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Antonio, um homem que faz da literatura de cordel a bandeira da sua vida

Deficiente físico desde os treze anos, escritor aprendeu a ler e a escrever sozinho, mas tem mais de duzentos livros publicados

Vendendo balas e pirulitos no bairro Cidade Nova, Antônio Bandeira não fatura 6 reais por dia

Leonildo Rosas

“Este pobre menino nasceu num dia de sexta-feira/depois o levaram numa pequena igreja/e batizaram por Antonio Bandeira/coitado, não imagina da ingrata sorte traiçoeira”

Quando corria livremente pelas matas do Seringal Amapá, Colocação São Vicil, o menino Antonio Bandeira Carneiro embalava o sonho de um dia ser padre ou escritor famoso. Havia motivos para isso. Desde cedo sua inteligência e capacidade de raciocínio chamavam a atenção de todos. Aos nove meses aprendeu a andar e a falar. O fato era raro naquele distante ano de 1960.

Gostava de pescar, tomar banho no rio, fazer caieira, quebrar milho e de brincar. Mal sabia que sua felicidade de infância seria interrompida antes de chegar à adolescência.

“Eu fiquei no mundo igual um peixinho sem água para nadar/igual a um pobre passarinho no momento querendo voar/fiquei como um pobre barco perdido nas águas do mar”

Aos treze anos, sua vida mudou para sempre. O menino parou de fazer as coisas de que gostava. Foi acometido de uma febre estranha, que paralisou seus braços e suas pernas. Sem condições financeiras para arcar com um tratamento mais caro, os pais apelaram para a reza do mestre Irineu Serra.

Quanto mais se rezava, mais a febre aumentava. A Rio Branco de 1960 era precária em todos os sentidos. Havia apenas dois médicos para atender à população. Dificilmente pobre recebia o tratamento decente. Foi esse o caso.

Os profissionais não levaram a febre a sério. Aconselharam o pai de Antonio, José Carneiro, a retornar para o seringal porque o caso não tinha jeito. Tristes, pai, mãe e filho montaram numa velha carroça e fizeram o caminho de volta.

No seringal, deitado num velho e pobre leito, Antonio era motivo de pena dos vizinhos. Os pais fizeram todos os tipos de promessas, mas a febre não passava. Foram dois anos de dor e sofrimento. Quando tudo parecia pedido, apareceu uma senhora que se apresentou como Maria Zezé. Ela recomendou que o menino fosse banhado com uma erva chamada moçambi, que era abundante no seringal.

Em três horas, a temperatura do menino voltou ao normal. Depois daquele dia, ela nunca mais foi vista.

“A senhora ensinou a simpatia/e no momento desapareceu/Ninguém conhecia ela/parece que veio mandada do céu/porque no seringal ninguém a conheceu”

A febre foi embora, ficaram as seqüelas. Os dois pés viraram para dentro e as mãos e braços sem qualquer tato. Consultado novamente pelos médicos, veio o diagnóstico: sífilis hereditária.

A doença foi herdada da mãe, Alice, só que com maior gravidade. Dos sete filhos da mulher, quatro tiveram o mesmo problema. O de Antonio foi o mais grave.

Doente e inválido, Antonio pensou em pôr fim à própria vida. Desistiu. Revolveu continuar lutando. Queria estudar para realizar o sonho de ser padre ou escritor. Mas a barreira do preconceito estava à sua frente.

As professoras não aceitavam ter um aluno deficiente e mandavam bilhetes ao seu pai. Na sua inocência, Antonio pensava que eram recomendações para que andasse mais bem arrumado, haja vista que não podia fazer isso por causa da pobreza da família. “Quando descobri que elas diziam que não era para eu voltar mais, eu chorava”, revela.

Sem poder ir à escola, começou a aprender sozinho. Pediu ao pai que lhe providenciasse papel e lápis. Foi treinando com muita dificuldade. O problema físico atrapalhava os movimentos. Também investiu em simpatias. “Eu passava as mãos em ninho de passarinho e em ovo de aranha sem ninguém ver para aprender a ler”.

Não se sabe se foi pelas simpatias, mas o menino passou a decifrar o que estava escrito em rótulos de latas de sardinha, de conservas e em outros produtos. “Aprendi a ler pela minha inteligência. Ia soletrando, juntando as letras e, quando a palavra estava certa, começava a gargalhar”, diz.

A felicidade de descobrir as letras foi interrompida por uma outra notícia triste: a morte de seu pai, acometido por uma doença não descoberta pelos médicos. O corpo foi posto num caixão feito por meia dúzia de tábuas comprada pelos vizinhos e levado para o Cemitério São Batista.

“Ele fazia tudo por mim. Eu era o filho que ele mais gostava. Quando ele morreu, fiquei e desamparado”, lembra.

“Meu pai disse meu filho/me ouça preste atenção/hoje vou morrer, vou para o céu/está parando o meu coração/mas de onde eu estiver, eu te dou força e proteção”

Sem pai, mas com mãe e irmãos, começou a rever os sonhos e encarar a realidade. O de padre deixou de lado. O de escritor permaneceu vivo. Encontrou a inspiração na literatura de cordel. Depois, passou a vender os mesmos livros, ganhando um mil réis por exemplar. Hoje, tem 200 livros de sua autoria publicados e mais 50 esperando condições financeiras para poder publicar.

Os livros de Antonio Bandeira Carneiro abordam temas religiosos, folclóricos e da sua história. Um dos mais procurados é o “Amarga Infância”, que relata o seu sofrimento após ser detectada a doença.
Segundo ele, na literatura de cordel o pobre gosta é de pobreza. “Como sofri muito, gosto de contar causos sofredores. Mesmo não gostando de ver os outros sofrendo”.

