Juracy Xangai
Um grupo de mulheres iniciou em 2003 sua luta em defesa do Lago do Amapá, o mais próximo de Rio Branco e um dos mais belos cartões postais ecológicos da capital acreana.
Em 2005 conseguiram sua transformação em Área de Proteção Ambiental com uma área de 5.600 hectares onde vivem mais 1.500 pessoas, esta foi sua primeira e mais significativa conquista. Mas, a luta estava apenas começando.
Elas ainda tinham de combater os pescadores que nos fins de semana invadiam o lago com suas redes para se banquetear com seus peixes e outros vendendo o que elas entendiam ser para consumo da comunidade. Também precisavam conscientizar os próprios moradores que insistiam em fazer do lago seu depósito de lixo e despejo de esgotos, além é claro, de controlar o desmatamento da ilha.
“Cheguei aqui com 16 anos, era tudo mata bruta com muita caça, peixe e frutas. A gente caminhava mais de um quilômetro com nossa produção nas costas par chegar à beira do rio e de lá eram mais três horas no remo para chegar em Rio Branco. Meu pai e os vizinhos se reuniram para tirar o pique da estrada”, lembra Raimunda Chaves de Souza, 64 anos, moradora do quilômetro dois do ramal do Riozinho, à beira do lago.
A estrada que a princípio foi a melhor solução para melhorar as condições de vida na comunidade acabou se transformando em fonte de problemas. “O pessoal da cidade começou invadir a área para caçar, pescar, depois montaram casas, derrubaram a mata, se a gente não reagisse já tinham acabado com nosso lago. Hoje estou feliz por participar desta luta em defesa do lago do Amapá, mas sei que é muito difícil a gente recuperar o que a natureza levou milhares de anos construindo, mas nós estamos trabalhando para isso”.
Costurando o futuro
Terezinha Santana da Silva é a presidente da Associação dos Moradores e Produtores Rurais da Estrada do Amapá (Amprea) que conta com 240 famílias associadas. Ela esclarece que ao longo de mais de 50 anos, a prática da agricultura de subsistência destruiu a maior parte da floresta virgem, da qual, restam áreas maiores extensões nos limites com a Reserva Extrativista Chico Mendes, riozinho do Rola e na ilha do lago.
“As invasões da margem e os primeiros desmatamentos na ilha do lago fizeram com que a comunidade saísse em defesa do lago. Sua transformação em área isso diminuiu, mas ainda não acabou e ainda temos muito a fazer, entendo que a preservação e a recuperação desta área só será acontecerá de verdade quando as pessoas conseguirem obter renda deste capital ecológico que temos aqui”, explica Terezinha.
Foi para isso que surgiram iniciativas como o projeto Costurando o Futuro através do qual um grupo de 20 mulheres passou a produzir peças de cama, mesa e banho decoradas com motivos que lembram a riqueza natural da área e a beleza do lago.
Projeto que é apoiado financeiramente pela Caixa e técnicamente pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-Ac) que enviou a arquiteta e design Rita Rebolsas que está ajudando as mulheres a criar novos produtos utilizando identidade cultural e ambiental do Lago do Amapá.
“Nossa intenção é manter as famílias com as mesmas características de hoje, ou seja, praticando agricultura onde plantam muita banana, macaxeira, milho e verduras, criando seus animais e pescando. Mas também estamos iniciando projetos de recuperação das nascentes e das áreas degradadas com o plantio de frutas regionais e madeiras em sistemas agroflorestais, além de produzir doces e artesanato que venham melhorar a renda destas famílias preservando o maio ambiente”, explica Terezinha.
Rita Mansour explica que: “O trabalho do Sebrae-Ac estará voltado ao desenvolvimento dos produtos, qualidade no acabamento e comercialização. Esta área é muito próxima da Capital, tem um grande apelo turístico e um mercado pronto para ser conquistado por seus produtos, daí vamos pensar em algo maior, é preciso começar com os pés na terra”.
Turismo no quintal
Foi para isso que na tarde de sexta-feira um grupo de mulheres acompanhados pelas equipes do Sebrae-Ac, Caixa, Secretaria de Meio Ambiente (Sema) e da ONG Vertente estiveram realizando um passeio de barco pelo lago. Embora tenham nascido e se criado ali, muitas mulheres nunca haviam tido a oportunidade de estar no lago como observadoras de sua beleza e com um objetivo bem definido de construir na imaginação idéias que depois serão transformadas em obras de arte decorando peças de cama, mesa e banho.
A assistente regional da Caixa, Rosane Brasil e mais dois funcionários do banco participaram do passeio. Rosane mostrou-se encantada com a paisagem e explicou que: “Este lago demonstra um pouco de nossa imensa riqueza natural e sua preservação é muito importante para a comunidade. Nós da Caixa integramos o projeto Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que tem como principal objetivo erradicar a fome e a miséria no mundo. Por isso vemos com bons olhos a iniciativa destas mulheres e apoiamos seu projeto Costurando o Futuro que já está gerando renda na comunidade, projeto que ganha ainda mais força a partir de agora com o apoio do Sebrae e do governo do Estado”.
Lago da vida
O agricultor Manoel Ribeiro da Silva, 56 anos, pai de seis filhos é um dos moradores da ilha do lago onde vive há seis anos cultivando banana, macaxeira, mamão e verduras que vende no mercado. “Aqui a gente vive da agricultura e também pode pescar pra comer. Já pequei muita traíra, bodó, sardinha, sauna, surubim e cuiú-cuiú, depois que o pessoal da cidade deixou de invadir o lago melhorou bastante a vida da gente. Acho bom que o pessoal esteja preocupado em cuidar disto aqui porque na ilha tem muita cutia, macacos, outros animais e aves além de árvores muito bonitas”. |