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Integração à vista

Ponte que vai ligar o Brasil ao Peru, na região do Alto Acre, será inaugurada antes do fim do ano, anuncia Jorge Viana

Secom
Máquinas preparam os aterros das cabeceiras da ponte; 200 operários trabalham na obra sete dias da semana


Tião Maia
Enviado Especial

Assis Brasil - Avançando à média de um metro de obra construída por dia, a ponte sobre o rio Acre, que vai ligar o Brasil ao Peru por vista terrestre, deverá ser inaugurada em novembro de 2005, menos de dois anos entre o anuncio da construção e sua inauguração. A obra foi anunciada em agosto de 2004, logo após a inauguração da ponte “Wilson Pinheiro”, que liga as cidades de Cobija (Bolívia) e Brasiléia, um evento que reuniu os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Bolívia, Carlos Mesa, e do Peru, Alexandre Toledo. Tendo Jorge Viana como anfitrião, depois da inauguração em Brasiléia, os três presidentes foram a Assis Brasil, na fronteira com o Peru, lançar a pedra fundamental da obra que está sendo construída com recursos do governo brasileiro a um custo estimado de R$ 28 milhões.

A previsão da data de inauguração foi feita pelo próprio governador Jorge Viana, ontem à tarde, ao visitar o canteiro de obras, em Assis Brasil. Acompanhado dos secretários de Infra-Estrutura, Sérgio Nakamura, e de Planejamento, Gilberto Siqueira, do prefeito em exercício de Assis Brasil, Dorismar Ribeiro, e do deputado estadual Delorgem Campos (PSB), Jorge Viana esteve no local para uma visita de inspeção e constatou que a cada 12 dias são construídos 12 metros de ponte.

“O grosso do trabalho, aquela parte mais difícil, já está feito. O resto agora vai andar mais rápido”, disse o governador com base em dados que apontam para conclusão antes do fim do ano.

Para alcançar esse resultado, trabalham no local pelo menos 200 operários, que entram pela noite, trabalhando também aos domingos e feriados. “É de fato uma operação de guerra”, definiu Jorge Viana. Por conta de tamanho esforço, quem chega a Assis Brasil constata que as primeiras pilastras, a base que vai sustentar a ponte, já estão erguida de um lado e do outro do rio. As pilastras mostram uma pequena parte da obra, já que a outra está fincada no solo, a 20 metros de profundidade. É de fato uma obra complexa, sem qualquer tipo de “escora”, cujo prosseguimento é feito de forma suspensa. Será a primeira ponte da região com um vão de 110 metros de comprimento de extensão sem coluna de sustentação. É que, por causa das enxurradas que descem o rio no período de inverno, o trecho da ponte que fica sobre o leito do rio não tem coluna para não causar embaraços aos balseiros. “As trombas d’agua que ocorrem aqui, quase na cabeceira do rio, são violentas, Por isso, não poderíamos pensar em construir uma ponte com pilastra no meio do rio, como seria o comum. Assim, teremos uma ponte com a maior distância entre suas colunas de sustentação”, disse o engenheiro Sérgio Nakamura. “É uma obra para 100 anos.”

Ainda em fase de obra, a ponta já impressiona. Primeiro, pelos números. A estimativa é que a obra vá consumir 340 mil quilos de aço - um produto que, para chegar a Assis Brasil, viaja, de caminhão, mais de 3.500 quilômetros de distância, de Minas Gerais ou do Rio de Janeiro ao Acre. Deverá consumir ainda 6 mil metros cúbicos de concreto e outros 6,5 mil sacos de cimentos. “Mesmo ainda em construção, já vem gente de várias partes ver de perto o que está acontecendo aqui. Quem chega, não acredita que aqui, no meio do mato, nas cabeceiras dos rios, está acontecendo uma obra desse porte”, admira-se o prefeito em exercício de Assis Brasil, Dorismar Ribeiro (PSB) - o prefeito titular, Manuel Batista (PT), está licenciado em tratamento de saúde.

O prefeito em exercício de Iñapari, a cidade peruana que será diretamente ligada a Assis Brasil através da ponte, Ted Barra, também vive sob muita expectativa em torno da inauguração da obra. “Essa ponte será muito importante para nós, peruanos, que vivemos nesta parte do nosso país”, admite.

