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ESPORTE

Náuas Esporte Clube: a força que vem do Juruá

Debutante no Estadual, equipe vem superando barreiras que vão da discriminação à pressão do torcedor

MARCELA BARROZO

“Vamos lá, Náuas!”, grita uma torcedora quando o primeiro e único representante do Vale do Juruá no Campeonato Acreano 2008 entra em campo. O adversário da vez é a equipe rio-branquense São Francisco, que ameaçou não embarcar para Cruzeiro do Sul, na última quinta-feira, caso todos os jogadores não conseguissem vaga no único vôo do dia.

Como a relação dos 21 atletas só foi encaminhada pela diretoria na noite de quarta-feira, não foi possível conseguir assentos para todos a tempo. Se o clube não comparecesse, o Náuas seria penalizado com a perda de três pontos. A solução? Fretar um avião pela bagatela de R$ 7 mil para que o restante do time embarcasse. Todas as despesas foram pagas pela equipe anfitriã, desde passagens aéreas, hospedagem e transporte, como vem sendo feito desde o início do campeonato.

Até o lucro do jogo é repartido. Como terminou empatada (1 a 1) e a partida foi antecipada de domingo para quinta-feira, o público não compareceu em peso como de costume. Logo, cada time embolsou R$ 337 - o menor “bicho” já registrado nos jogos do Náuas em casa. Essas condições foram impostas ao clube para que fossem aceitas sua inscrição na Federação Acreana de Futebol Profissional e a participação no Campeonato Estadual 2008.

“Dá vontade de chorar quando eu lembro de como foi o processo para entrar no Profissional”, conta Edvan Marques, presidente do Náuas. “Pensei que a parte mais difícil era a de regularizar toda a nossa documentação para poder participar como time profissional. Mas a pior parte ainda estava por vir. Na assembléia que iria decidir se a gente podia se filiar, encontramos barreiras como a discriminação. A maioria dos participantes era contra. Até um jornalista de Rio Branco perguntou o que um time de caipiras queria participando do campeonato”, desabafa.

Imposições - No fim, ficou acertado que o Náuas se responsabilizaria por arcar com as despesas do time visitante, que batem na casa dos R$ 15 mil. “O custo com as equipes que vêm para cá já deu mais de R$ 60 mil”, revela Marques. Já cada vinda à capital sai em torno de R$ 10 mil. Isso porque o representante do Juruá conta com apoio do governo e parlamentares para se hospedar em Rio Branco.

É por esse motivo que o convênio entre governo e os clubes profissionais se estendeu ao representante do Juruá com uma porcentagem um pouco maior que os demais. Mas que ainda não foi repassada. “Nosso orçamento para este campeonato é de R$ 150 mil, contando até com os salários. Conseguimos trazer o São Francisco para cá em cima da hora graças a uma amizade muito grande aqui em Cruzeiro do Sul”, justifica o presidente.

Patrocínio? – Segundo a diretoria, o maior patrocínio vem realmente do governo municipal e estadual, além de um ou outro parlamentar, como o deputado estadual Edvaldo Magalhães, ele próprio um representante do Juruá na Assembléia Legislativa. “Do empresariado daqui conseguimos muito pouco. Um dos maiores daqui da cidade nos deu R$ 50”, relata Marques. “O Orleir [Cameli, ex-governador] foi um dos que nos ajudou muito, liberando mais de 60 passagens”, completou.

Porém, a diretoria afirma que, se o time carimbar o passaporte para o segundo turno, as condições impostas a ele na primeira fase terão que ser repensadas. “Temos que negociar a vinda das equipes e a divisão do ‘bicho’. A gente paga para os clubes virem e eles ainda levam a nossa renda? Isso tem que ser revisto”, afirma o presidente. A maior bilheteria, até o momento, foi a do jogo contra o Independência, que terminou empatado. Cada qual levou R$ 6,5 mil.

Desempenho no campeonato x torcida exigente

Para um clube recém-saído da categoria amadora, que participa pela primeira vez de um campeonato profissional, o desempenho do Náuas não é dos piores do Estadual. Ao longo do primeiro turno, acumulou três derrotas, dois empates e duas vitórias. Com oito pontos na tabela, até o presente momento a equipe aparece em quinto lugar no ranking. Estaria, portanto, classificada para a segunda fase da competição.

