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Capatará, a mais nova invasão vip do Acre

Seringal está sendo ocupado por pessoas que não teriam direito a benefícios da reforma agrária

Juracy Xangai
No detalhe acima, madeira
retirada de castanheira verde; invasores trabalham para o PM Barbosa


Juracy Xangai

O acontecimento de três mortes, durante o ano passado, no conflito entre invasores da Fazenda Luiz Gomes na área do antigo seringal Capatará do Monte Alegre, em Plácido de Castro, o relato da descoberta de esqueletos humanos e o roubo de mais de 240 cabeças de gado nelore daquela propriedade levaram o secretário de Segurança, Fernando Melo, a solicitar ao diretor-geral de polícia do Acre, Walter Prado, a realização de uma perícia total na área.

Esse trabalho tem a finalidade de descobrir quem e quantos são os invasores, quais seriam os reais beneficiários da reforma agrária e verificar denúncias de que aquelas terras estariam servindo de esconderijo de bandidos foragidos da Justiça que, disfarçados de invasores, dariam cobertura às quadrilhas que atravessam a fronteira a partir da cidade boliviana de Santa Rosa, localizada a menos de 20 quilômetros dali, trazendo drogas. O serviço de inteligência da Polícia Federal mantém-se alerta porque estima que passem por ali, a cada mês, mais de 300 quilos de cocaína na forma de pasta-base e oxidado. A ação que não é contida por falta de agentes suficientes.

A primeira vistoria aconteceu na última sexta-feira, quando a equipe de peritos da Polícia Civil esteve percorrendo a área e descobriu que, entre as dez famílias que contatou, sete são comerciantes, alguns de médio e grande portes de Rio Branco, Senador Guiomard, Plácido de Castro, além de funcionários do Incra, da Ufac, policiais militares e até um que se identifica aos demais invasores como soldado do Exército.

A exemplo da invasão do antigo seringal Benfica, em Rio Branco, onde a desapropriação feita para atender supostos sem-terra acabou por beneficiar ex-governadores como Romildo Magalhães, outros políticos e até autoridades do Ministério Público e do Judiciário, o caso do Capatará é a mais nova invasão vip, composta, principalmente, por comerciantes e até um vereador da capital.

PM invasor

O primeiro a ser contatado pelos peritos foi Francisco Monteiro Barbosa, 25, pai de três filhos, que se identificou como operador de máquinas pesadas e teria comprado por R$ 1 mil uma área de 54 hectares de pasto do “Ney”, que seria proprietário da Papelaria Prática, em Rio Branco. Aos invasores da área ele se identifica como policial militar conhecido como Barbosa.

No momento em que foi encontrado, seu veículo tipo Pampa, placas NBO-0330, descansava à sombra de um grande pé de jurubeba, enquanto ele cercava a área dentro na qual havia uma casa da fazenda Luiz Gomes incendiada há menos de um mês. “Paguei R$ 1 mil ao Ney pelo benefício da casa. O pasto já tinha sido feito pelo fazendeiro. Só entrei aqui depois de pagar o Zé Maria, do sindicato do Quinari, que me mandou para o delegado do sindicato, o Faixa Preta. Ele resolve tudo por aqui”, disse Francisco, que acusou os peões do fazendeiro Heleno Monteiro de só andarem armados, intimidando os invasores.

Invasão pacífica

O peão de fazenda e trabalhador de serraria Eduardo Gomes dos Santos, 28, solteiro, e um outro vizinho da invasão trabalhavam construindo cerca para o “soldado Barroso” quando foram contatados pela perícia. “Passei quatro anos pagando o sindicato do Quinari até que o Zé Maria me arranjou uma área no antigo seringal Triunfo, mas como era muito pequena eu não quis. Então ele me arrumou esta aqui que tem 25 hectares. Até agora a gente nunca teve nenhum problema com o fazendeiro nem com o pessoal que trabalha para ele, é tudo gente boa, que passa o dia pastoreando o gado”, comentou. “O pessoal tem contado que andou encontrando uma caveira na mata ali pelo ramal do Isidoro e duas outras na região do igarapé Rapirrã. Isso vem deixando todo mundo assustado.”

Soldado fazendeiro

Identificando apenas como soldado do Exército Brasileiro conhecido como Gleison, que seria filho do dono do Supermercado Cantinho, na entrada do ramal da Vila da Amizade, área da Vila Acre, ele invadiu mais de cem hectares no pasto da Fazenda Luiz Gomes onde a perícia encontrou como caseira a dona de casa Marinês Barros de Oliveira, 32 anos, mãe de sete filhos, também moradora da Vila Acre.

“A gente estava desempregado passando grande dificuldade, então ele ofereceu esse emprego pagando R$ 200 por mês para cuidar desse pedaço de terra. Meu marido e os três meninos maiores estão cuidando da cerca. Gado ainda não tem porque o pessoal queimou o pasto todo”, afirmou ela. Junto à sede, duas castanheiras verdes que foram derrubadas e a madeira usada para construir a casa e parte da cerca.

Comunidade se organiza

Cansado de vender reproduções de fotografias e quadros pelas ruas de Rio Branco, Sérgio da Silva Costa, 30 anos, pai de dois filhos, entrou em contato com o sindicato do Quinari, de onde foi encaminhado ao Faixa Preta, que indicou o “Américo Gaguinho”, de quem comprou 25 hectares, por R$ 2 mil, da antiga colocação Apuí, onde ficava a casa do líder da Revolução Acreana Plácido de Castro.

