OPINIÃO
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Diorindo Lopes Júnior *

 

Essa tal modernidade...

Essas recentes denúncias de “arapongagens” me fizeram pensar em 1984, um dos mais polêmicos livros do século passado. Trata da ameaçadora vigilância do Grande Irmão, que a tudo via e tudo sabia, pois estava em todos os lugares, o tempo todo. Escrito por George Orwell e publicado em 1948, mesmo após vinte anos passados, permanece atualíssimo porque o outrora sagrado direito à privacidade faz muito tempo virou coisa de antigamente.

Nem mesmo entre quatro paredes, onde tudo era permitido, o sujeito encontra-se seguro. Ninguém, mais (nem mesmo as poderosas autoridades) está livre de uma bisbilhoteira microcâmera ou um inconveniente microfone.

Falar de coisas importantes ao telefone fixo ou celular hoje é correr um risco considerável. Qualquer mequetrefe com um mínimo de neurônios pode grampeá-los, rastreá-los, gravá-los, cloná-los e apelar para chantagens torpes ou descambar logo para provocar abalos irreparáveis em ilibadas reputações.

Fofocar irresponsavelmente ou combinar transações de qualquer espécie, faz tempo já, não é mais aconselhável. Pular a cerca deixou de ser uma simples aventura para cônjuges insatisfeitos, hoje é investimento de alto risco. Um galanteio trivial num não tão distante passado, agora pode acabar em gordas indenizações ou até mesmo em cadeia.

Apagar e-mails também já não tem mais eficiência, sempre haverá algum rato asqueroso capaz de recuperá-los, mesmo passados longos períodos de seu envio – perguntem a um ministro de Estado bastante em evidencia nos últimos dias. Não demora muito, os teclados de computador virão sem a tecla DELETE, não terá mais sua função original.

Fazer pipi em banheiros públicos também não garante mais o antigo anonimato. Em qualquer lugar que se vá, sempre há uma câmera escondida, identificada por um aviso “sorria, você está sendo filmado”. Não que isso garanta ao cidadão alguma segurança, os marginais andam tão abusados que até fazem pose enquanto cometem seus delitos.

Cartões magnéticos tornaram-se poderosos alcagüetes e efetuar operações financeiras através da Internet pode ser até muito mais cômodo, mas também virar uma fonte de dores de cabeça. Creio que não passa uma semana sem que se noticie algum novo golpe e desvio de fortunas pessoais.

Ávidos por manter em alta seus lucros monumentais, os bancos empenham-se em afastar os clientes de dentro de suas agências (cliente dentro de agência, hoje, é custo, é menos ganho, quase prejuízo), mas não podem garantir a segurança depositada em seus abandonados cofres de aço. E viva a usura!

Sei lá, posso estar muito enganado, mas essa tal modernidade está me parecendo pouco confiável e muito, muito mais perigosa do que as premonições contidas em 1984, de Orwell.

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de agosto de 2004
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