OPINIÃO
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Renan Calheiros *

 

Folia nordestina

A origem do carnaval vem de uma manifestação popular anterior à era Cristã, tendo se iniciado na Itália com o nome de Saturnálias - festa em homenagem a Saturno. As divindades da mitologia greco-romana, Baco e Momo, dividiam as honras nos festejos, que aconteciam nos meses de novembro e dezembro. Durante as comemorações em Roma, acontecia uma aparente quebra de hierarquia da sociedade, já que escravos, filósofos e tribunos misturavam-se em praça pública. Com a expansão do Império Romano, as festas tornaram-se mais animadas e freqüentes.

No início da era Cristã, começaram a surgir os primeiros sinais de censura aos festejos mundanos na medida em que a Igreja Católica se solidificava. A festa chegou a Portugal nos séculos XV e XVI, recebendo o nome de entrudo - isto é, introdução à Quaresma, através de uma brincadeira agressiva e pesada. O evento tinha uma característica essencialmente gastronômica e era marcado por um divertimento entremeado com alguma violência. Faziam-se esferas de cera bem finas com o interior cheio de água-de-cheiro e depois se atirava nas pessoas. Os mais ousados, no entanto, começaram a injetar no interior das “laranjinhas” ou “limões-de-cheiro”, substâncias mal cheirosas e a festa foi perdendo sua alegria. Foi exatamente esse entrudo violento que aportou no Brasil.

Hoje, nossa festa popular fascina o mundo e os turistas que esperam encontrar no Brasil a alegria e vivacidade que raramente se manifestam espontaneamente lá fora. O carnaval moderno virou uma indústria que impulsiona a economia, gera empregos, alavanca o turismo e projeta a imagem de um país alegre. Na Bahia, por exemplo, a cada ano, a festa é responsável pela geração de 130 mil empregos diretos e indiretos e por uma movimentação de negócios da ordem de mais de meio bilhão de reais, incluindo venda de abadás, comercialização de bebidas e alimentos, investimento das entidades carnavalescas, venda de bebidas, camarotes, mesas de pista e arquibancadas, hospedagem, aluguel de imóveis e veículos, passagens aéreas, terrestres e hidroviárias e indústria fonográfica.

Já o carnaval de Alagoas é feito nas ruas, com homens e mulheres desfilando suas fantasias e alegorias. As pessoas se manifestam nos folguedos mais tradicionais como os blocos de caboclinhos, dança originária da herança indígena, onde os arcos, bumbos e pífanos marcam o ritmo contagiante. Há, em muitas cidades alagoanas, a tradição dos blocos de sujo com suas críticas sociais. Alguns chegavam a dividir as populações em torcidas organizadas e até fanáticas. Matriz de Camaragibe, na região norte, durante a primeira metade do século passado, tinha os “Democratas” e os “Lenhadores”. Esta tradição foi revivida em Maceió nos anos 80, com o surgimento do bloco “Meninos da Albânia”, que tinha inspiração política definida e uma ferina crítica social.

Mas o carnaval alagoano freqüentou também os salões nobres da Fênix e do Iate Clube, em Maceió. Nas primeiras décadas do século passado, os bailes eram animados pelas polcas e mazurcas compostas por Misael Domingues. Na segunda metade do século, os sambas de Juvenal Lopes eram a coqueluche da cidade. Também se destacava como compositor o radialista Edésio Lopes, que cantou a mulher alagoana resgatando sua origem indígena: “Vem morena caeté / vem morena xucuru / vem morena açucarada / da terra do sururu”. Ou, ainda, as belezas indizíveis de Maceió: “Olhei a cidade sorriso / e vi Maceió tão feliz / mostrando tanta beleza ao povo desse país”.

* Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de fevereiro de 2005
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