Na casa da fazenda Luiz Gomes, que agora ocupa mantendo sempre hasteada uma bandeira do Acre, morreu um dos invasores numa pendenga por estacas de cerca no início do ano passado. “Coloquei tudo o que tinha aqui dentro e daqui só saio depois que a carne cair dos ossos. Nós queremos produzir, até já estamos construindo uma escola. No ano passado teve aulas do Mova e agora o material já está todo aqui para atender a comunidade. Queria que resolvessem logo isso porque a gente passa a noite acordado, com medo, porque dizem que encontraram umas caveiras na mata”, relatou.

Os invasores foram convocados pelo presidente da associação da comunidade, Antonio Ferreira Gomes, o “Deocir”, que mora em Senador Guiomard, para uma reunião que aconteceu na manhã de sábado com representantes do Incra, Imac e Iteracre para discutir como está a situação e que providências serão tomadas. Até porque quatro juízes do Fórum de Plácido de Castro já determinaram o despejo das famílias desde que a invasão começou, há três anos, mas nenhum dos mandados de reintegração foi executado de fato. Levantamentos feitos pelo Incra usando o sistema de satélites apontam que a fazenda Luiz Gomes está localizada no antigo seringal Capatará e não no Monte Alegre, como afirmam os invasores.

Família agenciadora

Cristina de Souza Silva, 61, mãe de seis filhos, é esposa de Raimundo Pereira da Silva, 64, o Faixa Preta, que todos os invasores apontam como o loteador das terras do Capatará e Monte Alegre como representante direto do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Quinari, José Maria. “O Faixa não distribui nem vende terra, ele só leva o pessoal que o Zé Maria manda para cá, eles é que pagam uns R$ 10 pelo dia que ele perde para indicar onde estão os lotes.”

O fato de a invasão passar dos sem-terra para comerciantes, fazendeiros e policiais é reconhecido por ela própria. “Só o Zé Rufino, que mora ali no ramal do Isidoro, tomou conta de 22 lotes. Neste ano já brocou 40 alqueires para derrubar. Aqui também tem um bocado de comerciante como o Marcílio, o soldado Barbosa e o Gleison, que é filho de um comerciante da Vila Acre.”

No momento em que a perícia visitava a casa de Faixa Preta, dois homens com um Fiat Uno Mille lá esperavam para saber como conseguiriam seus lotes.

Embora a esposa confirme sua atuação como orientador da invasão, Faixa Preta nega essa função. “Eu apenas dou uma ajuda para os companheiros, coitados, eles não têm um pedaço de terra para morar e a lei diz que a gente tem de derrubar essa mata e colocar a terra para produzir. O pessoal vem aqui indicado pelo Zé Maria, agora se eles são comerciantes eu não sei por que dizem que são-sem terra e eu acredito”. E concluiu: “Até hoje o Incra não provou para a gente se essa terra pertence ao seu Heleno. Para nós, essas terras são do seringal Monte Alegre, que pertencia à família Assmar”.

As acusações feitas pelo comerciante Marcílio e outros invasores de que ele vende os mesmos lotes para diversas pessoas, deixou Faixa Preta indignado: “Quero que eles provem que eu vendi terra para alguém. Quero saber quem são eles porque vou processar quem estiver fazendo isso que é uma grande mentira. Eu só ajudo as pessoas”.

Os últimos invasores contatados foram Altieris Carlos Gomes da Silva Quartezani, 21 anos, solteiro, proprietário da Casa do Colono, em Plácido de Castro e que é sócio do comprador de gado Fernando Aguiar de Lima, 40, sete filhos que juntos compraram por R$ 1 mil um lote de 10,5 hectares e no momento em que foram encontrados eram guiados por Faixa Preta para comprar outro de 25 hectares por R$ 2 mil.

Na saída foi encontrado José Carlos Teles Martinês, 31, três filhos, que se identificou como vendedor de materiais de papelaria, mas que aos invasores diz ser soldado do Exército Brasileiro do qual usava uma farda completa no momento em que dirigia um Fiat Mille placas MZV-7610.

Comerciante invasor

Proprietário da Casa da Ração, na área do Mercado Novo, em Rio Branco, Marcílio Gomes de Oliveira, 63 anos, pai de cinco filhos, usava a debulhadeira de milho quando foi contatado pelos peritos. Na garagem ao lado da casa de 12 por 12 metros, construída em madeira serrada, uma Toyota nova, de placa BNV-6986, é o veículo de sua propriedade.

“Ultimamente o comércio não vem dando muito dinheiro. Deixei a mulher cuidando da loja e entrei nessa invasão. Fui enganado porque o Faixa Preta me vendeu sete lotes, mas percebi ele já tinha vendido três deles para outras pessoas. É o maior safado que já conheci na vida. Espero que o Incra assente a gente aqui dentro, mas se vierem despejar a gente o jeito é sair e se aventurar em outro lugar”, declarou.

Ele acaba de tirar 10 mil covas de roça, plantou mais 16 mil, está com 64 quilos de feijão plantados e estocados no Quinari a colheita dos 29 quilos de milho que plantou no ano passado. “Estou aqui há dois anos, derrubei 25 hectares de mata e peguei mais uns 50 hectares de pasto que eram da fazenda do Heleno porque ele tinha desmatado ilegalmente.”

Esbulho geral

Além de quilômetros de cerca arrancados, 249 vacas, cavalos e mulos desaparecidos, casas invadidas ou incendiadas, dezenas de castanheiras verdes estão sendo derrubadas e transformadas em tábuas, pranchas e estacas para formar as fazendas dos invasores. Enquanto isso, pelo menos dez caminhões toreiros pertencentes a madeireiros de Senador Guiomard e Rio Branco já teriam retirado pelo menos cinco mil metros cúbicos de madeiras como o mogno, cerejeira e outras essências daquela floresta onde os peritos tiveram a oportunidade de ouvir as motosserras, que silenciaram assim que os invasores perceberam a presença da polícia na área.

 
 
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Rio Branco-AC, 4 de agosto de 2004
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