Porém, a vaga só estará assegurada se vencer seu último confronto, no próximo domingo (11), contra o lanterna Atlético Acreano. Justamente o time cujo técnico, Gualter Craveiro, foi demitido do Náuas após a segunda derrota consecutiva. O comentário na cidade é de que o jogo será uma espécie de acerto de contas da parte do ex-técnico.

Após a derrota para o Juventus, no último domingo, e o pífio empate em 1 a 1 com o São Francisco, considerada uma das equipes mais fracas da competição, a torcida juruaense passou de fanática a receosa - para não dizer desconfiada. No fim do jogo de quinta-feira, muitos torcedores berraram duras críticas ao técnico José Ribamar, que teria feito uma substituição equivocada ao retirar o atacante Gringo e colocar Ricardo, visivelmente fora de forma.

O estádio “Totão”, de Mâncio Lima, praticamente veio abaixo quando Ricardo errou dois gols praticamente feitos. Sem contar o sem-número perdidos durante todos os 90 minutos. Não faltou quem pedisse a cabeça do treinador. “Mas não é culpa do técnico, e sim dos jogadores. Eles que erraram os gols. O técnico não pode ir lá fazer isso por eles”, defenderam os dirigentes do clube.

Força do Juruá - Mas ainda há quem tenha fé no time que representa o lado menos conhecido do Estado. “Apesar de ser o caçula do campeonato, acho que o Náuas está demonstrando a força do Juruá. É cedo para dizer se eles são mesmo bons. Se passarem para a segunda fase é que vamos comprovar isso”, afirmou o casal de namorados Clinger Magalhães de Souza, motorista, e Maria Evangelina da Silva, autônoma. Ambos compareceram ao Totão vestidos com a camisa do clube.

E é essa a meta do Náuas Esporte Clube: participar de todo o campeonato. “Não temos a pretensão de ser campeões, mas queríamos chegar até o fim. Nós temos condições”, acredita Edvan Marques. “Mas fiquei impressionado com tanta torcida, porque as equipes daqui são rivais e as torcidas também.”
Craques do time

Com uma média de idade de 28 anos, o Náuas possui um bom plantel. No entanto, falta-lhe tranqüilidade na hora das finalizações. Chega-se a perder as contas de quantos gols poderiam ter sido marcados contra o São Francisco. Até mesmo contra o segundo melhor time do Estadual, Juventus, contra quem o representante do Juruá abriu o placar no último domingo. Mas, como não conseguiu finalizar com sucesso as demais investidas, acabou perdendo por 4 a 1.

Entre os principais destaques do time, podem ser citados o meia-atacante Bergson, o meia-armador Vandeci, o segundo volante Vila Nova e o atacante Bruno Souza. Ironicamente, nenhum deles é de Cruzeiro do Sul. Bergson é de Rodrigues Alves, Vandeci de Porto Walter, Vila Nova de Guajará (AM) e Bruno Souza é carioca. Com exceção de Souza, os demais municípios são próximos de Cruzeiro.

Bruno, 26, não participou do último jogo em cumprimento à suspensão pelo terceiro cartão amarelo. Segundo ele, “futebol é feito de altos e baixos”. Após passar por seis equipes – União Central (RJ), União de Marechal (RJ), Bonsucesso (RJ), São Cristóvão (RJ), Everest RJ), Flamengo (RJ) e Cruzeiro de Rondônia (RO) -, ele está há um mês residindo em Cruzeiro. Após se destacar no ataque do Náuas, já recebeu propostas para jogar na Venezuela ou Chile.

Vandeci, 30, foi o maestro do último jogo. Quando ele tocava na bola, a torcida aplaudia, na esperança de que suas arrancadas resultassem no gol que não veio. Ele acredita que falta à equipe mais preparo psicológico nas finalizações. “Eu esperava mais do Profissional. Dá para a gente ganhar, nós estamos jogando bem. Falta mais tranqüilidade na hora de finalizar e a na nossa última partida temos que nos empenhar e dar o nosso máximo”, acredita. Depois de tantas barreiras vencidas, é perfeitamente possível superar mais uma.

Náuas em números

85 anos de fundação
21 jogadores
28 anos - média de idade dos atletas
3 derrotas
2 empates
2 vitórias
R$ 13 mil - maior renda
R$ 674 - menor renda
R$ 15 mil - custo com equipes visitantes
R$ 10 mil - cada vinda à capital

 
 
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Rio Branco-AC, 04 de maio de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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