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Elson Martins
Marcos Vicentti
Pintura na Catedral
Marcos Vicentti
Sansão: pintor impressionista

 

Sansão: arrojo e paixão na pintura impressionista

Quem olha a enorme tela (6 metros de largura por 9 de altura) que o artista plástico Sansão Pereira pintou e doou ao Governo do Acre para ser colocada à entrada do Palácio Rio Branco, com uma cena épica da Revolução Acreana, se pergunta logo: como ele a produziu, aos 80 anos de idade, em seu pequeno atelier no Rio de Janeiro? Teria utilizado um enorme cavalete com diferentes degraus? O cavalete hipotético era o de menos. Na verdade, o esforço do excepcional artista acreano para produzir a peça, que teria custado no mercado de obras de arte algo em torno de R$ 500 mil, exigiu experiência e vontade inimagináveis.

A primeira dificuldade de Sansão foi encontrar uma tela grossa capaz de suportar uma base com cinco demandas de tinta e o seu próprio peso. Tal tela não existe nas prateleiras em nenhum comércio do mundo. O artista, entretanto, foi resolver o problema em Manaus, onde escolheu a juta para substituir o linho, geralmente utilizado. O passo seguinte foi procurar uma tecelagem em São Paulo. A maior tinha a capacidade de fazer um tecido de 3 metros de largura. Isso colocava uma nova dificuldade: juntar os pedaços para obter uma tela com 6 metros de largura. Uma tradicional cerzideira de Campos, no Rio de Janeiro, foi convocada, porque a emenda não podia deixar marcas. Ela cerziu quase 9 metros sem deixar rastro.

Quando a tela atingiu a largura e a altura ideais, Sansão teve que mandar construir um chassis para estica-la e passar as cinco demandas de tinta que serviriam de base. Depois, precisou comprar um tubo de plástico de 2 metros de diâmetro para enfiar nele a tela em rolo, e transporta-la para o seu atelier. Sim, para o atelier no oitavo andar de um prédio do Rio de Janeiro, no qual o enorme tubo só poderia entrar pela janela.

Mas as dificuldades não haviam terminado. A sala onde o artista trabalha, com pé direito de 2,5 metros, não comportava a tela esticada naquelas dimensões (6mx9m).Tudo bem para o extraordinário Sansão, quase bíblico. Ele trabalharia nela desdobrando-a aos poucos.Para isso, desenhou e pintou uma miniatura da tela e a projetou para o tamanho desejado, em etapas, fotografando cada uma delas antes da dobra seguinte. Ou seja, Sansão não se afastava para apreciar sua obra em execução, por inteira, mas o fazia através dos sucessivos registros fotográficos. Conforme ele próprio me afirmou, só viu a obra completa e bela quando a cortina que a encobria foi descerrada no dia 6 de agosto de 2003, na inauguração do painel no Palácio Rio Branco. Uma rara emoção!

O trabalho de Sansão Pereira doado aos acreanos passou por outros zelos: a tinta utilizada foi importada da Inglaterra, por 2.500 dólares, com mais 160% de imposto de importação.E a moldura, encomendada a uma empresa do Paraná, foi feita em betume com folhas de ouro. A explicação para tanto esforço, amor e arte (Sansão trabalhou 5 meses, 10 horas por dia, para completar a tela) só pode estar na sua origem: Sansão nasceu no seringal Capatará, que pertenceu a Plácido de Castro e, portanto, foi cenário da cena que pintou. Ali próximo, o herói foi emboscado e assassinado há cem anos.

Recentemente, no segundo semestre de 2006, nosso herói do pincel e das tintas pintou a criação do mundo na catedral N.S. de Nazaré, um painel de mais de 100 metros quadrados que serve de fundo a uma escultura de Jesus Cristo feita em madeira. Mas não pensem que esta seja sua maior obra, já que o extraordinário acreano formado em engenharia eletrônica e que se mudou para as artes plásticas tornando-se impressionista por acaso (ao aproveitar as horas vagas numa cidade norte-americana onde viveu, para freqüentar uma escolinha de artes), ainda possui, aos 84, sonhos enormes.

Marrom, mas feliz!

