ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Maria Maia
Comunidade da Foz do Breu reunida na escola da vila

Foz do Breu será comunidade padrão

Elson Martins 
 
O governador Binho Marques começará bem o governo se - como anunciou o coordenador político Carioca (Francisco Nepomuceno) no começo da semana - levar sua equipe à Foz do Breu, no alto Juruá, na fronteira com o Peru, para planejar ações que melhorem a vida das famílias ribeirinhas da região. A idéia do governador é transformar Foz do Breu numa comunidade padrão de desenvolvimento sustentável, com ações que serão aplicadas em seguida nas demais comunidades da floresta.

Em duas ocasiões (2003 e 2006) eu visitei a região como membro da Expedição à Foz do Breu, organizada pelo desembargador Arquilau de Castro Melo, e sei o quanto esse contato é importante para o governo e para o povo que o elegeu. Viajamos em oito pessoas num barco de médio porte, que partiu de Cruzeiro do Sul com paradas nas cidades de Porto Walter e Thaumaturgo, bem como nas vilas que surgem nas margens do rio Juruá, aprendendo muito com seus moradores. Aprendemos, sobretudo, que não custa caro nem é complicado ajudá-los.

Carioca disse que Binho Marques ficou encantado com a vila Foz do Breu ao visitá-la durante a campanha eleitoral. Se forem bem escolhidos, os novos secretários de Estado vão se encantar também. Porque vão poder dialogar com pessoas acolhedoras, saudáveis, que sabem cuidar de suas crianças, são simples e colocam seus problemas em tom de respeito e esperança. Os assessores verdadeiramente comprometidos com os povos da floresta vão perceber que as comunidades precisam apenas de atenção e um empurrãozinho do governo.

A produção de conhecimento que acontece nessas viagens é imensa, mesmo sem o caráter científico que tanto agrada alguns burocratas, porque os viajantes se deparam com seres humanos que oferecem novidades estimuladoras, na direção da sustentabilidade social, econômica e cultural. E política, ética e cultural. O conteúdo desse diálogo é excepcionalmente atraente.

É sabido que o Governo da Floresta planeja ações e soluções duráveis para os ribeirinhos, seringueiros e índios. Eles vivem com a expectativa de soluções duráveis, mas também emergenciais. É preciso, portanto, atacar pelos dois lados: fazer o planejamento estratégico clássico e, simultaneamente, atuar com criatividade implementando ações interativas com aquele povo. Um exemplo? Manter médicos, enfermeiros ou agentes de saúde visitando as comunidades com um bom estoque de medicamentos mais utilizados (contra diarréia e verminose).

A situação não é diferente com os extrativistas mais entranhados na floresta. Eles têm consciência de que houve uma mudança favorável e se sentem libertos nos rios e nas matas, ampliando a consciência da preservação de seu patrimônio natural que é a floresta. Acontece, porém, que vivem pouco informados do que vêem pela frente para melhorar sua condição de vida, sentindo-se inseguros sobre o que fazer (cortar seringa? Plantar grãos?), como se os patrões ainda estivessem por perto espreitando e preparando novas armadilhas.

A julgar pelo discurso deles, fica difícil não concluir que o governo tem falhado, talvez por sofisticar demais (e por isso retardar) soluções que demandam simplicidade e emergência. Existem muitos talentos na floresta e nas beiras de rio querendo dialogar e apontar soluções para desenvolver a região com coisas que eles sabem e podem fazer. Um pequeno financiamento (que tal pensar no Banco da Floresta?) os deixaria mais tranqüilos e animados.

Muitos seringueiros que saíram do centro para a margem não querem mais produzir borracha, pelo menos nas condições que produziam, mas estão dispostos a plantar “de um tudo” em seu roçado - do feijão ao tabaco - porque sabem que vale a pena. As famílias ribeirinhas se alimentam mais de três vezes por dia, não querem sair da comunidade e só reclamam da falta de assistência médica e de garantia de mercado para comercializar a produção agrícola excedente.

No Bagé e no Tejo, testemunhamos outro tipo de insegurança na produção. Uma das poucas famílias que produzem couro vegetal se revelou desanimada por depender de uma empresária que nem sempre foi regular no cumprimento do contrato. Não há um financiamento seguro, a família fica imaginando se vai dar certo ou não continuar com o negócio. Por razão semelhante os seringueiros que produzem o CVP (Cernambi Virgem Prensado) e a Folha Fumada estão desistindo da atividade por falta de orientação técnica e de materiais coagulantes. Além disso, quando procuram discutir preço da produção não sabem quem pode ajudá-los. O Governo da Floresta ainda se coloca como um parceiro distante desses problemas e desse povo.

