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Turismo ambiental na Estrada do Pacífico

Rumo ao sul do Peru, “Caminhos de Chico Mendes” conta a história contemporânea do Acre. Aos poucos, a rota Rio Branco-Cusco se estrutura e mostra viabilidade econômica

Sérgio Valle


Sérgio Valle
Caravana de acreanos segue em terras peruanas (acima)
para conhecer as belezas que o país andino proporciona

Reportagem: Edmilson Ferreira *
Fotos: Sérgio Vale *

Das três rotas estabelecidas pelo governo do Estado como estratégicas para o desenvolvimento do turismo do Acre, Caminhos de Chico Mendes apresenta temas importantes para a relação entre cultura e desenvolvimento econômico. A floresta acreana é o principal atrativo para a consolidação do ecoturismo. O apelo das florestas acreanas, no entanto, não se resume à rica biodiversidade. Além disso, a floresta mantém populações que há séculos vivem da extração de seus recursos. A importância da mata para essas populações deu vida às lutas como a de Chico Mendes: líder que lutou contra a injustiça social e enxergou que, na Amazônia, isso só seria possível usando de forma inteligente o que a floresta oferece.

Partindo de Rio Branco, quem viaja pela BR 317, no trecho que possui conexão direta com a Estrada do Pacífico, logo se sentirá convidado a entrar em Xapuri, a cidade de Chico Mendes, e conhecer o museu em homenagem ao mártir. Dali, é possível chegar ao Seringal Cachoeira, onde Chico viveu e trabalhou. O turista contemplará a natureza amazônica; conhecerá a cultura extrativista e ribeirinha; caminhará por trilhas com acompanhamento de seringueiros, mateiros; verá a coleta de castanha (que é feita de janeiro a março); corte da seringa; defumação da borracha; praticará, enfim, turismo científico e cultural.

Nesse contexto, um pouquinho da beleza da selva amazônica e os costumes de suas populações tradicionais pôde ser visto no “Toyota Raid Tour Amazônia-Andes”, encerrado com a chegada dos participantes a Rio Branco em um domingo, 25 de fevereiro. Organizado pela iniciativa privada, confirmou a rota Rio Branco/Cusco excelente opção de passeio e sensibilização empresarial conferido pela Estrada do Pacífico –ou Carretera Interoceânica, como é conhecida no Peru a rodovia que liga o Acre aos portos de Illo e Matarani, no Sul do país vizinho.

O rally, que não teve caráter de competição, aconteceu de 16 a 25 de fevereiro de 2007 com saída às 8h de sexta-feira de Rio Branco e chegada à tarde de domingo em Cusco, cidade peruana de 300 mil habitantes considerada a capital do Império Inca.

O objetivo dessa primeira edição do “raid” (sigla para Regularidade Absoluta em Itinerário Desconhecido) foi cumprido em sua totalidade, proporcionando aos participantes a emoção de percorrer os 1,1 mil quilômetros que separam Rio Branco de Cusco atravessando sítios paisagísticos da Amazônia e conhecendo de perto uma das regiões mais visitadas do planeta: os Andes. O grupo, integrado em sua maioria por empresários e pecuaristas, teve a oportunidade de conhecer um pouco da história atual da colonização espanhola peruana e a cultura do povo Inca. As ruínas das várias cidades e templos construídos pela civilização Inca fascina pela vida que sugere mistério e encantamento. Em Cusco, existem centenas de igrejas católicas em parte edificadas sobre templos Incas.

O itinerário percorrido, a Estrada do Pacífico, é um dos três eixos estratégicos para o desenvolvimento do Acre –e daí a importância do evento, não apenas pelo aspecto turístico como pela difusão de uma nova visão sobre a rodovia. No Peru, a relevância da Carretera é defendida não apenas pelos dirigentes comunitários como pelas populações que vivem ao logo da “carretera”.

A revitalização de pontos turísticos e o resgate histórico fazem parte dos temas apontados pelos especialistas como os que receberam maior atenção do Estado nos últimos anos.

Os turistas que vêm ao Acre têm a oportunidade de conhecer uma rara exuberância natural. O Estado tem hoje, 45% do seu território destinado a áreas protegidas. Estão no roteiro o Parque Nacional da Serra do Divisor, Parque Ambiental Chico Mendes e o Parque Capitão Ciríaco.

As conquistas históricas foram preservadas através da revitalização ou construção de modernos espaços culturais, o que evidencia a demonstração de seu apreço pela cultura. Nesse setor, estão a Casa de Chico Mendes, Fundação Chico Mendes, Horto Florestal, Calçadão da Gameleira, Igrejinha de Ferro, Palácio Rio Branco e Teatro Plácido de Castro.

