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Vitor Hugo Soares * |
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Arrastado por braços e cabeças do PFL, o candidato Geraldo Alckmin andou esta semana pelo interior da Bahia , com passagem por Ilhéus e palanque armado em Itabuna, no conturbado sul baiano abalado por denúncias sobre introdução criminosa da praga “vassoura de bruxa” na lavoura do cacau. Cercado apenas de políticos locais do PFL, o tucano fez o possível até a madrugada de ontem para seguir o conselho recebido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e “incendiar o palheiro”, na radical tentativa de alterar o rumo do desastre eleitoral que parece se avizinhar para o candidato da aliança PSDB-PFL . Na zona do cacau, Alckmin esteve longe de empolgar ou chegar perto do intento preconizado pelo surpreendente conselheiro FHC em seu novo papel de Catão saudoso das pregações tipo as do incendiário Carlos Lacerda. Ainda assim, por precaução, trato de arranjar um lugar seguro para observar o fogaréu à distância, desconfiado de que um incêndio no sul baiano ou em outro lugar qualquer do País pode receber algumas rajadas de vento contrário e acabar chamuscando não só quem joga o fósforo na gasolina, mas também algum curioso que estiver por perto para ver o resultado. Mas compreendo o dilema em que anda metido o ex-governador de São Paulo. Principalmente depois da toalha jogada por seu sucessor, Cláudio Lembo(PFL), na entrevista ao jornalista Bob Fernandes (Terra Magazine) e das novas rodadas das pesquisas CNT/Sensus e Ibope/Rede Globo, que praticamente sacramentam a vitória no primeiro turno de Luis Inácio Lula da Silva . No olho de tamanho vendaval, parece natural que Alckmin tenha sucumbido finalmente aos apelos incendiários, mesmo contra a sua vontade e apesar do sábio conselho da canção famosa de Sérgio Natureza e Tunai, imortalizada por Elis Regina: “As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam”. Mas o candidato tucano deve imaginar: sem correr esse risco, pode acabar perdendo até alguns de seus cabos eleitorais aparentemente mais resistentes, como o senador Antonio Carlos Magalhães - presente no périplo do candidato tucano pelo sul da Bahia - e o colunista Diogo Mainardi. Este último até escreveu que deixou de acompanhar as falas de Alckmin na TV, para evitar a tentação de desistir de votar nele. No entanto, prefiro nestas linhas tratar da música de Elis e das semelhanças da atual com outra campanha que, garoto, presenciei há mais de cinco décadas. Falo da disputa presidencial de 1950 e do dia em que vi meu falecido pai, um ferrenho adepto do PSD, desembarcar na minúscula localidade de Macururé, onde então morávamos , vindo de uma reunião política do partido em Salvador. Na bagagem ele trazia chapas e “material de campanha” do candidato a presidente da República, Cristiano Machado, um político histórico do PSD mineiro, bastante parecido com o Alckmin do material que o Comitê Nacional de Campanha da coligação PSDB-PFL anda oferecendo ultimamente a parlamentares aliados na Bahia, acompanhado de uma carta em que o candidato tucano convoca para um “esforço decisivo da virada”. Uma das lembranças recorrentes da minha infância é o imenso cartaz de Cristiano pregado na porta da nossa casa em frente ao mercado público no esquecido distrito situado na região do Polígamo da Seca, cortado pela rodovia Transnordestina. Macururé é o berço natal de Corisco e Pente Fino, famosos cabras de Lampião, mas também do lendário chefe político sertanejo Hermógenes Gomes, como lembra o ex-deputado e saudoso escritor Raimundo Reis em uma de suas crônicas mais notáveis. Na época, transitavam na estrada, dia e noite, os caminhões “pau-de-arara” carregados de retirantes dos estados do Nordeste com destino a São Paulo . “Para Presidente, Cristiano Machado. PSD” - exortava o cartaz de propaganda do ex-secretário do Interior do governo de Minas Gerais, em cujo gabinete trabalhava o poeta Carlos Drummond de Andrade. Mas o abandono paulatino do candidato por seu partido foi diluindo a campanha pelas beiradas. Na mesma medida, o retrato, que no começo despertava atração e comentários otimistas dos passantes, foi perdendo o interesse e logo virou motivo de galhofas. Uma dia apareceu rasgado e um retrato do “velhinho” gaúcho Getúlio Vargas, do PTB, foi colado no lugar do candidato mineiro. Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas. Mas o resultado é que em 3 de outubro de 1950, Getúlio recebeu 48,7% do total de votos válidos; Eduardo Gomes ficou com 29,3% e Cristiano Machado amargou o terceiro lugar, com 21,5% dos votos. O abandono de Cristiano Machado deixou para a história política do País uma nova acepção para o termo “cristianizar”. Restou também um pungente poema de Drummond, que diz em uma de suas estrofes: (...) “E de tudo fica um pouco/ Oh, abre os vidros de loção/ e abafa o insuportável mau cheiro da história”. * Jornalista, editor de Opinião de A TARDE |
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