OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

VIOLETAS NA JANELA...

Depois, quando a Morte foi sentida se achegando aos de casa, tios e tias, vizinhos, ela passou a não ser novidade. Fui aceitando o início do seu reinado tirânico, absurdo e assombroso.

Passado o pavor do menino, a Morte foi assumindo novas vestes, até chegar a ser o que ela é hoje para mim: uma partida, a grande surpresa, a parteira das novas dimensões, num ciclo de mudanças permanentes e dualísticas.
Mas a distância da visão da Morte do menino para o adulto se deu de maneira oceânica.

Foram os livros, especialmente os de Filosofia, que me ajudaram a lidar (ao invés de brigar) com a Morte. Mas quando ela esteve pavorosamente ao meu lado, foi a minha profissão que fez com que a encarasse mais serenamente: quando meu pai partiu, em 1998, tive a companhia silenciosa e solidária dos meus jovens e queridos alunos de Filosofia. Lembro que um deles perguntou: “como o senhor consegue ficar tão calmo?” Ao que respondi: “meu pai, ali, está me ensinando”. Hoje me dou conta que naquele momento, ao dizer aquelas palavras, eu passava a ver a Morte com mais sabedoria.

Na manhã desta sexta-feira, ainda com alguns ventos gelados da friagem que enlaçou a cidade, fui abraçar meu amigo Zé Alexandre, que se despedia de sua tia-mãe, a professora Crizarubina (nome bonito e especial, como foi sua vida e sua elegância).
Por entre palavras, flores e velas vi, na rua, um redemoinho teimoso que sussurrava poeiras como que mostrando a efemeridade da vida. A cena ficou como um quadro e lembrei-me do poema: “nós não morremos, nós partimos”.
Contudo, e mesmo dolorido, o Zé Alexandre, nosso guerrilheiro das sensíveis liberdades, corajosamente sorria.

Quando tomei consciência da Morte, bem menino mesmo, a primeira associação que fiz foi com a Solidão. O terrível Vazio.
Fiz o catecismo um ano antes do tempo, entre as colunas gregas da Catedral de Rio Branco, olhando para aquela porta acima do altar por onde passariam as almas: “esta é a casa de Deus e a porta do Céu”. Por vezes, me encantava com a aura sorridente de Dom Giocondo Grotti, o bispo, de grande poder sobrenatural para mim.

Me saí bem no catecismo. Mas o que me marcou foi o carinho com que minha mãe costurava as folhas de papel almaço para transformá-las em caderno, além do sorriso peralta de minha irmã e o olhar serenamente orgulhoso do meu pai na foto oficial da Comunhão.

Só depois da primeira hóstia veio a consciência da Morte. E foi horrível. Ela passou a ser uma companhia opressora, o demônio do meio dia. Nada valia para o sossego: santos, a Virgem, missa das oito no domingo.

Era muito pálida a certeza de que migraríamos para um mundo iluminado, multicolorido, de gentes etéreas e músicas divinas e nunca ouvidas. A imagem de Jesus Cristo tinha uma distância encantada, pouco tangível. Quem era eu para tê-Lo, já tão cheio de pecados devidamente catalogados na imensidão dos meus sete anos?

 

 

Da minha juventude para cá, li muita Filosofia, e fui me aquietando (se é que isso é possível). Descobri minas e fracassos, diamantes e ouro de tolos. Afastei-me e me reaproximei da transcendência numa dança inebriante e devastadora.

Estou mais calmo.

Hoje eu penso que quando a Morte me visitar, num amanhã que quero distante, desejo ter a coragem sorridente do meu amigo Zé Alexandre, o nosso guerrilheiro das sensíveis liberdades.
Se conseguir isso, estarei recebendo-a como delicadas violetas na janela...

.

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 04 de maio de 2008
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A