ESTRADAS LÍQUIDAS

Nas reuniões diárias que promovíamos no barco durante as expedições à Foz do Breu percebemos o valor das estradas líquidas que são os nossos rios. Tomando como exemplo o rio Juruá, de Cruzeiro do Sul até o Breu, seriam quase 3 mil quilômetros de margens a serem povoadas com a criação de pequenos núcleos de produção. As famílias já vivem num embrião desses núcleos, em casinhas bem arrumadas, com escola e um começo de tratamento d’água, mas ainda é pouco. Com a ajuda do Governo, esses núcleos poderão desenvolver pequenas criações e produzir grãos, tabaco, açúcar mascavo, artesanato etc, escoando tudo para Cruzeiro do Sul. Ou, durante o verão, para a capital e os municípios localizados ao longo da BR-364. Com o tabaco, por exemplo, não poderia ser lançado um charuto especial estilo cubano, chamado “porronca”?

Esses núcleos podem ser pensados também como um desafio para casais jovens que estejam dispostos a viver em contato com a natureza enriquecendo o saber científico com o conhecimento tradicional das comunidades e vice-versa. Os casais jovens e urbanos poderiam também (e receberiam alguma ajuda) alimentar o sistema de comunicação oficial capitaneado pela TV Aldeia e Rádio Difusora..Estariam, desta forma, contribuindo para a construção da utopia florestania.



Cameni e Vássia na infância

Indagações de ameixas

Vássia da Silveira *
 
Ela herdou da mãe a cor dos cabelos negros e os olhos grandes, compridos e redondos. Nasceu em vésperas de naufrágios conjugais. E talvez pelo desejo das asas, lhe deram o nome de Cameni - que significa pássaro, para os índios Apurinã.

Chegou em nossa casa enrolada numa manta amarela, nos braços de minha mãe. Eu tinha oito anos nessa época, mais não sei dizer. Sei que minha pequena menina cresceu à sombra das casas e dos amores partidos, em busca de lar.

Nas fotografias que tenho de sua infância vejo sobressair o olhar vago. Perdido, sabe Deus, por quais mundos de fantasia. Duas ameixas pretas, cintilantes, penduradas na imensidão de um vazio sem nome. Numa, a pequena segura nas mãos uma flor do mato. A tez pálida, as mãos em concha, os olhos de ameixa e aquela imensa e rosa flor do mato caindo das mãos como um copo d’água que vai ao chão por um susto.

Sempre tive medo de perguntar-lhe quais eram as suas interrogações, naquele e em outros retratos. Mas não o fiz. E a pergunta que intrigava na menina cresceu nos olhos redondos da mulher, grudando não apenas em sua retina, mas nos gestos, na boca, no andar - como se cada pedrinha encontrada no meio da calçada merecesse dela um minuto de introspecção.

Não, minha pequena, não tenho respostas. Esta foi a frase que tantas vezes tive vontade de lhe sussurrar aos ouvidos. Mas faltou-me coragem.

Busquei dar-lhe pelo menos alento às inquietações. Sem nunca, porém, dizer-lhe que eu mesma sou um poço de dúvidas. Que não foram poucas as vezes em que nos falamos e engoli minhas angústias para não enfraquecê-la ainda mais. Que em muitas, senti vontade de desabar e pedir-lhe também alguma resposta: Ponha as cartas, mana. Preciso de ajuda.

Mas poupei-a sempre – ou quase sempre - do desespero que trago comigo. E é esta a única resposta que tenho: o amor que transcende os laços familiares. Como se fosse minha irmã uma metade minha. Uma metade que indaga o mundo olhando também para dentro, uma metade apartada e refletida numa imagem diferente da que o espelho me mostra todas as manhãs.

Isso explica meus cuidados. O hábito de acompanhar à distância seus vôos, como uma mãe que acredita na hereditariedade das coisas. De imaginar a que lugares aonde eu gostaria de ter ido, e não fui, minha irmã chegará. E que outros, desconhecidos, ela me revelará. Que lugares?

Outro dia, confessei-lhe que a fazia dormir pressionando suas pálpebras. Impedindo, com gesto infame, a resistência ao sono – que chegava junto ao choro, como uma espécie de lençol. Senti vergonha e alívio. E pensei: terei respondido, agora, a alguma de suas interrogações?

Não sei. O que sei é que até hoje, em noites de angústia, trocamos telefonemas e impressões sobre galhos, rochedos e fios de eletricidade que nos dilaceram a carne. Ela, ainda pássaro-aprendiz. Eu, muitas vezes, pássaro sem asas.

Vássia Silveira nasceu em Belém (PA), em 1971, mas viveu sua infância e adolescência em Rio Branco. É jornalista, mãe de Clara e Anaís e autora do site “Ana e suas mulheres”. Foi editora da revista “Outraspalavras”, lançada pela Fundação Cultural Elias Mansour, no Acre. Atualmente mora em Florianopolis e tem textos publicados nos sites Nariz de Cera,Cronópios e Bestiário, entre outros. Assina também o blog “Gavetas e Janelas”.

 
 
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P E S Q U I S A

Rio Branco-AC, 4 de fevereiro de 2007