ESPECIAL
   ENTREVISTA

Sertanista Macedo apóia debate sobre prospecção e exploração de gás e petróleo

Idealizador da Enciclopédia da Floresta, antropólogo quer saber do dinheiro da publicação e vê contradição de Mauro Almeida por ela ter sido financiada por investidor de petróleo

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Romerito Aquino

Junto com o antropólogo Txai Terri Aquino, o sertanista Antônio Luiz Batista de Macedo é o outro acreano que mais contribuiu para a consolidação do movimento indígena organizado no Estado nas últimas décadas, o que permitiu que os índios acreanos retomassem suas terras, partissem para sua autonomia social e econômica e dessem exemplos para os brancos de como se deve cuidar da floresta, tirando dela suas riquezas sem destruir seus rios, seus igarapés, seus pássaros, seus peixes, suas caças e suas árvores.

É com todo esse perfil que Macedo, como é conhecido de uma ponta a outra da selva acreana, tem autoridade para falar sobre qualquer coisa que diga respeito aos interesses dos índios, seringueiros, ribeirinhos e outros povos da floresta. O Página 20 foi, então, ouvi-lo sobre a mais recente novidade no Acre: a prospecção de gás e petróleo, proposta pelo senador Tião Viana fora das áreas indígenas e das unidades de conservação e atualmente em debate pela sociedade acreana.

Para início de conversa, Macedo destaca que, em hipótese alguma, não o amedronta a idéia da prospecção e exploração de gás e petróleo no Acre. “Eu sou acreano e acho que tudo é possível ser discutido, tudo é possível ser desenvolvido. Os acreanos têm buscado se aperfeiçoar a cada dia”, diz Macedo, defendendo a ampliação e o acaloramento do debate sobre o tema.

Idealizador da Enciclopédia da Floresta, uma publicação sobre os costumes, os saberes e as riquezas naturais existentes na Reserva Extrativista do Alto Juruá, Macedo diz que não concorda com as críticas ácidas que foram feitas à idéia da prospecção e possível exploração de gás e petróleo no Acre pelo antropólogo Mauro Almeida, coordenador da obra, em recente artigo publicado no “Papo de Índio”, deste jornal, junto com os antropólogos Marcelo Piedrafita Iglesias e Edilene Cofacci de Lima.

Nascido e criado nos seringais, Macedo considera uma contradição Mauro Almeida “satanizar” o possível uso do gás e do petróleo no Juruá, até fora das áreas indígenas e das unidades de conservação, ao mesmo tempo em que fez uma enciclopédia com dinheiro (US$ 300 mil) da Fundação norte-americana MacArthur, que investe em mais de 100 companhias de petróleo e gás no mundo inteiro. Macedo também cobra o destino do dinheiro da venda da enciclopédia luxuosa e prega, bem ao estilo pacifista do interior acreano, menos estresse, menos arrogância e menos manipulação de informações dos intelectuais e de certos jornalistas do Estado no debate sobre o assunto. Veja, a seguir, a íntegra da entrevista.

Foi o senhor que idealizou a Enciclopédia da Floresta?

Eu é que idealizei e agora é deles [antropólogos Mauro Almeida e Manoela Carneiro]. Eu idealizei e passei para eles fazerem e hoje é deles, né?

Mas eles fizeram como o senhor idealizou?

Lá no início [da Enciclopédia] eles falam isso. Tem uma foto minha pequenininha, assim lá no canto, me colocando como um dos idealizadores. Mas, na verdade, eu pensei e passei para eles, dado o universo de ciência que orienta a vida de quem vive na floresta. Eu nasci e cresci nesse universo. É aquela história de chegar um homem culto, dar um baita de um discurso superaprumado, falando os verbos que ele quer, botando tudo que ele precisa e achando que convenceu todo mundo.

Essa enciclopédia ajudou em alguma coisa os índios e os seringueiros do Acre?