Sem nunca ter freqüentado a escola pelo preconceito dos professores, Antonio rir quando alguém lhe aconselha a estudar: “Hoje a escola aceita todo tipo de gente. Têm pessoas que chegam e dizem para eu estudar. Não vou, não! O que eu queria ser eu já sou. Sou um escritor”.

Os livros são comercializados a R$ 2 a unidade. Ocorre que não há recursos para a reprodução. Quem ainda ajuda é o encarregado de rota da estação rodoviária, José da Costa, que imprime alguns textos. “Esse rapaz é muito bom. Mas queria, ao menos, ganhar uma impressora para minha sobrinha imprimir em casa”, apela.

“Se existe felicidade, não é em cima da terra/talvez seja no fundo do mar/enquanto eu tiver vida, eu não me canso de procurar/com fé e força de Deus, um dia eu vou encontrar”

Governador amigo – Órfão de pai, o escritor se viu obrigado a tentar a sorte em outras paragens. Viajou vários dias até chegar à cidade, onde, segundo ele, fez amizades com muitas pessoas. Uma delas era o então governador Aníbal de Queiroz. “Ele era um homem muito bom, que me ajudou muito”, conta.

Como se criticasse a dificuldade para os pobres chegarem próximos às autoridades nos tempos atuais, Antonio lembra que era fácil falar com um governador em 1962. Bastava chegar ao Palácio Rio Branco e pedir. “Naquela época não tinha que marcar audiência. O governador me chamava lá e almoçava comigo”, garante.

De amigo do governador, passou a fazer mandados, levando envelopes com documentos às repartições e comerciantes do centro da cidade. Até que um dia foi surpreendido ao levar um bilhete para a um empresários, que lhe encheu de roupas, redes, lençóis e comida. “Além de tudo isso, foram me deixar em casa de carro”.

“O senhor doutor governador pegou uma pequena folha de papel/escreveu uma pequena carta pro senhor doutor Daniel/a sorte e a felicidade parece que desceram do céu”

Amor na igreja – A doença atrapalhou o sonho de Antonio se tornar padre. Mas não foi apenas isso que vez abrir mão da carreira religiosa. Ele sonhava em casar e constituir família. Não conseguiu. Chegou a viver maritalmente com uma mulher durante pouco mais de três anos. “Ela foi embora porque não se agradou mais de mim”, revela.

Outro obstáculo na carreira religiosa é que, para segui-la, é necessário anos a fio de estudos teológicos. Antonio foi impedido de estudar desde a infância.

Mas, na Igreja Antonio foi acolhido de outra forma. Cederam um espaço na Catedral Nossa Senhora de Nazaré para a comercialização dos seus livros. A venda é feita desde 1988. O primeiro relatava a história de Dom Giocondo Maria Grotti, bispo morto em acidente de avião em Sena Madureira, em 1971.

Os livros são escritos conforme relatos das biografias dos personagens feitos por padres. Um deles é o padre Leôncio Asfury.

Depois da história do bispo, foram escritos livros sobre Madre Paulina dos Corações Agonizantes, Irmã Dulce e Jesus Cristo. Ainda estão para ser passadas a limpo as histórias da aparição de uma santa a um produtor rural na estrada de Senador Guiomard, em 1959, e da Santa Rita de Cássia.

“Na igreja é bom porque não tem censura. Todo mundo gosta muito de mim”.

Há mais de dois meses ele não vai à catedral vender seu material porque adoeceu e não tem obras impressas.

“Eu ficava imaginando, meu Deus, gente cheia de conforto/eu, pra não morrer de fome, me alimentava com resto de cachorro/eu agradecia, meu bom Deus/e também o seu São Ariosto”

Luta pela sobrevivência

Como não é uma escritor famoso – dificilmente terá um livro publicado por uma grande editora -, Antonio precisa sobreviver. O salário mínimo que recebe da aposentadoria do INSS não é suficiente.

Diariamente, embarca no ônibus em Senador Guiomard – a 24 quilômetros da capital – e vem para Rio Branco. No ponto de ônibus ao lado da Estação Rodoviária monta sua banca.

A banca é minúscula. Tem quatro compartimentos, onde são amontoados balas de hortelã, jujubas, chicletes e pirulitos baratos. Após todo um dia de trabalho, na maioria das vezes, consegue apurar entre um e cinco reais. “Seu eu pagasse a passagem para ir e vir, não compensaria. Lá no terminal, eu faturava mais. É pena que os fiscais da prefeitura me expulsaram”, lamenta.

Amor de mãe e trauma – No dia 7 de agosto a tristeza voltou a bater à sua porta. Aos 85 anos, sua mãe morreu. Morando com um outro filho, Alice chamou Antonio e perguntou: “Filho, você vai trabalhar hoje?”

Ele respondeu: “Vou não, mãe. Se a senhora quiser, fico aqui o tempo que for necessário”

Ela completou: “É bom não ir porque de hoje não passo”.

E não passou. Morreu naquele dia mesmo. Hoje, quando chega em casa, Antonio sente o vazio. Sente saudade. E chora. Mora com uma irmã e uma sobrinha, que receberam a missão de não lhe deixar faltar nada. “Minha mãe pediu para elas cuidarem de mim”.

Ao 59 anos – completa 60 em abril do próximo ano -, o escritor não esconde os traumas causados pela doença herdada da sua mãe. Há quatro anos tentou consertar os pés. Foi informado que a cirurgia ira lhe deixar na cadeira de roda. Desistiu. Chega a sorrir da sua condição: “Eu uso o pé esquerdo do sapato do pé direito e vice-versa. Recentemente, fui comprar um par e a vendedora me orientou dizendo que estava errado, expliquei que era assim mesmo”.

 
 
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Rio Branco-AC, 3 de setembro de 2006
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