OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 


Em primeiro plano, mulheres do seringal Macapá, da margem
direita do rio Acre. “Álbum do Rio Acre”, pg. 70, 1906-1907

Alm’acreana

Como 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, esta semana a coluna trata de alguns aspectos da história feminina do Acre dos primeiros tempos dos seringais. É uma forma singela, mas sincera, de homenagear aquelas que são nossa origem, meio e fim.

Subir os rios indomados, repletos de índios ferozes, doenças desconhecidas e rumos incertos era tarefa para homens destemidos. Entre 1880 e 1900 os rios acreanos foram tomados por milhares de homens, alguns audazes, outros famintos, outros fugidos, loucos ou iludidos. Nas ricas florestas, repletas de seringueiras dos altos rios acreanos a única justiça vigente era a Lei 44, calibre do papo-amarelo arma de todos e ultima palavra quando havia pendências a resolver. Não havia lugar para mulheres em tal mundo...

A partir de relatos como esse foi escrita a história da conquista do Acre. Isso consolidou a idéia, genérica e hegemônica, de que nas primeiras décadas da ocupação do Acre não havia mulheres na região. E que, portanto, seria inútil tentar encontrar sinais do papel, ou mesmo de uma possível relevância, das mulheres nos momentos iniciais da formação da sociedade acreana.

Na verdade, esta presença subliminar, quase inócua, de umas poucas mulheres no Acre do XIX que encontramos na historiografia clássica da região reflete apenas o olhar da sociedade fortemente patriarcal que na época dominava os meios políticos, econômicos e ideológicos do mundo industrial.

Mas essa idéia, que se tornou com o passar do tempo quase um mito de origem do Acre, não reflete a realidade dos fins do século XIX e princípios do XX. Aqui e acolá é possível encontrar breves, mas consistentes, referencias nos viajantes, cronistas e historiadores que revelam não só a presença de mulheres (como não seria possível deixar de ser), mas também a importância delas no surgimento do povo acreano como uma nova sociedade característica dos confins ocidentais da floresta amazônica.

Tantos homens, tantas mulheres

É verdade que durante o primeiro ciclo da borracha havia forte desequilíbrio entre a quantidade de homens e mulheres que para cá imigraram. O censo populacional realizado por Dom José Paravicini, ministro plenipotenciário da Bolívia responsável pela criação de Puerto Alonso e sua aduana no baixo rio Acre, revela que em 1900 havia três vezes mais homens do que mulheres (para 3.123 homens existiam apenas 902 mulheres e 713 crianças) nos seringais deste rio. E é viável extrapolar esta relação quantitativa para os outros rios acreanos no mesmo período.

Entretanto, devemos levar em consideração que este censo não considerou a população indígena que naquele período ainda era significativa no vale do Acre. E que o equilíbrio de gêneros entre essas populações era muito maior. Ainda assim não é possível desconsiderar que efetivamente a sociedade acreana em seus primeiros anos teve marcado desequilíbrio entre os gêneros.

Outra coisa, porém, é dizer que essa diferença quantitativa estabeleceu uma diferença de importância quanto à participação feminina na constituição do Acre. Pelo contrário, apesar de toda a historiografia clássica ter se concentrado no papel desempenhado pelos homens na extração da seringa ou na revolução que sacudiu esta região, a vida na floresta era impensável sem a participação das mulheres. E mesmo no universo eminentemente masculino da economia e da guerra encontramos histórias de diversas mulheres que se tornaram maiores que o papel restrito que normalmente lhes era reservado.

Histórias de mulheres

O historiador boliviano Hernan Messuti, em sua crônica sobre os Departamentos de Pando e do Beni, entre histórias de índios, desbravadores e colonizadores nos conta brevemente a história de uma estranha personagem.

Se chamava Mariana e era tida como uma renegada, uma apóstata, uma mulher que havia abandonado os costumes de nossa civilização para viver refugiada (sem que se saiba ao certo do que ou de quem) entre grupos indígenas. Nas crônicas de Messuti essa misteriosa mulher ora aparece auxiliando exploradores desorientados, ora comandando homens e mulheres indígenas dispersos após a intensa perseguição promovida durante a abertura dos seringais, além de ter sido a fundadora do povoado de Vila Bela na confluência do rio Beni.

Diferente da lendária Mariana é bem conhecida a participação de Angelina Gonçalves em um dos episódios da sangrenta Revolução Acreana. Quando, logo após o primeiro combate da Volta da Empreza vencido pelos soldados bolivianos, as casas de todos os que habitavam o povoado foram invadidas na busca frenética pelos revolucionários fugidos. E no lugar conhecido como Forte de Veneza os soldados bolivianos entraram atirando e atingindo de morte um brasileiro que nada tinha a ver com a guerra que se estava travando.

Ao ver seu marido brutalmente assassinado Angelina tomou a arma de um dos soldados e disparou contra eles no exato momento que entrava na casa o comandante boliviano Cel. Rojas atingindo-o no ombro. Com seu chefe ferido os soldados voaram sobre Angelina querendo trucidá-la imediatamente, ao que se ouviu a voz do comandante que ordenava: “Libertem-na. Mulheres assim não se matam. Se o exército acreano tiver dez homens tão corajosos como essa mulher já perdemos a guerra.”

