora dois, três meses para pagar uma nota fiscal. Não é possível que uma compra demore dois meses só para empenhá-la. Isso aí não existe! Fica impossível para se trabalhar assim. Com tanta burocracia não se pode fazer mais nada. Tudo é proibido, entendeu? Não tem mais suprimento de fundo. O cara tem que ser cadastrado em quinhentos troços para poder comprar qualquer coisa. Só material de consumo foi dividido em sessenta e tantos itens. É uma loucura! Para você comprar cinco mil reais e pagar, você pode acabar no Tribunal de Contas da União (TCU). É uma loucura, ninguém quer mais gastar dinheiro. Está voltando dinheiro da FUNAI no Acre. O dinheiro que está indo para as Administrações Regionais da FUNAI, os administradores não estão gastando com medo do TCU. Estão devolvendo dinheiro. A Funai do Acre, no ano passado, devolveu muitos recursos. E eu não estou falando mal de seu fulano, ou de seu sicrano. Ser ordenador de despesas é ser candidato a ser preso. Pelo menos nesses convênios as prestações de contas são mais inteligentes. È mais fácil de prestar conta. Porque para prestar conta hoje, você tem que mentir, porque se você não mentir, você vai preso (risos). A burocracia dos órgãos governamentais no Brasil hoje é feita para você virar um hipócrita.

Elson: É mais fácil fazer corrupção do que gastar honestamente recursos públicos do governo federal.

Meirelles: É isso mesmo, Elson. Você quer um exemplo? Nós estamos proibidos de portar e comprar espingardas e munição. Agora eu lhe pergunto, como é que se faz uma expedição terrestre lá nas cabeceiras do Xinane, só com as unhas e os dentes, sem levar nem uma espingarda velha? Não posso comprar mais espingarda e munição. O pessoal da Polícia Federal um dia desses foi lá em Feijó e prendeu gente com uma caixa de balas 22. Se me pegarem com 10 caixas de cartucho compradas no câmbio negro, vou ser preso como contrabandista, Elson! Fiz um expediente à FUNAI, solicitando a compra de armas e munições. Sabe qual foi a resposta que recebi? “Todo servidor da FUNAI está proibido de comprar e portar armas de fogo”. Tudo não pode e nada pode.

Em Feijó não existe nenhuma oficina que tenha notas fiscais de serviço. Para pagar uma oficina mecânica por lá, tenho que tirar uma nota fiscal de compra de macarrão, pagar o comerciante para ele me dar o dinheiro para que eu possa pagar ao dono da oficina. Aí o comerciante ainda me olha com a cara mais desconfiada, pensando assim: “esse cara está roubando!”. Para prestar conta, tenho que mentir. Então, está mais que na hora de um convênio com o governo do estado. Esses convênios facilitam as coisas e a gente não precisa de subterfúgios para prestar conta dos recursos recebidos. Afinal das contas, você pode fazer planos, projetos, mas se você não tiver dinheiro e não puder gastá-lo, você não faz nada. Então, acho que está na hora da gente criar uma alternativa, porque pelo governo federal está muito difícil da gente trabalhar com índios isolados no interior da Amazônia.

Txai: Esses últimos sobrevôos foram importante para a demarcação da TI Riozinho do Alto Envira que vai se iniciar ainda neste ano de 2008?

Meirelles: Sem dúvida! Algumas das 20 horas de sobrevôos foram feitas nos limites da TI Riozinho do Alto Envira. Pudemos verificar que não havia maloca de brabos por perto. Esperamos assim não ter os mesmos problemas que tivemos ao demarcar a TI Kampa e Isolados do Rio Envira, em 1998, quando os brabos queimaram a base da Frente de Proteção Etnoambiental e cercaram a equipe de demarcação, porque alguns limites daquela terra passavam próximos a uma maloca de brabos. Felizmente, agora não vamos ter esse problema. Vai dar para demarcar os limites da TI Riozinho do Alto Envira numa boa.

Também lá na sede do Município de Jordão, fizemos uma apresentação de uma seleção dessas 1.200 fotos que tiramos nesses últimos sobrevôos para mostrar às autoridades e aos moradores do Jordão a existência dessas populações de índios isolados, inclusive naquele novo município acreano. E deu muita gente, mais de 500 pessoas. Muitos índios Kaxinawá e moradores da cidade de Jordão gostaram muito dessa iniciativa. Mostramos também aquelas fotos antigas dos índios no início do contato que estão apensadas à tese de doutorado do antropólogo Marcelo Piedrafita. Os Kaxi do Jordão, por exemplo, gostaram muito de conhecer a foto do Felizardo Cerqueira. Foi ele quem amansou seus bisavôs nas cabeceiras do rio Envira no início do século passado e os levou ao Revisão, último seringal das cabeceiras do rio Jordão. Muitos deles nunca tinham visto uma foto do Felizardo junto com seus antepassados.

Todo mundo na cidade ficou sabendo do trabalho que estávamos realizando com o apoio do Governo do Acre. Falei para os Kaxinawá: “Olha lá os bisavôs de vocês junto com o Felizardo Cerqueira!”. Eles adoraram. E depois no outro dia, convidei o Getúlio Sales, liderança tradicional dos Kaxi do Jordão, e o seu Melo, prefeito do município, para sobrevoar algumas malocas e roçados de brabos. Para que eles pudessem ver de perto para contar de certo. Muita gente lá no Jordão não acreditava que ainda existissem índios isolados nas florestas dos altos rios de seu município. Agora estão acreditando. Enfim, como diz o Elson Martins, todos esses sobrevôos foram pagos com o dinheiro dos cidadãos acreanos. Então, nada mais justo do que eles tenham o direito de receber todas essas informações.

Elson: Para finalizar, você ainda gostaria de fazer outro comentário sobre os últimos sobrevôos?

Meirelles: Em primeiro lugar, quero agradecer publicamente ao governador Binho Marques e particularmente à Assessoria Indígena e às Secretarias de Meio Ambiente e de Comunicação por todo o apoio dado à proposta de sobrevôos na região do Alto Envira. Quero aproveitar a oportunidade para também agradecer ao Prefeito do Município de Jordão, Hilário Melo. Ele nos recebeu e alojou da melhor forma possível. Quero ainda dizer o meu muito obrigado ao povo do Jordão, que lotou as duas apresentações que realizamos à noite, mostrando as fotos dos índios isolados, suas malocas e roçados. Espero que, a partir de agora, os povos isolados passem de lendas, dúvidas e histórias para serem reconhecidos como habitantes daquele município. Esperamos que a violência e os preconceitos contra os índios isolados diminuam, especialmente entre a população mais jovem daquele novo município acreano.


 
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Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2008
   GIRO GERAL
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   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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