| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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O Seringueiro Voador Talvez por causa de sua condição geográfica, distante dos grandes centros e só muito recentemente ligado ao resto do Brasil por uma estrada pavimentada, o Acre acabou criando uma tradição de voadores. Padre voador, seringalista voador, jornalista voador e por aí a fora... Mas seringueiro voador é a primeira vez que escuto falar. E é exatamente o que vai acontecer neste domingo quando Seu Aldenor ganhar os céus do Rio de Janeiro a bordo de uma asa-delta.
Do mesmo modo são bem conhecidas do povo acreano as histórias de João Donato, o primeiro piloto acreano a tirar brevê e aprontar mil peripécias nos céus de Rio Branco. Uma fama ampliada ainda mais pelo fato de que João Donato era filho de um outro João Donato que lutou na Revolução Acreana e assim conquistou a admiração e o respeito da sociedade acreana. Além de ser pai de outro João Donato, musico respeitado no mundo inteiro por seu talento e composições que fazem parte da história da musica brasileira. Uma longa e bela tradição de “Joões Donatos” que muito orgulho traz ao Acre. E não poderíamos esquecer de mencionar, ao tratar de assuntos aéreos, de Armando Nogueira, o famoso Marques do Xapury, craque das letras que encanta o país com suas crônicas tão belas quanto os gols de Didi, Garrincha, Pelé, Zico e outros. Pois não é que além de fazer parte da história do jornalismo brasileiro, Armando Nogueira ainda cultiva um fascínio absoluto por voar e se tornou piloto de ultra-leve, entre outros artefatos voadores???!!! Entretanto, apesar dessas histórias e de outras tantas que envolvem aviões, aeroportos, acidentes aéreos e caracterizam a vida no Acre desde os anos 30 (quando aqui aquatizou o famoso hidroavião “Taquary” do Sindicat Kondor), não conheço nenhuma história de seringueiro “avoando” por aí... Caberá, portanto, ao nosso velho e querido Seu Aldenor o papel de pioneiro nessa arte - ao mesmo tempo delicada e ousada - de planar sobre as florestas, sobre as praias, sobre a cidade e seus edíficios, voluteando nas correntes de vento como quem domina a correnteza do rio Acre no rumo do mar. Pra quem ainda não conhece Seu Aldenor ou não sabe de sua nova experiência em terras cariocas, uma breve explicação: Aldenor da Costa Silva nasceu e cresceu no Juruá dividindo sua já longa existência entre a cidade de Cruzeiro do Sul, onde todo carnaval comandava um animado bloco da Marujada, e diversos seringais daquela região, sempre com fama de seringueiro bom de faca com produção de mais de mil quilos de borracha fina por ano. E depois de muito perambular por esse Acre de meu Deus, Seu Aldenor acabou parando em Rio Branco onde em 2001 remontou, junto ao Departamento de Patrimonio Histórico da FEM, um grupo da Marujada que desde então abre todos os carnavais da cidade e se apresenta em eventos, residencias ou qualquer outro lugar em que seja chamado. Além disso, desde o ano passado Seu Aldenor trabalha no Parque Capitão Ciriaco, administrado pela Fundação Garibaldi Brasil, onde corta as mais de 400 seringueiras do parque defumando e produzindo “pelas” de borracha pelo método tradicional que tanto marcou a história acreana. Pois bem, se não bastasse toda a sua extraordinária trajetória de vida, que dá gosto de conhecer em detalhes contados com arte e humor por ele próprio, Seu Aldenor se tornou consultor da Glória Perez e da equipe de gravação da mini-série comandada por Marcos Schechtman. Assim, a partir de agosto acompanhou diariamente as gravações aqui no Acre e agora está no Projac, no Rio de Janeiro, a convite da produção da mini-série, como consultor para assuntos de florestas, seringueiras e defumações. Tornou-se então uma referencia pra equipe da Globo, com sua simplicidade, simpatia e sabedoria que não para de encantar a todos naquela selva de pedra com suas condições desumanas de vida. Assim aconteceu o inevitável: Seu Aldenor agora é pop! Eu diria que até mais que o Papa. Vai aparecer no Globo Reporter que será veiculado neste mes de dezembro, foi matéria da Veja desta semana na sessão “Gente que faz” e (descobri hoje, graças a Karla Martins que está com ele nas gravações do Rio de Janeiro) já tem até um vídeo no You Tube onde aparece cantando as musicas da Marujada. Mas como se isso tudo não bastasse, na semana passada viu pela primeira vez o pessoal pulando de asa delta da Pedra Bonita e pousando na Praia do Pepino. Pronto! Lascou-se! Seu Aldenor se fascinou com aquela história de voar entre as montanhas e depois de horas admirando os modernos voadores, decidiu: “eu também vou voar! A gente deve se sentir que nem passarinho, né?!!” E nem adiantou tentar colocar medo nesse cabra que já enfrentou tantas onças e encantes da mata. “Deve ser igual a avião e se eu voei num posso voar no outro”. Portanto, hoje, domingo, enquanto você, caro leitor, estiver lendo estas mal traçadas linhas, Seu Aldenor estará voando nos céus do Rio de Janeiro, passando ali bem na cara da esfinge da Pedra da Gavea (de longe a montanha mais linda, misteriosa e fascinante da cidade maravilhosa) e embicando na direção do mar, suave como gaivota de papel que menino faz pra voar com as asas da imaginação, mas vertiginosa como a vida que não cansa de nos assombrar. Seu Aldenor se tornará assim o primeiro seringueiro voador de nossa história. Só podia ser ele mesmo!!! Meu unico medo é que Seu Aldenor goste tanto dessa história de televisão, de voar, de ser pop que não volte mais pro nosso velho parque, nosso pequeno seringal urbano, onde inunda nossos dias com sua sabedoria tranquila e terna: “As arvores são como as pessoas, Seu Marcos, umas são boas, outras não prestam, não chegam nem a melar o fundo da tijela de tão pouco leite que dão.” E eu ia escrever sobre outro assunto, mas tive que mudar o tema da semana porque Seu Aldenor é como uma seringueira boa, generosa, que dá leite abundante, enche a tijelinha e traz felicidade para os sofridos homens da floresta, e estamos todos com saudade dele. Volta logo Seu Aldenor, larga desse negócio de avoar, vamos cortar seringa que é melhor... Notas do tempo Conforme avisei nesta coluna, saiu a matéria do Larry Rotter sobre os soldados da borracha no New York Times. Fiquei feliz com a correção deste reporter que não se furtou em colocar a cobrança dirigida por nossos veteranos ao governo e ao povo dos Estados Unidos. |
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