Rivaldo Guimarães Batista *

Durante almoço num restaurante da cidade eu tive o prazer de reencontrar o Paulinho, noticiarista de esportes da TV Acre. Estava acompanhando a bela apresentadora Melissa Jares. Ele, filho do João Nascimento (figura inesquecível na história da Rádio Difusora Acreana), perguntou-me se eu sentia saudades do tempo em que militava na imprensa. Ele, estudante de jornalismo e pesquisador da história, colhendo informações de campo, extraídas dos expedientes dos jornais antigos, cruzava com meu nome em vários periódicos. Lembrou, também, das estórias que seu pai contava a meu respeito da época em que fui apresentador de programas na velha Difusora.

Nossa conversa se estendeu por um bom tempo. Muitos fatos, personagens e situações foram relembrados. Alguns até tragicômicos. Afinal, conviver com boêmios e intelectuais do porte de um Garibaldi Brasil (cronista, poeta, prosador, artista plástico, grã-fino e chargista. Nas horas vagas, Promotor Público); com a verve poética, o humor britânico, o carisma, a lealdade e a parcimônia de um Édison Martins (grande conhecedor da gramática); com a contundência nas críticas, às vezes diretas e sem subterfúgios do polemista Rufino Vieira (o pai do Toinho Alves); com o sarcasmo crítico do Foch Jardim; com o lirismo caipira do Liscênio Maia; com a eterna gozação do Zé Leite; com as “broncas” de palavreado impublicável do Zé Feitosa; com a eterna “liseira” do Elzo Rodrigues; com a voz tonitruante do Natal de Brito e a roufenha do Marães Câmara: com o palavreado chicoso do Eduardo Mansour: com as ideologias do Lourival Paca de Rabo; com os arroubos do Ananias Gadelha, do compadre Néo, do Pixico, do Omena, do Aflopes e outros cronistas de mancheia; e, principalmente, da eterna gozação nos papos de oficina ou de redação.

Durante muitos anos exerci o cargo de secretário da Associação Acreana de Imprensa, o embrião do atual Sindicato dos Jornalistas Profissionais. Costumava dizer, na época, que as nossas reuniões periódicas se desdobravam em três etapas: a primeira, de cúpula, na sede do antigo SERDA; em ato contínuo a segunda, de copo, no bar do Boaventura, na cabeça da ladeira da maternidade, geralmente acompanhada de curimatã recheada, um brinde da casa; a terceira, de cópula, terminava geralmente ao romper do dia pelos puteiros da cidade: Tangará, Internacional, Boa Água, Las Palmas, Taboquinha, etc..

É claro que a imprensa da época era marrom (**). Grosso modo, só se publicava aquilo que fosse do agrado do personagem, da empresa ou do partido político que financiasse a edição do jornal. Nem “O Acre”, o órgão oficial do Governo, escapava dessa prática de feição franciscana, de mão dupla. Como agenciador de anúncios o Garibaldi Brasil era insuperável. Quando conseguia algum de página inteira (geralmente do DERACRE, do BANACRE ou da SANACRE) ligava pra redação e avisava: “vai ter gaita grossa”. Mobilizada a turma e impresso o jornal, toda a edição ficava sob custódia dos gráficos. Só circulava depois que os operários recebiam pelo trabalho extraordinário...

A discussão sobre a autonomia política do Acre, motivada pelo projeto-de-lei de autoria do então deputado federal Guiomard Santos, serviu, como num passe de mágica, para modificar a conduta e a pachorra da imprensa acreana. O pessoal da situação, simpático ao PSD, partido do Guiomard, defendia, em matérias ufanas e caudalosas, a importância da autonomia política com a transformação do Acre em Estado. A oposição, por seu turno, ligada ao PTB do deputado federal Oscar Passos, em edições contundentes, procurava, é claro, desmistificar essa idéia utópica, alegando, entre outras coisas, que o sistema brasileiro de governo não admitia essa liberdade propagandeada. Foi um tempo que movimentou redações com bandeiras desfraldadas, com definições políticas, com muita polêmica e grande evocação cívica.

Sinto, é claro, muita saudade dessa época e a vivência com esses personagens inesquecíveis no cadinho das redações molduraram, de certa forma, o caráter e a maneira de ser deste escriba. Se eu pudesse voltar no tempo repetiria tudo...

* Juiz de Direito aposentado e articulista bissexto

** Diz-se daquela imprensa sem identidade, sem linha editorial.

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de março de 2007