| OPINIÃO | ||
| PAULO COELHO | ||
Paulo Coelho |
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DOIS CONTOS CHINESES O sábio rei Weng pediu para visitar a prisão de seu palácio. E começou a escutar as queixas dos presos. - Sou inocente - dizia um acusado de homicídio. – Vim para cá porque quis assustar minha mulher, e sem querer a matei. - Me acusaram de suborno - dizia outro. - Mas tudo que fiz foi aceitar um presente que me ofereciam. Todos os presos clamaram inocência ao rei Weng. Até que um deles, um rapaz de pouco mais de vinte anos, disse: - Sou culpado. Feri meu irmão numa briga e mereço o castigo. Este lugar me faz refletir sobre o mal que causei. - Expulsem este criminoso da prisão imediatamente! - gritou o rei Weng. - Com tantos inocentes aqui, ele terminará por corrompê-los! ********* Zizhang procurou Confúcio por toda a China. O país vivia um momento de grande convulsão social, e ele temia derramamento de sangue. Encontrou o mestre junto de uma figueira, meditando. - Mestre, precisamos urgente de sua presença no governo - disse Zizhang. - Estamos à beira do caos. Confúcio continuou meditando. - Mestre, ensinaste que não podemos nos omitir - continuou Zizhang. - Disseste que somos responsáveis pelo mundo. - Estou rezando pelo país, - respondeu Confúcio. – Depois irei ajudar um homem na esquina. Fazendo o que está ao nosso alcance, beneficiamos a todos. Tentando apenas ter idéias para salvar o mundo, não ajudamos nem a nós mesmos. Existe mil maneiras de se fazer política; não é preciso ser parte do governo. O FATO Eis a origem do ditado: “macaco velho não bota a mão em cumbuca”. Na Índia, os caçadores abrem um pequeno buraco num coco, colocam uma banana dentro, e enterram-no. O macaco se aproxima, pega a banana, mas não consegue tirá-la - porque sua mão fechada não passa pela abertura. Ao invés largar a fruta, o macaco fica lutando contra o impossível, até ser agarrado. O mesmo se passa em nossas vidas. A necessidade de ter determinada coisa – às vezes algo pequeno e inútil - faz com que terminemos prisioneiros dela. A REFLEXÃO (Do livro “A Sabedoria dos mestres judeus”) O rabino Yannai costumava dizer: Não há nenhuma maneira de explicarmos a prosperidade dos malvados ou o sofrimento dos justos. Tudo que nos é pedido, entretanto, é que procuremos – nós mesmos – a justiça. A realidade é mais complexa do que gostaríamos que fosse. Se ficarmos insistindo para que tudo tenha um sentido, terminaremos desesperados. A realidade não pode ser embrulhada com papéis coloridos, e atada com a fita dourada do moralismo. A realidade é maior do que nossa visão do Bem e do Mal, do que está certo ou errado. A realidade é o que é, e não o que imaginamos que devia ser. Onde pudermos lutar pela justiça, lutemos. Onde somos confundidos por uma Verdade além de nossa compreensão, ainda assim procuremos fazer o melhor. |
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