OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Florentina Esteves

 


Alvíssaras

Boas notícias a gente não pode deixar de comemorar. E o Acre, que andava pelo noticiário nacional como sinônimo de notícias calamitosas, agora nos remete a estágio benfazejo de boas novas, colocando-se em posição privilegiada no combate ao desmatamento. Diz-nos a repartagem que trata do assunto, que houve uma redução na destruição florestal e nos fluxos de madeira ilegal em nosso território. Dados que o Greenpeace endossa. Pelos dados, divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, o Acre se destacou por ter sido um dos estados da Amazônia a fazer jus a seu logotipo da árvore — símbolo da floresta — adotado por nosso governo, pois foi uma das regiões onde mais se reduziu o desmatamento, no período de agosto de 2004 a julho deste ano. E não são dados insignificantes: o desmatamento, nesse prazo, caiu para apenas 47 quilômetros quadrados, ou seja, 65% a menos que no ano anterior. A nossa ministra Marina Silva disse que deveríamos comemorar o feito tratando o tema “com responsabilidade, com ações estruturais e sem pirotecnia”. E a reportagem que trata de tão boas novas relaciona algumas medidas futuras capazes de coibir ainda mais a prática do desmatamento irresponsável e predador. Dentre essas medidas, a criação de mais 16 milhões de hectares em novas áreas protegidas, e a destinação de 5 milhões de hectares das novas áreas protegidas ao manejo florestal sustentável.

E nós, simples cidadãos deste nosso rincão abençoado pela punjança desta tão rica floresta, e nós, simples cidadãos, de que forma comemoraríamos esse feito memorável? Além de aplaudirmos nosso Governo da Floresta e nossa ministra Marina, eu sugeriria recitarmos uma poesia. Cada um escolheria a sua, e eu penso naquelas que falam de flores, da beleza de nossa floresta, dos animais e dos pássaros. E teríamos esta quadrinha de nosso príncipe dos poetas - Olavo Bilac - como exemplo:

Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E entre festões, de ninho em ninho
A Primavera a gorjear!

Não vejo ninguém se preocupar com nossa fauna, quando se fala em desmatamento, queimadas, derrubadas. Alguém lembra que nos altos daquela árvore que se abateu ou queimou poderia estar o ninho de algum pássaro? Alguém lembra que as queimadas poderiam atingir o ninho de algum animal da floresta? Alguém lembra? Não queremos parecer piegas, mas deveríamos pensar mais em nossos animais, que caminham a passos largos para a extinção. Seu maior predador? O bicho-homem. Quando não abate o animal caçando, é o fogo. Aonde iremos parar? Tenho visto na TV reportagens que nos dão notícias de animais invadindo as cidades, por falta de condições em seu habitat-natural, as florestas, invadidas pelo bicho-homem. E não me refiro à Índia, onde os animais são considerados sagrados, e convivem com as pessoas nas cidades, sem serem molestados. Refiro-me a países dito civilizados, aí incluído o Brasil. E não me admiraria que aqui em nosso Acre isso pudesse vir a acontecer, caso não fossem as boas notícias que reportamos aqui.

E se fôssemos buscar o exemplo de como lidar com nossa fauna entre nossos irmãos índios? Pois se assim falo é porque vi na TV - ninguém me contou, vi uma índia amamentando um filhote de porquinho do mato, cuja mãe alguém matou. Juro que fiquei comovida.

Então seria o caso de retornarmos às regras da natureza, de que tanto abusamos, sendo tão necessária à nossa sobrevivência.

Rio Branco, setembro de 2005

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de setembro de 2005
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