OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 


A costa e o sertão

Depois de um ano em Caraguatatuba, litoral de São Paulo, acreditava que sabia o que era estar longe da capital paulista. Uma cidade pequena, com uma vida cultural acanhada, sem uma boa biblioteca, sem cinema, tendo locadoras com um acervo sofrível, seria o suficiente, acreditava eu, para mostrar o que era estar longe de São Paulo. Mas na verdade é necessário muito mais para nos afastar de São Paulo (capital). Mas o que é esse afastamento para quem, como eu, o sente. Não pode ser da mesma forma pra todo mundo! Mas o fato é que estando a 300 quilômetros da capital paulista se está mais longe dela do que estando a 3.600 só que para dentro, longe do mar.

A compreensão que se adquire é outra! Ao invés de me afastar de São Paulo, me aproximei de um humor de São Paulo. A capital paulista é na verdade, de muitos pontos de vista, a entrada para o sertão. O Brasil pode ser divido de muitas formas, dependendo dos filtros que se utiliza: racial, social, cultural, econômico, geográfico... Mas dois humores predominam desde a colônia: o litorâneo e o interiorano; a costa com sua sensualidade voltada para o porto; o sertão com sua dureza e seu alheamento. São Paulo não é tão distante do litoral, quando olhamos no mapa, mas devido à dificuldade de acesso a impressão que se tinha, durante a maior parte da sua história, era de completo isolamento. Por isso, muitos aspectos se entrelaçam: o humor retraído, uma violência latente, a dureza com as mulheres, uma desconfiança em relação aos espaços públicos, aos estrangeiros.

A cidade de São Paulo foi edificada num lugar tendo em vista a sua possibilidade de defesa. Mas parece que um humor permanece como um fundo granítico. As condições eram duras, não havia intercâmbio com o exterior, não havia sobras, nem opulência. O meio ambiente era alagadiço, pestilento, úmido e tortuoso. Os homens duros, as poucas mulheres que havia (de origem indígena, no início) recolhidas a uma vida doméstica dura. O temperamento áspero que se formou vem também das incursões pelo sertão, onde a dureza, a impiedade, a crueldade se mostravam como qualidades. Mas no trato social aparece uma introspecção que se mostra sonhadora que faz com que os sorrisos sejam raros e involuntários.

Durante algumas décadas, entre o começo do século até o fim da segunda guerra, parecia que esse estado de coisas iria mudar. A cidade é urbanizada e são civilizadas áreas antes impróprias pelo excesso de rios, riachos, terras alagadiças. Surge uma elite opulenta ligada ao plantio de café, a vinda de italianos e depois, a partir da metade do século, de nordestinos parecia ter soterrado aqueles humores antigos. Mas logo parece que a confluência do meio material, das condições econômicas, da reorganização da cidade, fazem (re) surgir aquela mesma dureza, aquele mesmo retraimento que se mostra pouco a vontade sob as atenções gerais.

A dureza de condições é substituída pela dureza da concorrência pela sobrevivência; a crueldade no sertão se transmuta em uma crueldade em relação ao fracasso; a impiedade bandeirante pela exaltação do sucesso. Existe algo de violento no interior do Brasil e essa violência me faz lembrar de algo de São Paulo. Da mesma forma que o Rio Grande do Sul, mesmo tendo um litoral, não deixa de exibir humores paulistas antigos, toda a ocupação que é distante do litoral tem algo da dureza de São Paulo. Quanto mais nos afastamos do litoral, mais encontramos o respeito, mesmo inconsciente, a uma forma como as coisas são em São Paulo. A disciplina no trabalho, a predileção por uma justiça sumária que puna os que não deram certo, uma timidez orgulhosa e ciosa de seu afastamento.

Mesmo sendo antiga, São Paulo tem uma relação umbilical com o Brasil mais novo, com as áreas que até pouco tempo eram pouco ou nada habitadas. As frentes pioneiras repetem muito do que era o movimento bandeirante. É um movimento eminentemente masculino, onde as mulheres adquirem um receio atávico de causar discórdia, entre homens capazes de tudo. Em São Paulo, até mesmo as escolas de samba nascem de famílias, mas famílias com a figura masculina encabeçando: existe até o relato de que no lugar de baianas havia grupos de homens vestidos de mulher e com porretes escondidos. Quando olhamos os desfiles em São Paulo, temos a impressão de que as pessoas não estão acostumadas e estar sob o olhar de todos, ou seja, os paulistanos não sabem sorrir na frente da câmara. Enquanto os cariocas e baianos são famosos por “já nascerem no palco”, ou seja, por saberem quase intuitivamente como se exibir e se tornarem alegres e leves quando festejam, os paulistas são freqüentemente flagrados com o rosto duro, como se estivessem sós, como se não fossem observados. As mulatas são belas, em São Paulo, mas não exibem aquela sedução natural da beira da praia, do porto, da sedução endereçada aos turistas.

Cada um com a sua forma, São Paulo e Rio criaram uma relação com o nordeste. No Rio predominaram os humores litorâneos, com as festas, os ritmos, o deboche, uma violência por excesso de vitalidade, mas também com um certo desleixo com o próprio desenvolvimento. Já em São Paulo, predomina um humor do sertão (até o clima se aproxima cada vez mais da aridez do sertão) com o olhar perdido e distante (como nos quadros do Hélio Mello) de quem está mais a vontade consigo mesmo, com um retraimento que explode quando é forçado demais na sua tolerância, com uma moral dura e com hábitos duros no viver, no morrer, no se divertir, mas que, por isso mesmo, ama e se seduz com o caráter lúbrico do litoral, compõem uma atmosfera sertaneja.

Mas o fato é que um pouco disso mora dentro de nós, nos nossos hábitos, na nossa sensibilidade. Mesmo que o litoral e os humores litorâneos sejam mais vistosos, sedutores e componham um certo estereótipo dominante do Brasil, podemos dizer que os humores do sertão são cada vez maiores, mais ricos e dominam a política, a economia. Talvez no Acre seja possível perceber também aqueles humores um pouco ásperos, orgulhosos do seu retraimento, corajosos e principalmente voltados para o desenvolvimento, num outro sentido, pelo que nos é dado ver, mas mesmo assim desenvolvimento. Todo o investimento em infra-estrutura, em educação, em bem estar (praças, museus, espaços para cultura, calçadas) estão fazendo de Rio Branco uma cidade preparada para vôos maiores (que na verdade já estão acontecendo). Todo o silencioso orgulho dos acreanos que se reflete na intenção de renovar a duração do vitorioso projeto político, econômico e cultural que estão prestes colocar o Acre compondo o centro do foco político a partir do próximo ano, são expressões de um sentido, ao mesmo tempo, novo e velho.

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 3 de setembro de 2006
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