| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Um outro Galvez No último capítulo da minissérie Amazônia, exibido sexta-feira, assistimos à prisão e deportação de Luis Galvez em março de 1900. Parecia o fim do Estado Independente do Acre, mas, após a vitória de 24 de janeiro em Porto Acre, o coronel Plácido de Castro retomaria essa idéia, bem como a bandeira do Acre criada por Galvez. Acredito que com a exibição da minissérie está completa a tarefa, iniciada em 1999, de recuperação do papel histórico de Luis Galvez Rodrigues de Arias, que, em vez de ser visto como um aventureiro bêbado e irresponsável, pode agora ser reconhecido como um líder que, além dos interesses econômicos, deixou-se levar também por algo que nos faz tanta falta hoje: a utopia.
E para os que têm a memória curta, transcrevemos hoje um texto ficcional que, além de ter sido publicado na revista Outraspalavras, foi dramatizado nas comemorações do centenário do Estado Independente do Acre em 14 de julho de 2000 numa cerimônia emocionante. Naquela ocasião. o ator Darci Seles representou Galvez e declamou parte desse texto na sacada do Palácio Rio Branco, com o acompanhamento de músicos acreanos que apresentaram em primeira mão algumas das músicas dedicadas a Galvez na Ópera Aquiry, de Mario Brasil, que ainda estava sendo composta. A partir de agora, portanto, ninguém tem mais motivos para tratar Galvez como o Imperador do Acre, mas pelo título que lhe custou tão caro: Presidente Galvez. Cidade do Acre, 14 de março de 1900 Está se aproximando às 5 horas da tarde, devo escrever logo as páginas de hoje desse diário, antes que me assalte o sezão que insiste em tomar conta de meu corpo sempre à mesma hora. Essa febre maldita do impaludismo parece bruxaria. Quem poderia imaginar uma febre que tem hora marcada e que provoca uma prostração tão grande que a morte parece mesmo preferível. Caso eu fosse sua única vítima acharia que havia sido uma praga bem rogada. Mas não posso me queixar, quase todos por aqui acabam, mais cedo ou mais tarde, sendo acometidos pelo mesmo mal. Não é uma praga humana, é a selva que nos quer afastar de seu meio, como se soubesse que esses homens brancos só a podem destruir. Portanto, preciso aproveitar bem esses últimos minutos de razão. Até porque, ao que tudo indica, amanhã não haverá tempo para escrever nada. É a data marcada para meu banimento do Acre. O governo brasileiro honrou-me enormemente ao mandar essa força tarefa de sua marinha para levar-me daqui. Pelo menos isso demonstra o quanto cheguei a ser importante nessa guerra de fim de mundo. Caso fosse eu um qualquer, bastaria a presença de alguma das corruptas autoridades de Floriano Peixoto acompanhado de alguns poucos praças para me obrigar a descer o Purus rumo a Manaus, como cansam de fazer aos seus desafetos ou aos corajosos que não aceitam o autoritarismo que impera por esses seringais. Hoje sou o Presidente desse país imaginário, estou acima do comum dos mortais dessas plagas. Por isso os Estados Unidos do Brasil me honram de tal modo. Talvez seja medo, talvez admiração pela República do Acre ter conseguido ser muito mais efetiva em relação aos direitos de seus cidadãos que esse governo espúrio que comanda a vida dos milhões de brasileiros que habitam sob a proteção de sua bandeira. Melhor pensando, talvez sejam as duas coisas, medo e admiração, por termos conseguido, aqui nesses confins da floresta, o que nunca sonharam em alcançar em plena capital da República: liberdade e igualdade. Eis o supremo resultado desse meu governo que completa hoje oito meses. Para nos equipararmos totalmente aos ideais da Grande Revolução Francesa só faltou mesmo implantar a doce, e sempre tão distante, fraternidade entre os homens. Até que existiram momentos em que estivemos bastante próximos desta última e definitiva conquista. Como quando fui retirado do governo à força pelo rude Coronel Antonio de Souza Braga e depois de somente um mês de afastamento fui reconduzido na plenitude de meus poderes à presidência da República do Acre. Pensei que ali, naquele momento, havíamos realmente chegado ao ponto ideal da sociedade que só existia em meus sonhos mais delirantes. Ver consolidada uma vida, um lugar, onde imperavam, não o egoísmo exacerbado, mas a liberdade do indivíduo, a igualdade entre todos (desde os mais poderosos até os totalmente miseráveis), unidos pela poderosa cola da fraternidade. Mas o homem é, definitivamente, um ser imperfeito. Chegou o momento, como eu sentia que haveria de chegar, em que o que há de pior no ser humano aflorou. Aquele sentimento insuperável de atenção aos próprios interesses e vaidades. A ironia é que o mal veio exatamente quando essa região se torna mais rica e fértil. Bastou que os rios se enchessem das águas turbulentas que nos vêm todos os anos desde os Andes, para que chegassem os vapores carregados de mercadorias, álcool, prostitutas, vadios e aproveitadores de todos os tipos e calibres. E