OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

O verbo e o sujeito

No princípio era o verbo, mas ele foi ficando sujeito a predicados. Passos e intenções foram parando, alguma vista não alcançou, a vida não permitiu, igual ao pai que não viu o filho crescer, igual ao menino que envelhece pensando nele, em como teria sido. Mas do princípio parte-se apenas com a própria sombra, mais perdida do que sua origem. E no princípio ainda é possível pensar em desvendar o destino. Ainda é possível justificar o seguir com as ilusões de algum fazer, de um ou outro engano a encontrar, para novamente justificar a certeza do lugar comum, que é sempre assim, nas partidas ou nas chegadas, sujeito indeterminado.

Como a mulher que ia passando e foi olhada, observada, cumprimentada, quase querida. Isto foi há duas luas e poderia ter sido um princípio, mais um princípio de nada. Mas aquele encontro jamais se repetirá, aquele caminho inesperado jamais será cruzado, porque jamais haverá lua como aquela, olhares como aqueles. Nem mulher, como a outra que antecipou a despedida, bem depois de muitas luas. Os corpos distanciaram-se, as respirações ainda eram pesadas, os olhos foram abaixando com o peso, as mãos já certas de não voltarem a dar-se, deixaram o perfume ir saindo, a mulher sumindo. E não faltaram adjetivos.

No princípio, o sujeito era indeterminado, mas foi ficando oculto, até perder a vontade da definição, do conceito apropriado, usurpado. Começou assim, quem só queria te beijar, agora diz que te ama, afastando o lençol, perdendo as palavras, deixando de conversa, incriminando o momento. E cresceu o substantivo, dando substância a outro ser, novos contextos direcionados ao próximo homem fecundado, ainda agora, e já gerando indefinidas interpretações e vidas. Quantos períodos ainda a percorrer, quantos para dividir ou vencer. Por enquanto, a frase só indica que o parágrafo acabou determinado.

Guardar traços do princípio é importante para encontrar saídas mais à frente. Ou voltar pelo próprio rastro, se marcas fundas forem deixadas. Sem esquecer da cautela necessária para desviar dos laços. E guardar só o rumo, que o princípio era um ancoradouro que não existe mais. É assim desde que um ou outro novo porto acolhe o viajante ou rejeita-lhe a bagagem. A bagagem é personalíssima, cada um tem a que lhe cabe. Valor e peso, só sabe o próprio viajante que a conduz ou espalha pelo caminho, desde o princípio, como se um fim justificasse tantas partidas, tantas voltas, tanta coisa dita, calada, tanta definição.

Igual ao menino que agora é um sujeito crescido, que guarda as frases e os gestos dos filhos, que carrega a tinta do mundo, que inventa conjugações e predicados, que dá voltas em adjetivos e ainda traz orações indeterminadas. Mas frases e orações são mesmo para ir ficando, tanto guardadas como perdidas. Importa sair do princípio e movimentar a bagagem. Igual à mulher que vem no rastro pretérito e indica o futuro, que deixa o cheiro no laço, que acolhe o objeto direto e reproduz nosso passo definido. Mulheres e filhos, palavra e gesto, a essência de todo verbo, a conjugação do prazer que dá verbo ao conjunto.

No princípio era o verbo, mas ele não parece já ter levado as orações ao encontro do sujeito. O conjunto ainda é indefinido, desde a gênese. Se o verbo era o princípio, vou deixando em palavras o meu fardo, toda a carga de ditos e engolidos, de vistos e não notados, até o cansaço e a futura vontade que pode vir depois do arrependimento, quando o predicado insistirá no ausente adjetivo sem momento. Restará a certeza do que era inesperado. Mas do que foi sentido e do que foi perdido, finjo esquecer, lembro de sorrir, de seguir. As palavras reveladas são a bagagem que vou deixando no caminho. As que não foram ditas seguem comigo.

 

 
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Rio Branco-AC, 3 de outubro de 2004
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