O rally trouxe a contemplação da natureza ao comboio composto por quarenta pessoas em 14 camionetas conectadas através de rádio. Marques e o historiador Libério de Souza faziam a apresentação da paisagem ao pioneiro grupo de “raideros” do Acre. “É interessante”, disse João Albuquerque, empresário do ramo da construção civil em Rio Branco. “Aqui há turismo para todos os gostos e bolsos”, completou Bruno da Silva, outro empresário que participou do rally. Ele está certo: com a consolidação da Estrada do Pacífico ainda outros perfis de turista estarão usando a nova rota.

A viagem seguiu pela Interoceânica passando pelos vilarejos do Departamento de Madre de Diós, cujos habitantes sobrevivem basicamente da coleta de castanha. O comboio conheceu o rio Madre de Diós, que junto com outros mananciais forma o rio Madeira. Como parte do projeto da Interoceânica o Consórcio Conirsa, um dos apoiadores do raid, está construindo a ponte que unirá Puerto Maldonado à estrada. Para chegar a Maldonado, os visitantes utilizam balsa. O Toyota Raid Tour Amazônia-Andes conta com a parceria da empresa Xapuri Motors, concessionária Toyota no Acre, apoio do Sebrae no Acre e do Governo do Acre através da Secretaria de Turismo, que está em processo de transformação jurídica. Convidado pelo governador Binho Marques, Cassiano Marques é o responsável pelo órgão que conduzirá a política de turismo do Acre.

A última visão da floresta amazônica da planície pode ser feita no Mirador Turístico de Santa Rosa, no alto da serra de mesmo nome. Dali, inicia-se de fato a subida rumo à fascinante Cordilheira dos Andes, com seu povo forte e amistoso, de cultura única e imagens de uma natureza exuberante por todo o caminho.

Depois das maravilhas da Amazônia, o poder da paisagem andina

Batizada de Walla Walla, um dos conjuntos de montanhas que integram a Cordilheira dos Andes deixa os viajantes extasiados. Seu ponto mais alto chama-se El Cumbre e seus moradores, em geral agricultores e criadores de alpaca e lhama, são herdeiros de pessoas que há gerações sobrevivem na adversidade da altitude –o Cumbre registra 4.750 metros acima do nível do mar –do clima e da geografia do lugar constituída por montes e montes de pedra e vegetação rasteira.

No retorno do rally, os “raideros” puderam brincar na neve que formou nos picos. “Que maravilha”, repetiam.

Walla Walla ainda é atualmente a passagem que leva a Cusco pela Carretera Interoceânica –e os serranos que ali vivem lutam para que a rota assim permaneça tamanha a importância da estrada para eles. “Estaremos mais felizes assim”, disse Justino Huillca, morador da comunidade de Puyca, distrito de Marcapata em Walla Walla, Huillca mantém no El Cumbre um pequeno quiosque onde comercializa produtos alimentícios, água e refrigerantes ao lado da capela construída pelos comunitários.

ENTREVISTA CASSIANO MARQUES

“Vamos estruturar rotas e vendê-las ao mundo”

O governo regional de Cusco confere a Cassiano Marques status diferenciado de autoridade e, por sua relevância na política de integração Brasil/Peru, destacou dois agentes da Polícia Nacional para prestar segurança ao acreano. Não é à toa: Marques tem no currículo eventos esportivos, turísticos e empresariais desde Rio Branco até Lima, passando principalmente pela região do Vale Sagrado, em Cusco, os quais vem há anos fortalecendo uma relação que será próspera para as duas partes.

Em Cusco, Cassiano foi recebido por autoridades do Ministério das Relações Exteriores, governo regional e empresário em reuniões de caráter absolutamente prático. Agora responsável pelo órgão que substituirá a Secretaria de Turismo, Marques falou sobre o que se pode esperar para o turismo nos próximos anos:

Qual o significado do raid tour?

Cassiano – Acho que é uma demonstração muito clara da potencialidade que tem não só essa região do Peru fazendo com que o Acre vire rota de pessoas que possam estar vindo conhecer o país, conhecer Machu Pichu, toda região de Cusco e seu Vale Sagrado mas também pessoas que estão vindo visitar Cusco a partir de outras rotas vindo por Lima ou La Paz e que certamente têm interesse de conhecer a Amazônia brasileira, outras cidades do litoral e que poderão estar utilizando essa rota do Pacífico indo ao nosso Estado, gerando renda e distribuição de riqueza porque, com certeza, o turismo é uma das atividades econômicas que distribui de forma mais eqüitativa essa riqueza.