Os historiadores brasileiros se encarregaram de tornar Angelina uma heroína da vitoriosa Revolução, entretanto se esqueceram de contar da participação de muitas outras mulheres que acompanharam os soldados cuidando de sua alimentação, roupas e doenças. Como uma certa “Maria Plácido” de quem ouvi falar e que passou toda sua vida anônima nas terras do seringal Benfica, alvo da admiração de todos das redondezas por ser veterana da revolução.

Talvez valha a pena lembrar ainda a história da viúva Parente que, após a morte do marido, continuou a tocar a produção do seringal Empreza como fizeram tantas outras viúvas espalhadas por todo o Acre.

E tudo ia bem até que o Cel. Gabino Besouro, Prefeito Departamental do Alto Acre e acusado de ser o mandante do assassinato de Plácido de Castro, decidiu comprar a área da sede do seringal Empreza para mudar a cidade de Rio Branco para o outro lado do rio. Porém, a viúva Parente não aceitou o ínfimo e indigno valor oferecido pelo Prefeito por aquelas terras. Contra todas as expectativas não se intimidou, como teria sido mais fácil. Enfrentou então a vontade do poderoso e perigoso governante que confrontado mandou tomar pela força das armas as terras que ambicionava. A viúva Parente morreu anos depois, sem receber o pagamento daquelas terras. Só décadas mais tarde seus herdeiros receberiam uma indenização do governo brasileiro em razão de um longo processo judicial.

A par do que possa parecer os casos de Mariana, Angelina e viúva Parente não são casos isolados na história acreana. São exemplos de dezenas de outras histórias propositalmente esquecidas, olvidadas, obscurecidas por uma história escrita por homens.

Histórias muitas

Não basta conhecer as histórias das Marianas, Angelinas e Marias do Acre para pretender conhecer a história das mulheres acreanas. Estes exemplos contam sobre mulheres notáveis mesmo no violento e perigoso mundo masculino do século XIX e revelam a capacidade ou o destemor dessas mulheres em um mundo que tudo fazia para limitá-las a um papel secundário. Mas não podemos tentar incutir características masculinas nas mulheres acreanas para ressaltar sua importância. Isso seria, mais uma vez exercer a ótica masculina sobre a trajetória feminina.

Basta andar por rios e florestas acreanos e ouvir as histórias de seus habitantes para compreender que o papel desempenhado pelas mulheres na formação da original sociedade acreana é muito mais amplo e profundo. Os ecos das memórias do já longínquo século XIX nos trazem ainda a realidade das aldeias e seringais de então.

Não são poucas a histórias dos seringueiros isolados enlouquecendo dentro da solidão das florestas. A rotina diária, a falta de companhia, as noites escuras e silenciosas eram opressivas demais para aqueles homens abandonados em colocações distantes, à muitos dias de caminhada do vizinho mais próximo. Nem a mãe da mata, a mãe do leite, a iara dos igarapés e outros encantos da floresta eram suficientes para aplacar a imensa solidão dos seringueiros.

Não é a toa que as mulheres eram verdadeiramente disputadas então. Fossem índias aprisionadas durante as correrias, fossem atrizes e prostitutas em fim de carreira trazidas pelos vapores, fossem as viúvas de companheiros mortos às centenas pelo impaludismo. As mulheres desfrutavam de alto valor, não como objetos sexuais, como às vezes se quer fazer crer, mas porque representavam à única chance de quebrar esse mundo de solidão e silencio. E não só.

Casar e constituir família significava principalmente maior produtividade e qualidade de vida. Os seringueiros solteiros se alimentavam muito mal porque o tempo era pouco pra produzir seringa nos níveis exigidos pelos patrões e ainda caçar, criar, plantar ou preparar diariamente sua comida, drenando suas energias e tornando-os mais suscetíveis às doenças.

As chances de um seringueiro conseguir saldo com o patrão e conquistar sua liberdade aumentavam muito a partir da presença de uma mulher na colocação. E quanto mais se consolidava a formação familiar, mais essas chances cresciam. As mulheres preparavam os cavacos e juntavam os coquinhos utilizados pelos seringueiros durante a defumação. As mulheres plantavam hortas e tratavam uma grande diversidade de alimentos, ao invés da carne enlatada e da farinha fornecidas pelo patrão. Sem mencionar ainda os casos daquelas mulheres que também percorriam as estradas de seringa sangrando o tronco das seringueiras junto com seus maridos e filhos.

É possível dizer, portanto, que foram as mulheres da floresta que forneceram a amálgama necessária para o Acre fosse mais que um ajuntamento fortuito de homens em busca de fortuna e viesse a constituir um povo com identidade própria. Enfim, só com a presença das mulheres a vida na floresta deixou de ser de opressão e desesperança para se tornar boa e próspera fazendo com que seus habitantes criassem verdadeiras e permanentes raízes.

Essa análise deveria se estender ainda a muitos outros aspectos da vida nos seringais acreanos do fim do XIX e principio do XX. Mas esta história já está sendo escrita por diversas pesquisadoras que estão subindo os rios e ouvindo as vozes femininas da floresta. Devemos ficar atentos a esses novos olhares, por compreender que, ao contrário da masculina história acreana que foi construída até aqui, desde suas origens é feminina a alm´acreana.

Texto publicado na Revista “O Acre das Mulheres” pela Secretaria Extraordinária das Mulheres do Governo do Estado do Acre e Secretaria Especial de políticas para as mulheres do Governo Federal, em julho de 2006.

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de março de 2007
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