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| Elson Martins | |
Em 1909, o libanês Abrahim Farhat ouviu notícias sobre a borracha e rios de dinheiro que enriqueciam todos que ousavam penetrar a Amazônia para explorar o leite elástico da hévea brasiliensis . Sem pensar duas vezes, ele deixou no Líbano a esposa Fátima e os filhos Hechem e Fátima, enfiando-se nas matas do Acre para vender panelas para os seringueiros. O bravo libanês carregava as panelas num tabuleiro, por varadouros espinhentos e escorregadios abertos na mata bruta, fazendo um barulho que lhe rendeu o apelido de Abrahim Teco-Teco. Em poucos anos, porém, o tabuleiro se transformou na Casa Farhat (inaugurada em 1912), um dos mais fortes empreendimentos comerciais do Acre com loja no Segundo Distrito de Rio Branco. Abrahim passou muitos anos sem voltar ao seu país e acabou casando no Acre com a portuguesa Adelina com quem gerou três filhos: José, Alberto e Said Farhat. Os dois primeiros viajaram para a terra do pai, mas o terceiro permaneceu no ex-Território até a década de quarenta, chegando a ser nomeado prefeito de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. Hechem, filho de Abrahim com Fátima que ficara no Líbano, veio tomar conta do comércio do pai enquanto este retornava ao seu país onde viveu o resto da vida com suas duas mulheres (Fátima e Adelina). Habilidoso e sortudo, Hechem tornou-se próspero comerciante e casou com Silvia Maluf (prima do ex-governador de São Paulo e deputado federal eleito em 2006, Paulo Maluf). Com ela teve sete filhos, entre eles Abrahim Farhat Neto, o nosso Lhé, o socialista mais autêntico que o Acre já produziu (desde os anos cinqüenta do século passado, não existe um único movimento popular de esquerda do qual Lhé não tenha participado). Em 1955, após concluir o ginásio no Colégio Acreano, Lhé saiu do Acre para estudar no Colégio Lafayette, no Rio de Janeiro, passando a morar com o tio Said Farhat, ex-prefeito de Brasiléia que se tornara publicitário e seria ministro de Comunicação Social durante a Ditadura Militar. Nas eleições de 1982, os dois se enfrentaram numa disputa para o Senado pelo Estado do Acre: Said foi candidato pelo PDS e Abrahim, pelo PT. A disputa era desigual: enquanto Said Farhat alugava um prédio inteiro para seu escritório político na cabeceira da ponte nova, contratava dois médicos para dar consultas e operar eleitores de graça, e ainda um batalhão de cabos eleitorais para distribuir seus cartazes impressos em policromia, o Lhé perambulava pelas ruas com sandália de dedo esmolando os mirrados (na época) votos petistas. Os dois acabaram derrotados pelo médico e escritor Mário Maia, do PMDB. Segundo o teólogo e escritor Clodovis Boff (irmão de Leonardo Boff), que dedicou um capítulo do livro “Deus e o Homem no Inferno Verde” ao nosso Lhé, o então candidato do PT ao Senado “fecha politicamente com a esquerda popular: é idealista e vibra com tudo o que diz respeito ao movimento do povo”. Clodovis o chamou de “o Zaqueu Abrahim”. Se existe, portanto, um personagem que não poderia faltar na minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, que está sendo produzida pela TV Globo, no Acre, com autoria da novelista Glória Perez, é esse neto do Abrahim Teco-Teco. Aí está ele (foto), bem ao seu estilo, tomando um banho de bica em Xapuri, usando como xampu e creme hidratante algumas mangas maduras encontradas no quintal da Pousada Verde.
Antes que o rádio chegasse a Rio Branco, os anúncios de filmes, festas e toda a sorte de eventos eram comunicados à população através do Raimundo Doido, com seu tambor e alto-falante. A informação vinha acompanhada de uns passinhos de dança. Na minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, vamos mostrar a performance do Raimundo Doido. Aí está ele, em fotografia de álbum de família (Glória Perez, em seu blog Amazônia). Memórias Inconvenientes CAÇADORAS DE “JACUS ACREANOS” Quando da inauguração do Teatro da Paz em Belém, e do Teatro Amazonas, em Manaus, grupos de atrizes, atores, bailarinas francesas, alemães, italianas, polonesas e “zarzuelas” da Espanha atravessaram o Atlântico, em transatlânticos das linhas de luxo, para “fazerem o Amazonas”... As que mais enriqueceram voltaram aos seus respectivos países. A maioria, porém, confirmou o provérbio latino: “Onde se vive bem, aí é a Pátria”. Muitas se casaram, sendo “hóspedes” das pensões de luxo... As que perderam a beleza, no tempo em que “gordura era formosura”, tornaram-se putas, no alto e no baixo meretrício, nas decadentes capitais da borracha: Belém, Manaus, Iquitos... Mas no Acre, em Rio Branco e em Xapuri, não ficaram na Baixa da Égua, isto é, não caíram na rapiocagem... As “polacas” se tornaram famosas nas zonas de Belém... Para os ginasianos até 1935, havia um preço especial: 500 réis com direito a tudo! Na “Pensão Zezé” só iam os barões... Quanto as que regressaram “Avec” aos países de origem, o caso mais famoso foi o do Coronel Benedicto com a “zarzuela” Dona Concha... Ela “pescou” o coronel que desgostoso com a decisão negativa do Tribunal de Reparações em Petrópolis, vendeu todos os bens. E, com armas e bagagens, passou a viver à moda “dulce far-niente” em Barca de Valdeoras, Galícia, Reino da Espanha... A sua morte foi noticiada no “Correio do Acre” do Xapurí.. Quando da 2ª Grande Guerra houve a “Batalha da Borracha” e foi precedida de reuniões entre representantes das indústrias americanas e homens de negócios brasileiros. Os “seringais plantados” no Oriente estavam sob ocupação militar japonesa. Ante a conjuntura da guerra, só havia uma saída: reabrir os seringais amazônicos, financiar a produção e abrir novos mercados internos. |
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