com eles, os interesses financeiros, os créditos cobrados em borracha, a lembrança da vida que existe para além dessas portentosas florestas, lá nas cidades e metrópoles da velha Europa e da nova América. Foi o bastante para decretar o fim de nossos sonhos. Tão logo nossos honrados coronéis foram cobrados de seus compromissos junto aos aviadores e exportadores de Belém e Manaus rapidamente esqueceram-se de seus laços com a nossa República. Essa terra tão longamente desbravada pelos pioneiros, tão duramente arrancada das mãos dos bolivianos invasores, tão arduamente construída desde o grande dia 1º de maio, quando nossos precursores deram o primeiro passo no sentido da liberdade, tão fortemente forjada em corações e mentes desde o nosso inesquecível 14 de julho amazônico, traída solene e mansamente em nome do vil metal que tanta cegueira provoca no gênero humano. Estou a tergiversar. Deve ser a febre que já me chega, como todos os dias, pontualmente às 5 da tarde. Maldita febre, maldito impaludismo, maldita solidão que me tira as forças e a vontade de continuar lutando. Mas não é isso o que importa. O que realmente interessa é que estou profundamente preocupado com o destino dessa terra. O que vislumbro não poderia ser mais temerário. O governo brasileiro não me parece disposto a mudar sua posição em relação à dominação boliviana dessas ricas terras. É estranho mas é verdade. Não passa pela cabeça de ninguém que o Brasil possa renegar tão completamente uma terra tão rica e produtiva como o Acre. Enquanto os Estados Unidos da América não vacilaram em invadir terras pertencentes a outros para ampliar e consolidar seus domínios durante a corrida do ouro californiano, o Brasil se enche de purismos e sofismas na hora de tomar posse do que é seu por direito de ocupação e povoamento. Nem o apelo da riqueza proporcionada pelo ouro negro das seringueiras parece ser suficiente para despertar os burocratas do Rio de Janeiro de seu torpor. Essa recusa do Acre trata-se do maior e mais insolúvel enigma com que já me deparei dentre os tantos países porque passei nessa minha tumultuada existência. Por outro lado, nenhum desses poderosos senhores dos barrancos e dos seringais parece-me capaz de dar continuidade à nossa guerra e nossa causa. Nenhum deles, desde os seringalistas mais honrados como Joaquim Victor e Hipólito Moreira, passando pelos homens de caráter duvidoso como Gentil Norberto e Rodrigo de Carvalho até meus mais valorosos inimigos como Neutel Maia e o Capitão Barbosa Leite, parecem capazes de continuar liderando essa massa diversa de homens de todos os matizes e origens que compõem o povo acreano. Caso contrário, como explicar que eu, espanhol de nascimento e homem do mundo por opção, poderia tê-los liderado por tanto tempo, conquistando tanto sua confiança como sua admiração? Logo eu, que nesta terra de estrangeiros e imigrantes tornei-me o mais acreano de todos. Ah, moinhos de vento! E o mais paradoxal de tudo, apesar dessa crônica falta de lideranças, aqui existe um povo que possui unidade e sonho suficiente para lutar. Pobres homens do Acre, efetivamente acreditaram na quimera de uma República Acreana, justa, livre, cidadã. Acreditaram em mim, Quixote errante, que lutei por uma distante utopia impossível. Pode até ser efeito da febre que já assalta-me, deixando minhas mãos trêmulas enquanto escrevo e o papel empapado do suor que escorre de minha fronte cansada, mas acredito que, independente de encontrar líderes que os valha, esses homens, esse povo, permanecerão lutando. Porque essa parece-me ser a têmpera do Acre, que sem luta não existiria. Acredito sim que, aconteça o que acontecer de hoje em diante, esse povo nunca deixará de lutar por seu ideal de liberdade e auto-determinação. Talvez essa tenha sido a única contribuição efetiva de meu governo, pois algo me diz que esse povo carregará para sempre consigo a marca dessa luta por seu direito à cidadania e não se afastará dessa trincheira jamais, por mais poderosos que possam parecer os inimigos. Seja qual for o futuro reservado a essa terra, só espero que não se esqueçam jamais do cidadão Luiz Galvez, que apesar de Presidente aclamado, se orgulha de ser igual a todos os outros cidadãos das mais variadas origens e classes sociais que formam essa estranha pátria amazônica. Um homem que sonhou junto com outros homens, de igual valor e coragem, com o Estado Independente do Acre, esse pequeno e longínquo país que se atreveu a ser o que quis: lugar da liberdade e ao mesmo tempo lugar da contradição de um mundo que se esqueceu do quão é essencial sonhar. Custa-me admitir, mas é com imensa dor que partirei amanhã, apesar dessa maldita febre, pois que meu coração me diz que não mais voltarei ao Acre nessa vida. Só me resta então dizer: Adeus minha pátria querida! Luiz Galvez Rodrigues de Arias Texto publicado na revista Outras Palavras, nº. 4, em abril de 2000.
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