OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

NOVOS JORNALISTAS, MESTRES DE SEMPRE…

A longa cortina verde-aveludada do Teatrão foi o pano de fundo perfeito para a cerimônia de formatura da segunda turma de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior do Acre – IESACRE, na última quinta-feira, 31 de julho.
A turma de 46 formandos levou o nome do lendário jornalista Garibaldi Brasil e tive a imensa honra de ter sido escolhido como Patrono.
Parece um sonho.

Quando ainda engatinhava nesse mundo, nessa profissão, recordo-me que via o Gari, o Zé Leite, Elson Martins e o Sílvio Martinello, como figuras mágicas, detentoras de segredos, de arte, capazes de botar no papel preciosidades inatingíveis. Assim mesmo. Eles eram e são os grandes do jornalismo impresso acreano (entre outros bambas) que tive a oportunidade de conhecer nos meus primeiros passos.

Não convivi diretamente com o Gari e até hoje sinto não ter sido pautado pelo Zé Leite. Mas o Sílvio e o Elson, além do Suede Chaves, foram meus pacientes professores.
Essa era a nossa verdadeira Universidade.

São muitos os jornalistas emblemáticos que durante décadas descobriram e incentivaram talentos. Pessoas que eram sinônimo de estímulo, da gozação franca, das ácidas críticas, da arquitetura de pensamentos. Eles foram capazes de formar gerações de jornalistas no calor das redações e no tamborilar das velhas remingtons e das linotipos de chumbo quente.

Lembro de um quadro singelo, propositalmente colocado na sala da velha redação de “O Rio Branco”, com uma frase que era o terror dos “focas”, os iniciantes: “Escrever é fácil ou impossível” (atribuída a Vitor Hugo ou a William Faulkner). Lendo-a, os noviços incautos se sentiam na ante-sala do inferno grego, em pleno Hades, moucos e aflitos pelos latidos e mordidas do cão Cérbero, o das três cabeças, que os recepcionava.

Se o quadro era um alerta ou uma gozação, até hoje não sei, talvez porque ainda seja impossível, para mim, escrever como aqueles geniais jornalistas.

Fiquei voltando ao passado, enquanto observava os formandos subindo os degraus do palco para receber os diplomas, com sorrisos de vitória.
E a cada aplauso eu me lembrava dos olhos meio lacrimejantes do Garibaldi Brasil, do rosto de eterna gozação do Zé leite, do silêncio alto do Elson Martins e da visão de lince do Sílvio Martinello, nossos reitores de uma universidade chamada Vida.

O Milton Nascimento canta que “se muito vale o já feito, mais vale o que será”.

Mas, para essa nova turma de jornalistas acreanos, e como dever de um emocionado patrono, ofereço o seguinte pensamento inspirado em Isaac Newton: se hoje conseguimos ver mais longe, é porque estivemos apoiados em ombros de gigantes...


E POIS CORONISTA SOU.

Se souberas falar também falaras
também satirizaras, se souberas,
e se foras poeta, poetaras.

Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar,

por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água,
porque todos entendais
os ladinos, e os boçais
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?

Permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso

Mas amo por amar, que é liberdade.

 

 

Gregório
de Matos

 


Resposta da Leila Jalul:

Querido Marcos,
O assunto é sério. Não te respostei na hora para não parecer uma doidivana. Dormi uma noite mal dormida e sonhei um sonho mal sonhado. Um sonho medonho daqueles que “às vezes a gente sonha e se urina toda e baba na fronha”.
Pois bem, prestenção:
EU SOU CORONISTA. Acho que posso ser burilada e fazer tudo que você pede, desde que seja no formato de crônica. Uma estrutura de romance, meu filho, é para pessoas que têm tino, senso crítico e tempo. Tempo é paciência. Não posso sair assim doidona da baladeira, com uma bandeira de táxi, LIVRE - levantada em cada mão, vendo um corso de astronautas bailando ao derredor e me chamando para bailar, como na música Balada por Un Loco, magistralmente interpretada por Amelita Baltar com o acompanhamento daquele tocadorzinho de bandoneón, vulgo Astor Piazzolla, amante dela, por sinal, lembra?

