ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Carro, poesia e sarro

O primeiro carro a rodar em terras acreanas teria sido o “Dion Bouton” acima, em cujo volante faz pose o coronel Hipólito Moreira, da Revolução Acreana. Seu neto Carlos Moreira enviou a fotografia para a novelista Glória Peres, durante a produção da minissérie Amazônia. Segundo Carlos, “o coronel costumava passear com ele para deleite e espanto de quem o via passar”.
Um outro veículo pioneiro, um Ford, circulou no Segundo Distrito de Rio Branco, nos anos trinta, e provavelmente brilhava sozinho nas poucas ruas disponíveis à época. Como não tinha ponte nem balsa para atravessar o Rio Acre, nem ruas ou estradas de um lado e do outro da cidade, pode-se imaginar que o trajeto completo ia da rua da Gameleira ao fim do bairro Quinze.

Quem nos conta desse segundo dinossauro de rodas, com graça e estilo, é ele, o inolvidável poeta Juvenal Antunes, cuja biografia está sendo escrita e publicada, em capítulos, no site da Biblioteca da Floresta, por sua sobrinha neta Lúcia Pereira, também poeta que vive em Natal, no Rio Grande do Norte.
No terceiro capítulo já disponibilizado no site
(www.bibliotecdafloresta.ac.gov.br), Juvenal, promotor, poeta e boêmio que não arredava o pé do Hotel Madrid, do qual foi hóspede durante três décadas, conta sobre o dia em que decidiu alugar o Ford e fazer inveja à rapaziada do segundo distrito, passeando pra lá e pra cá com feiúra e irreverência ao volante.

Juvenal Antunes, é bom que se diga, escrevendo ou falando recorria à poesia para se fazer entender. Com seus versos, sonetos, quadrinhas etc. expressava suas idéias, criticava os costumes, tirava sarro das figuras boçais de sua época, muitos dos quais nem percebiam o quão ridículo pareciam na descrição do poeta. Assim iam ficando para a história, de forma caricata, políticos, empresários, militares, professores, comerciantes e doutores da década de 1930. Um sarro!

Como diz sua biógrafa e sobrinha neta Lúcia Pereira: “nestas quadrinhas, Juvenal Antunes delira diante da tecnologia e logo escreve à irmã Magdalena“:

“Madalena, admirável mana

Com exceção do vil trabalho
Que me rouba tanto tempo,
Por aqui vou bebericando
E admirando o velho bilhar,
O bozó e o gamão!

Mas tenho uma bela notícia
Da última novidade por aqui
Sobre um tal de carro Ford
Do qual me tornei freguês.

A máquina é bem possante,
A buzina é estridente
E chama a atenção do povo,
Causando inveja nos tolos.

O danado é bem equipado,
Parece até carruagem
Da realeza britânica
Onde me sinto um príncipe.

Quando conduzo esse Ford,
Logo me lembro de Laura...
Vendo-a, ao meu lado,
Sorrindo, a me fazer carinhos
E eu me derretendo de amor.

O proprietário do Ford,
Que de bobo nada tem,
Está alugando a máquina.
Eu logo me interessei,
Passando nela o dia inteiro,
Por apenas três mil réis!

Ah! Madalena, você ficaria orgulhosa
Ao ver seu irmão dirigindo,
Com a capota arreada
Flertando com as donzelas.

Visse você, esse traste,
De cartola e belo fraque,
Rua abaixo, rua acima...
Com o pensamento em Laura!

O meu amigo Ferrante
Deu-me um conselho prudente:
”Vai devagar, Juvenal,
Cuidado com as carreiras
Pois, do jeito que é distraído
Poderá atropelar alguém”.

O amigo tem razão,
Imagine que a manivela do carro
Tem a potência de um tufão
E com minha falta de treino,
Posso cometer disparates
E até mil infrações,
Ou, quem sabe? um desatino!

Peço-te que diga à Laura
Que seu amado Juvenal,
Passeia num carro Ford
Com ela no pensamento!
E que não se preocupe
Porque vou andar sozinho,
E nenhuma outra mulher
Vai se sentar ao meu lado!

Saiba, dileta irmã,
Nesses passeios que fiz,
Para não ser egoísta,
Em sistema de rodízio,
Carreguei vários amigos.

Numa hora era Chico Valente,
Dono do Bar da Esquina.
Depois era Luciano...
Um soldado e encanador.

A cobiça aumentou
E lá fui passear com Guará,
Dono da Serraria,
Lima Santos da barbearia,
Olavo Dantas da Promotoria,
Manelzinho do Correio
E Miranda do hotel Madrid

Nunca vi tanta alegria,
Meninos correndo e gritando
E as idosas nas calçadas,
Abandonavam o tricô,
Para verem o Juvenal
Dirigindo um carro Ford.

Até escrevi, ao mano Ezequiel...
Que deve ter dado gaitadas
Mangando desse matuto
Visto que em São Paulo,
Carro Ford já não é novidade.

Vou escrevendo essas quadrinhas,
Versos desajeitados,
Frutos de muita emoção
Pelo grande entusiasmo
Que me pegou de surpresa
E só vai me alegrando.

Mando beijos para todos
Em especial para Laura!
Do jeito que é ciumenta
Vai dar asas à imaginação.
Diga-lhe, então, que nesse carro,
Dirijo pensando nela.

Ah! Madalena...esse banzo!
Tortura que vai me matando,
Deixando-me atormentado
Com forte taquicardia.

Até mais, dileta irmã,
Vá dizendo por aí.
Que o seu mano Juvenal,
Além de doutor, boêmio e poeta...
Agora é um motorista
Aprovado e contemplado
Pelos amigos do Acre!” (J.A.)

CORREIO
Imperdível

Quem é assinante da Sky ou possui antena parabólica tem a chance de ver na TV Senado, neste domingo, em dois horários (16 e 22 horas de Brasília), o programa especial José Lins do Rego, Engenho e Arte assinado pela acreana Maria Maia. O documentário trata da vida e obra do escritor José Lins do Rego, com depoimentos de Thiago de Melo, Carlos Heitor Cony, Celso Furtado, Ledo Ivo, Ivan Junqueira, Artur da Távola, Tarcísio Padilha, Walter Lima Júnior, Luis Carlos Barreto, Josué Montello e as filhas Maria Cristina, Maria Elizabeth e Maria da Glória.

José Lins do Rego Cavalcanti nasceu no município de Pilar, Estado da Paraíba, no ano de 1901, e morreu no Rio de Janeiro aos 56 anos. Criado no engenho do avô materno, se formou em Direito no Recife, em 1918, onde conheceu intelectuais como José Américo de Almeida e Gilberto Freyre, a quem o próprio Zé Lins reputava grande parte de sua formação literária. Tempos depois conheceria em Maceió Jorge de Lima e Graciliano Ramos.

Seu primeiro livro foi publicado em 1932: Menino de Engenho, custeado com dinheiro do próprio bolso, e que atingiu enorme repercussão abrindo caminho para uma série de obras de grande importância em nossa literatura. José Lins do Rego acabou se mudando, em 1935, para o Rio de Janeiro, cidade aonde viveria até a morte. Consagrado como o grande escritor regionalista brasileiro ao lado de Graciliano Ramos, foi nomeado como membro da Academia Brasileira de Letras no ano de 1956.

Maria Maia- Brasília

 
 
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