Para mim, ela seria uma enciclopédia mais popular, não tão acadêmica. Eu defendia que ela fosse um instrumento educativo, que passaria, de geração para geração, os conhecimentos do homem da mata.

O senhor tem conhecimento se os índios e os seringueiros da Reserva Extrativista do Alto Juruá tiveram algum retorno da venda dessa enciclopédia?

O que se discutia na verdade era que tinha um conselho editorial composto por várias associações, como a dos seringueiros da reserva extrativista do Alto Juruá, Associação dos Ashaninka, Associação dos Katukina de Campinas, Associação dos Kaxinawá do Jordão e Associação dos Kaxinawá do Breu. Era com essas associações que a turma técnica se reunia para a produção, edição e publicação. Com a venda desse material, também seria criado um fundo para essas associações poderem continuar os trabalhos educativos dentro da floresta, trabalhando essas coisas da cultura, do conhecimento da floresta. Não sei nem se o conselho editorial foi reunido quando o livro foi publicado. Também não sei como é que está o andamento da venda, quem está arrecadando, onde (o dinheiro) está sendo guardando, para onde é que está indo, não tenho conhecimento.

O senhor não vê contradição no fato do antropólogo Mauro Almeida estar criticando a prospecção do gás e do petróleo no Acre tendo sua enciclopédia sido financiada por uma fundação norte-americana (MacArthur) que investe em mais de 100 companhias de petróleo e gás no mundo?

É... (risos). A MacArthur, de primeiro, ela trabalhava também com mulheres ... parece que era a favor do aborto ou coisa assim. Aí foi o Mauro (Almeida) que conseguiu com a MacArthur o financiamento do projeto de pesquisa e monitoramento da reserva extrativista, onde a enciclopédia é um item. Essa turma está distante uns dos outros, a gente nunca sabe direito como está acontecendo cada coisa, como estão pensando, discutindo cada coisa.

“Certamente há contradição no Mauro Almeida”

O senhor acha ou não uma contradição essa história de o autor da enciclopédia criticar a prospecção de petróleo e gás e ter uma obra financeira por uma fundação que investe em companhias de petróleo, que ele diz que pode poluir e destruir a floresta do Juruá e seu povo?

Certamente sim. Eles virem cassar contradição e devem saber que o pessoal do Acre tem esse tipo de alarme. Eu creio que isso é uma coisa que chama para discussões, chama o povo para o debate e a gente vai limpando as arestas.

O que o senhor está achando do debate sobre a prospecção proposto pelo senador Tião Viana?

Já houve um debate aqui em Rio Branco que eu não participei. Então, o Tião esteve aí e abriu o debate no Teatrão. Não participei, mas estava sabendo dessa discussão. Acho que o debate está começando, deve ser acalorado, deve acontecer mais ainda, deve trazer mais participações, deve mostrar mais estratégias de propostas de exploração dos combustíveis. Porque aqui no Acre é assim. Aqui nessa região, quando alguma coisa está para acontecer, as pessoas discutem, debatem, como aconteceu com a pavimentação da BR-364, que era sempre uma grande discussão. Mas é uma coisa que está rolando, pois é em torno de tudo isso ainda que a conversa está acontecendo. Muitas coisas precisam ser debatidas porque se de um lado o impacto é negativo, do outro lado o impacto pode ser positivo. Isso aconteceu nas discussões que se fazia com a BR-364. O governo do Estado aqui, do qual faz parte o senador Tião Viana, avançou em várias coisas perante o processo indígena, o processo das terras indígenas e sobre os impactos diretos e até indiretos nessas áreas.

O que o governo do Acre avançou no processo indígena?