Tenho feito isso no site do Lima Coelho, de forma contagoteada (gostou?). Por ser um site de literatura pura, caibo certinho no espaço. Nada me impede, porém, de depois ajuntar esse material, sistematizar direitinho e publicar outro livro. Tenho entremeado coisas velhas (do livro) e coisas novas que brotam aos borbotões. Como podes ver, quando falo aos borbotões, devo acrescentar, de forma quase insana, já que respiro o Acre e seus fantasminhas, inclusive os de moral duvidosa.

Prestenção: mandei o texto da amiga Robélia Fernandes, a mãe do menino reitor, e o Mestre Lima Coelho publicou hoje. Está dando o que falar. Veja lá e faça-me um favorzão de entrar em contato com a mesma para dizer-lhe de minha ousadia. Ligando para tua querida Edinir ou para o próprio Jonas, encontrarás a gata premiada. Não sei se você é sabedor (homem apaixonado fica lezão!!!!), Robélia ganhou o prêmio de Literatura Do Banco Real - Talentos da Maturidade -, no ano que passou.

Outra novidade que quero contar nesta missiva respostiva é que, a crônica sobre o Cine Biriba, o meu cinema inesquecível, ganhou do poeta Lima Coelho uma série de lembranças sobre cinema. Veja lá! Acrescente o site ao seu rol de preferidos, quer seja favoritos. A série é O ESTRONDO DO PAPOCO. Tem depoimentos lindos e saudosistas. As pessoas levantaram a raiva de cinema virar igreja de crentes. Os crentes não têm nada a ver com isso. O poder econômico, sim!

Meu amigo, aqui nessa Bahia, ó quão dessemelhante, não consegui localizar esse tal de Sagan, nem o tal de Arthur Eddington, ou Edinho, como preferir. Acho que eles moram lá pros lados de Itabuna.

Voltando a falar sério:

Hoje faz um ano exato que lancei Suindara. Hoje faz nove meses exatos que perdi minha velhinha, a santa quebrada que eu adorava colar os caquinhos. Tô numa orfandade do caralho! E essa fotografia de quatro gerações matou a velha! Matou, mas ao mesmo tempo, me encheu de inveja de mim mesma (pode?). Os motivos para sorrir não cessaram nem cessarão, enquanto puder ver e ouvir das crianças os sorrisos.

Partindo pros finalmentes e antes do abraço final, quero dizer: minha casa tem quintal, tem horta, tem varal, tem pé de laranjeira onde um sabiá albino vem cantar. A goiabeira de goiabas brancas, (im)pilhadas de tapurus, é o rendez-vous dos melros. Minha casa tem um quarto pra você e sua doce Patrycia, sempre que desejarem, descansar o corpo para depois discutir que o longe é um lugar que não existe. Certo?

Estou feliz, enquanto permitido. E amo por amar, que é liberdade. O poema do Boca do Inferno foi uma benção! Quá, quá, ra, cá, cá , quem riu, quá, quá, rá, cá, cá, fui eu!!!! Inda sou mais eu!

Um beijo grande.

Leila.

Esta é a resposta à CARTA-DESAFIO que fiz para a Leila Jalul para que ela escrevesse um romance sobre a Macondo riobranquense. Respondo dizendo que fui convencido, querida amiga, especialmente depois que o Elson Martins propôs a publicação de um livro teu com crônicas que se interliguem. Genial idéia!
Beijos meus e da Patrycia.

PS: o site do escritor Lima Coelho (excelente por sinal) é este, basta escrever o nome Leila Jalul e lá estarão suas crônicas e comentários: www.limacoelho.jor.br

 

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Rio Branco-AC, 3 de agosto de 2008
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