COTIDIANO

Membro do CES é morto com
requintes de crueldade

Polícia prende um dos suspeitos
de ter cometido o crime


 

Val Sales

O membro do Conselho Estadual de Saúde José Alexandre Leitão, 49, foi brutalmente assassinado na noite da última quarta-feira. O corpo do conselheiro foi encontrado em sua residência, na rua da Uva, 150, Conjunto São Francisco. Um dos acusados de ter participado do crime, Marcelo de Souza da Silva, 22, foi preso ontem pela polícia, depois de ser reconhecido por uma testemunha que o viu saindo do local com objetos nas mãos.
Consta no boletim de ocorrência da Delegacia de Flagrantes (Defla) que a polícia foi chamada pelos vizinhos de José Alexandre, que perceberam a movimentação estranha na casa, onde um grupo de rapazes entrava e saía levando objetos nas mãos. O local, segundo os agentes, estava revirado, inclusive a cozinha, onde os acusados espalharam os alimentos que estavam na geladeira.

O corpo de José Alexandre foi encontrado no chão do quarto. Estava ensangüentado e envolto em fita adesiva das pernas até o tronco, apresentando outros sinais de que fora bastante torturado antes de morrer, inclusive por sufocamento, já que sua boca estava cheia de sabão. José Alexandre é irmão do procurador federal Marcos Leitão, que foi avisado do ocorrido pelos vizinhos do conselheiro.

Nas primeiras horas da manhã de ontem, os familiares e amigos de José Alexandre se reuniram na frente do Instituto Médico Legal (IML), aguardando a liberação do corpo para o velório. Todos lamentaram a morte do conselheiro, considerado como sendo uma liderança ativa nos movimentos sociais em Rio Branco.

Enquanto o grupo aguardava a liberação do corpo de José Alexandre, o delegado, Alex de Souza Cavalcante, titular da Defla, ouvia as testemunhas e interrogava o acusado Marcelo de Souza. Mesmo o acusado negando sua participação no crime, uma testemunha, que não teve seu nome divulgado, disse não ter dúvida quanto à presença dele entre o grupo de rapazes que estivera na casa do conselheiro na noite anterior, inclusive retirando objetos.
Junto com Marcelo Souza, também foi preso Cláudio Estéfano de Souza, que estava na companhia dele no momento da abordagem da polícia. Esse segundo rapaz foi ouvido e liberado em seguida por falta de provas. “Com certeza há outros envolvidos, além do Marcelo. Testemunhas afirmam que viram mais pessoas entrando e saindo do imóvel. Possivelmente outras pessoas tiveram participação nesse crime”, enfatiza o delegado Alex Cavalcante.

A polícia trabalha com a hipótese de latrocínio. Segundo o delegado, sem uma investigação mais apurada, não é possível afirmar que se trata de um crime de homofobia. “Com os elementos que temos nos autos ainda não dá para associar esse tipo de afirmação”, acrescenta.
O que diz o acusado

“Não tive nenhuma participação nesse crime. Eu o conhecia. Estava perto da casa sua e resolvi ir lá falar com ele. Quando cheguei o portão estava aberto, a casa estava uma bagunça, e eu saí rápido. Fui embora. A testemunha realmente me viu entrar. Mais eu entrei e saí em seguida. Não chamei a polícia porque fiquei paralisado e sem ação. Sai de lá, encontrei com meus amigos e disse a eles o que havia visto. Eu sou um ‘mole’ mesmo, não tenho ação para nada”, declara o acusado Marcelo Souza, explicando por que não chamou a polícia depois de ter visto as condições em que estava a casa do conselheiro.

Amigos de José Alexandre pedem justiça

O membro do Núcleo de Direitos Humanos e Combate a Homofobia, da Ufac, Alberto Salvático, esteve pela manhã na Defla e garantiu que a entidade irá pressionar a polícia e o Poder Judiciário para que a morte do conselheiro da saúde José Alexandre não fique impune.

“Vamos pressionar as autoridades e o MPE, no sentido de que o crime seja esclarecido e os culpados sejam punidos. Foi uma ação brutal e possivelmente se trata de mais um crime de homofobia no Acre”, ressaltou.
Já a secretária executiva do Conselho Estadual de Saúde, Zilmar Cândido, lembrou que José Alexandre fazia do seu trabalho um sacerdócio. “Ele era um cara dedicado e primava para que nenhum usuário deixasse de ser atendido no sistema. Não conheço qualquer pessoa que fosse sua inimiga”. enfatiza.

A presidente do Diretório Estadual do PT, Rose Scalabrin, disse que o conselheiro militava há muito tempo no Partido dos Trabalhadores e nos demais movimentos sindicais. “Era um militante aguerrido e participou da formação do Conselho Estadual de Saúde, assim como da discussão para a criação de diversas políticas de ação do setor”, conclui.

O vice-prefeito de Rio Branco e ex-presidente do Conselho Estadual de Saúde, Eduardo Farias, também esteve no IML ontem de manhã e lembrou da militância de José Alexandre nos movimentos sociais.
Três crimes contra homossexuais em menos de um ano em Rio Branco

Em agosto do ano passado foram registrados dois assassinatos cometidos de forma violenta contra homossexuais. A primeira foi do Francisco Dantas, Coordenador Estadual do DST/Aids, cujo corpo foi encontrado boiando nas águas do igarapé Monte Bom, na estrada do Quixadá. Dantas havia desaparecido na noite do dia quatro (08/2007), depois de participar da campanha de prevenção de DSTs no Parque de Exposições Marechal Castelo Branco, onde fora visto pela última vez.

O segundo assassinato foi do professor Aldemir Pereira, cometido pouco mais de uma semana após a morte de Francisco Dantas. Em ambos os casos, os algozes agiram de forma cruel e violenta. Dantas recebeu um golpe “mata-leão” e foi asfixiado até a morte, sendo que Aldemir foi esfaqueado na altura da clavícula e espancado em seguida. O velório do conselheiro da saúde, José Alexandre, aconteceu no auditório da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e seu sepultamento ocorreu às 17 horas.

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