Por exemplo, o etnozoneamento que está acontecendo nessas terras indígenas, que traz o índio de volta a todo o seu próprio conhecimento, é um trabalho bonito, muito forte, que leva os índios a oferecem um diagnóstico de sua situação, de um conjunto de indicativos possíveis e potenciais para o desenvolvimento de planos de gestão para fazer uso de seus territórios. Esse é um trabalho que se realiza em longo prazo, mas que é muito importante e é uma compensação fundamental na área dessas influências diretas e indiretas das BRs que o governo local vem fazendo. Então, tem muita coisa boa para se mostrar, para ser discutida e integrada nessa vontade maior aí.

O Acre está com sua situação fundiária quase definida entre áreas indígenas, unidades de conservação e outras áreas de destinação. Já não está na hora de o Estado partir para atividades produtivas?

Tem um tapete de preservação no Acre formada de áreas integradas, contínuas, sendo algumas terras indígenas, outras áreas de índios isolados, outras são reservas extrativistas, outras são parques florestais e outras são florestas nacionais. Então, o Acre também precisa desenvolver e fomentar algumas atividades que gerem renda, empregos e mão-de-obra profissional. O Estado não pode ficar parado na sombra só de uma discussão.

“Tudo que reduz os preços das coisas interessa ao povo”

O que o senhor acha do Acre mudar sua matriz energética do óleo diesel - que polui e ameaça seus rios e igarapés em seu transporte nada seguro - pelo gás natural, que é 40% mais limpo que os derivados do petróleo?

Acho que tudo que baixe o preço da luz e os preços dos produtos leva o povo a se interessar por uma discussão. Nessa proposta da prospecção, por exemplo, onde as manchas de gás podem ocorrer mais? Essa é uma pergunta que interessa a mim e ao povo acreano.

Na Enciclopédia da Floresta está dito que foram feitos estudos geológicos, morfológicos e de solo dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor. O senhor teve conhecimento desses estudos?

Tinha um conjunto de mais ou menos 25 cientistas da Unicamp e de outras instituições. O Mauro Almeida e a Manuela Carneiro eram os coordenadores. Eles reuniam vários cientistas em diversas áreas de pesquisas da flora, da fauna, da área botânica, dos peixes etc.

O senhor teve conhecimento da dimensão desse estudo geológico, por exemplo?

Acho que esse estudo de solo qualquer agrônomo faz.

Mas será que esses estudos não foram encomendados pela Fundação MacArthur para ela saber se existe gás e petróleo naquela região?

Não sei. O que sei é que a Petrobrás já fez também esses estudos no Juruá.

“Tião é um senador de todos os acreanos e deve puxar propostas”

Se você tivesse que dar um conselho, o que você falaria sobre esse debate da prospecção de gás e petróleo no Acre?

Todas essas conquistas que ocorreram no Acre, inclusive o governo que nós temos hoje, tudo isso vem de uma discussão participativa. Eu creio que tudo que for feito nesse Estado, dado a sua própria história, deva sentar os diversos segmentos interessados e fazer as discussões de forma participativa para tirar essas arestas e todo mundo ter a paciência de esperar que esse momento possa acontecer e todos os segmentos poderem saber quanto tem de importante uma proposta como essa, da prospecção, para o Acre e os acreanos.

O senhor considera que o senador Tião Viana agiu corretamente em fazer essa proposta e abrir o debate sobre ela?

O Tião Viana é um senador da República e ele como um dos representantes dos interesses do Acre tem que puxar propostas, colocar mesmo as idéias. E ele está colocando e promovendo essa discussão. O importante é que se discuta, se veja, se analise com calma, até porque o Tião não é um senador só dele não, é um senador de todos os acreanos mesmo! Acho que cabe a todos os companheiros buscarem sentar, participar e observar bem como essa proposta pode ser útil ou não para o Estado.

Essa proposta de prospecção de gás e petróleo não o amedronta?

Não, de maneira nenhuma. Eu sou acreano e acho que tudo é possível ser discutido, tudo é possível ser desenvolvido. Os acreanos têm buscado se aperfeiçoar a cada dia.

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de maio de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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