E o que se pode esperar a partir dessa primeira edição do rally tour?

O ideal é que possamos estar levando pessoas daqui para lá (o Acre). Então, a partir dessas articulações estaremos levando também empresários do Peru para o Acre já no meio do ano em um segundo evento dessa natureza e também vamos potencializar turistas de outras regiões do Brasil através da rota da Carretera Interoceânica que nesta fase de construção ainda é uma grande atividade para o turismo de aventura e num segundo momento, a partir do ano de 2010 com a plena pavimentação nós vamos ter um outro perfil de turista: sai um pouco aquele aventureiro do 4x4, do off road, e entra aquele que gosta de viajar de carro mas com mais conforto e segurança; entram os turistas que viajam com motos estraderas.

Certamente esta estrada será uma das mais famosas do mundo a exemplo do que acontece hoje com a Rota 66, nos Estados Unidos, onde há um mercado muito grande de pessoas que viajam para lá, alugam motos para percorrer a rodovia.

Teremos a venda de produtos de lado a lado não só do Peru para o Brasil como o inverso e para outros países a partir dessa estrada.

Qual a situação da Estrada do Pacífico hoje?

Pudemos comprovar que as obras estão em plena execução, os homens trabalhando embaixo de chuva ou sol, independente de ser sábado ou domingo, feriado. Passamos aqui no período do carnaval e vimos as frentes acontecendo de forma muito plena o que nos faz acreditar que essa obra será concluída dentro do prazo previsto.

Consequentemente, nossos empresários precisarão estar preparados para isso, acreditando cada vez nessa oportunidade. Se a perderem, certamente nós teremos dificuldade de ter outra do ponto de vista histórico em curto prazo para que a gente possa estar desenvolvendo cada vez mais o nosso Estado do Acre.

Então as pessoas podem vir que encontrarão uma estrada em boas condições mesmo não estando asfaltada e um povo muito receptivo e uma paisagem linda...

Não há dúvida. Conhecer a Amazônia e a partir dela conhecer os Andes é algo sensacional. É uma ligação de duas das regiões mais belas e inóspitas do planeta, que está bem do ladinho do nosso Estado do Acre, da nossa cidade de Rio Branco –ou seja: 1,1 mil quilômetros a pessoa sai da capital acreana e chega a Cusco; sai de Xapuri, a terra de Chico Mendes e chega a Machu Pichu, uma das regiões mais místicas por tudo o que representa esse santuário que é patrimônio histórico da humanidade...

Estou muito animado de saber que as coisas estão próximas de fazer com que através da atividade turística a gente possa ter uma melhoria da qualidade de vida da população do nosso Estado.

Para deixar mais claro, qual o próximo passo desse projeto?

É estruturar cada vez mais as rotas turísticas que já vem sendo trabalhadas -Caminhos da Revolução, Caminhos do Pacífico e Caminhos de Chico Mendes – e vender essas rotas no mundo todo através dos serviços turísticos, principalmente a partir dessas operadoras do Peru e do Brasil. O turista estrangeiro que deseja ir a Cusco a partir do Brasil ou o turista brasileiro das regiões mais ricas possam estar utilizando o Acre nessa rota assim como também todas aquelas milhares de pessoas que vem todos os meses a esta região do Peru possam estar regressando ao Brasil conhecendo um pouco da Amazônia indo a outras cidades a partir do Acre.

Esse raid tour foi também de sensibilização. As pessoas que participaram se sentiram sensibilizadas a se envolver mais com esse processo de integração?

Não tenha dúvida. Tivemos no grupo empresários da construção, atacadistas, do setor de serviços e foi ouvi-los falar do interesse e empresário tem esse espírito empreendedor de a cada momento estar olhando, visualizando coisas que possam estar investindo para obviamente ter resultado econômico.

Acredito que cada vez mais empresários do Acre indo conhecer a potencialidade que é esta região vai estar investindo, buscando condições de poder ampliar seus negócios nesta direção.

Em todas as agendas Marques esteve acompanhado de Jorge Wurst Calle, diretor regional do Ministério das Relações Exteriores do Peru, e de Élson Espinoza, operador de turismo.

* Os repórteres Edmilson Ferreira e Sérgio Vale integram a equipe da Assessoria de Imprensa do Governo do Acre e viajaram a convite da organização do “Toyota Raid Tour Amazônia Andes”.

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de março de 2007
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