OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

O dia de hoje

Hoje é o dia de grandes momentos, de agradar e semear, é o dia de entregar os sentimentos, de deixar-se ir, com bons ventos, um bom curso, boas idéias para plantar e crescer, é dia de encontrar e abraçar, o dia de hoje quase não vai passar. Estacionar na memória, estabelecer, festejar, um dia para sempre acordar, para sempre ter razão, apaixonar-se pela distração, o olhar certeiro pelo viver inteiro, olhar que traz os outros, todos os olhos, olhar que prende as imagens e paisagens, que não deixa passar, senão todo o sentimento que há para entregar.

Hoje é o dia de gastar amor. Gastar e conquistar destinos vários, caminhos e atalhos, novos sentidos para a emoção. Gastar e distribuir, como quem espalha o olhar e abraça multidões, como quem procura o carinho, a sensação, tudo o que há para sentir, encontrar e dar. Sem pressa, distribuir um amor que acaricia e enamora, que passa noites e manhãs sem perder o tempo, sem esquecer o momento, um amor que apaixona e vicia, um amor que antes não existia, que não se perde de vista, que não se cansa nem se encanta, amor que é possível pegar, adiante de onde a vista alcançar.

Os pés querem pisar o chão, a alegria de estar vivo e participar não larga a mão, hoje é o dia de não dizer não. Teu corpo, meu instante, o olho, hoje é o dia de amar, simples amar, existir, abraçar. Gastar, esquecer de guardar, passar adiante o amor, passar adiante da dor, devagar, mais do que agora, chega o tempo de não ter troco para saudades, lembranças esquecidas, imagens perdidas, não há devolução nem restituição, o dia de hoje é para gastar sorrisos, gratidão, para partilhar emoção, não é para trocar nem recuperar, nada há para descontar, o rumo é só de ida, sem retorno. O dia é para emocionar e querer, além do limite, além, do que há para dizer, o dia é para fazer bem.

Hoje é dia de se perder, de revelar, de esquecer de viver para se guardar, para esperar de si, sem sair de dentro. É dia de transcender, para quem só vive de ficar, de estar, de manter e não arriscar. Hoje é para viajar, com bilhete que não garante retorno nem contorno, passagem sem escalas, direto para esbanjar prazer, bons gestos, perder a conta, encenar a esperança, sonhar perto, beijar certo, sempre certo, de que o dia é para realizar e perder, perder o que estava acumulado, o que não aparecia nem falava, o que ninguém via nem percebia. Realizar, o dia, hoje, nem deveria passar. Hoje é o seu dia, o meu, o nosso. Um bom dia!

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de março de 2007
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