| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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Tibicuera, um príncipe! Dize-me com quem andas e direi quem tu és, como se eu tivesse alguma coisa a ver com a tua vida... E esta foi uma das máximas levadas ou trazidas para a prática existencial do nobre Pompeu de Adélia, um filho de cearenses, mestre educador acreano que por aqui tem passado umas chuvas torrenciais desses invernos de meu Deus. Logo após o trágico desenlace da trama urdida pelo carcereiro contra a professorinha incrivelmente bela, em 1940, em Rio Branco, Pompeu de Adélia andou às voltas com umas sirigaitas de comportamento entre o terno e o duvidoso. Mas tudo não passou do sonho mirabolante de um poeta que não ia para muito além dos segredos das alcovas, ou do indócil gramatiquês. Pouco, muito pouco, conseguia tocar-lhe o coração vagabundo. Foi por estes tempos drásticos, quando a economia da borracha arrefecera deixando muitos na pindaíba que, para a salvação da lavoura arcaica e do sonho americano, por aqui apareceram os primeiros soldados da borracha vindos,... de onde? Do Ceará. Mais ou menos num destes sombrios anos quarenta, o grande Pompeu, renomado professor do Território, viveu uma ou duas dúzias de experiências indizíveis, como a que vos narro a seguir. Tibicuera era um garoto de uns dezesseis anos, talvez um pouco pra mais, talvez um pouco pra menos. De uísque, só gostava se fosse Royal Salut. Índio só na aparência, tinha cabelos lisos, ralos na nuca e bem maiores na frente, de modo a cobrir os olhos pequenos emoldurados por bochechas reluzentes. Era um caboclo atarracado, antes, e roliço depois, em vista das exageradas quantidades de material orgânico que ingeria, quase sem parar, sob a forma de sanduíches caprichosamente feitos por um tal Coelho, que não gosta de cenoura... Vivia muito bem seus venturosos dias, posto que a sorte lhe bafejara as gordas nádegas. O avô postiço, metido a burguês, dava-lhe desde um bom carro importado (apesar dos dezesseis anos), a roupas de grifes como a Triton e a Disritmia¸ dentre outras até mais cotadas. A avó, funcionária pública laureada, dona de não-sei-quantos-diplomas e péssima falante de não-sei-quantas-línguas, arrebitava o nariz como se o mundo todo fedesse a merda. Fora matriculado em colégio de bacana, mas de lá o destituíram por absoluta vagabundagem. Tibicuera, o bonachão, era um príncipe por falta absoluta de não ter o que fazer... Mas tinha, sim... Aos domingos, ia todo serelepe para as orgias do Sahara, no Calçadão da Gameleira. Na segunda, a ressaca era enorme e não o deixava freqüentar as aulas do colégio público para onde fora jogado para alegria do mandrião. Às quintas, ia para a boate Excalibur, de forma que a sexta ficava reservada para mais uma cura de mais um ou dois porres do dia anterior. E nada de escola também neste último dia útil da semana. Como as aulas de Matemática eram na segunda, na quarta e na sexta, o mancebo só assistia as do meio da semana, quando a rebordosa permitia... E veio a prova pesada, tonitroante, maltratante, de lascar. Eis que o bacana tirou três e meio. Lágrimas, da tradicional família, não dele... E lá se foi a avó autoridade ao colégio do ímpio. Lá chegando, a véia deitou falação baseada na moderna psicologia da adolescência daqueles idos de mil novecentos e quarenta e poucos. Segundo ela, o netinho gordo e sacana deveria fazer provas de recuperação, tantas quantas fossem necessárias, até que a nota fosse recuperada. A defesa foi na base do “sabe com quem tu tá falando ô diretor?” Enfim, foi deliberado que outro exame seria aplicado. E foi. Mas Tibicuera tirou três. E na próxima, tirou dois e meio. E na outra, baixou pra dois... Enfim, todos acordados e felizes, houveram por bem deixar a nota do nosso herói na casa dos cinco, de modo que ele, ao final da temporada de altas sacanagens, foi aprovado e hoje deve ser um doutor-por-aí-qualquer. Que Deus se compadeça dos filhos e das outras vítimas deste gajo imponderável. E não foi um milagre? Foi, sim. O santo é forte. Tradição é tradição. Burrice é burrice. Naqueles dias tão longínquos, já cabia ao mercado de trabalho julgar pelo mérito e pela competência quem é bom e quem engana. Ao Tibicuera ficou muito difícil porque pertencia a um tempo em que os maus hábitos dos mais velhos eram copiados pelos mais novos. Já que ele nasceu entre enganadores, por que não ser também um deles? Irmãos da minha aldeia, vigiai e orai porque não sabeis quando será chegado o dia nem a hora. Este crítico contumaz dos costumes desta amada plebe rude já observou, há algum tempo, que não é de hoje que por aqui sobrexiste o hábito provinciano da “carteirada”. “Você sabe com quem está falando? Eu sou o tal!”
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