De acordo com os relató-rios da obra, dos 240 metros de extensão previstos, pelo menos 50 já estão construídos. Quando concluída será a maior ponte do Estado, com 40 metros de extensão a mais que a terceira ponte sobre o rio Acre, em Rio Branco. “Quando assumimos o Governo, em 1999, havia lá um projeto de construção de uma terceira ponte num local inadequado e com características que não permitiam a mão dupla. Eu chamei o Sérgio Nakamura e decidimos que, depois de 30 anos de construção da última ponte em Rio Branco, não poderíamos cometer o erro de fazer uma ponte aquém das duas já existentes”, contou Jorge Viana. “Foi aí que decidimos reformular o projeto e construir a maior ponte de Rio Branco, aquela que está também muito perto de ser concluída. Com a experiência que adquirimos, aceitamos o desafio de fazer a maior ponte do Estado, desta vez recorrendo ao que há de mais moderno na tecnologia da área, uma tecnologia que é utilizada em todo o mundo. É um grande desafio realizar uma obra deste porte.”

Os dados sobre a obra, inclusive com as fotografias com as diversas fases do projeto, serão levados a Brasília, pelo governador Jorge Viana, para exibição ao presidente Lula, além de reforçar o convite para a inauguração. “Sempre que a gente se encontra, ele me pergunta sobre o andamento desta obra. Eu, que fiquei surpreso com os dados que mostram a rapidez da construção, acho que também vou surpreender o presidente. Primeiro com a nossa ousadia de construir uma ponte com esse padrão e com essa tecnologia. Um burocrata qualquer poderá até ser capaz de questionar o porquê de estarmos construindo uma ponte com essa extensão e com essa largura, de mão dupla, nesta região”, disse Viana. “O fato é que estamos pensando longe. Essa não é uma ponte qualquer. É uma ponte que mexe com a geopolítica desta parte da América Latina, uma ponte que mexe com o Brasil. Então, temos que construí-la de forma a estarmos à altura disso tudo.”

Região será a porta de entrada para o Brasil

O governador Jorge Viana também visitou as obras de acesso à ponte, uma estrada de dois quilômetros que vai ligar a Estrada do Pacífico à margem do rio Acre. É que, por conta da geografia da região, a ponte teve que ser construída distante do centro da cidade, numa parte mais alta, que não é alagadiça. Trabalhar o acesso também não é fácil. A estimativa é que, para fazer o acesso à altura das obras da Estrada do Pacífico e da própria ponte, será necessária a mobilização de mais 300 mil metros cúbicos de solo. Isso significa algo em torno de 8% do material mobilizado na pavimentação asfáltica dos 111 quilômetros da Estrada do Pacífico.

A obra também é complexa porque o Governo trabalha para causa o menor impacto possível ao meio ambiente. “Desapropriamos áreas nas proximidades porque temos preocupações com esse componente importante da preservação das encostas do rio e do meio ambiente em geral”, afirmou Nakamura.

O acesso à ponte a partir do final da Estrada do Pacífico passará pela Alfêndega, cujos prédios, financiados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), também estão sendo construídos a um custo estimado em R$ 3 milhões. “Aqui estarão reunidos todos os órgãos federais e estaduais de fiscalização, desde a Polícia Federal aos serviços de vigilância sanitária. O estrangeiro que chegar aqui verá, de cara, que está chegando a uma parte especial do Brasil. Afinal, aqui, que por muito tempo foi apontado como o fim do Brasil, o fim do Acre, começa a se preparar para ser o começo, a porta de entrada para o Brasil”, disse o governador.

Deputado destaca que obras representam resgate de compromissos

O deputado Delorgem Campos, líder do PSB na Assembléia Legislativa, disse ontem, durante a visita do governador Jorge Viana ao Vale do Acre, que as obras realizadas na região, como o asfaltamento da Estrada do Pacífico e da ponte que vai ligar o Brasil ao Peru, é o resgate assumido em praça pública pelos partidos que integram a Frente Popular. É também, de acordo com o deputado, manifestações de que o presidente Luis Inácio Lula da Silva não só conhece profundamente o país, como está preocupado com as regiões mais pobres.

“O presidente Lula esteve por várias vezes aqui em Assis Brasil. Veio como sindicalista, como humanista, como candidato e como presidente da República. Essas obras representam o resgate de seu Governo em relação aos compromissos assumidos em praça pública com o nosso povo”, disse Delorgem Campos. “Isso também representa o grande esforço do atual governo do Estado. È por isso que, particularmente, me sinto feliz em poder participar deste processo e atuar, na Assembléia Legislativa, como aliado deste Governo que está provocando mudanças significativas em todo o Estado e, principalmente, nesta região do Acre”, disse Campos.

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de junho de 2005
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