| ESPECIAL | |
| ESPECIAL | |
TRADIÇÕES QUINARI E ACURIÁ Produção ceramista da antiguidade é o livro não escrito da história do Acre |
![]() Peças foram doadas por Arthur Jerosch ao Museu da Borracha |
Doados na década de 1990 pelo falecido livreiro Arthur Jerosch ao Museu da Borracha, os materiais de cerâmica pré-histórica identificados pelos cientistas como vasos-caretas e urnas funerárias representam para a arqueologia mais um mistério a ser desvendado no Acre. Os vasos guardados no MB foram encontrados há cerca de cinco quilômetros ao norte da estrada da Areia Branca, em Plácido de Castro, já próximo da fronteira com a Bolívia, devido à grande curiosidade científica de Jerosch. Nas publicações dos especialistas, as pesquisas revelaram a presença de duas grandes tradições ceramistas no Acre. A primeira, presente ao longo dos vales do Purus, Acre, Iaco e Aquiri, foi denominada Tradição Quinari, enquanto a segunda está situada nos vales dos rios Juruá, Tarauacá e Muru e recebeu o nome de Tradição Acuriá. “A forma básica da maioria dos potes composta por um segmento cilíndrico embaixo, um globo no meio e outro segmento cilíndrico em cima acabou se revelando como o tipo-guia da cerâmica da Tradição Quinari”, diz o historiador Marcus Vinicius, em artigo publicado na coluna “Miolo de Pote”, do jornal Página 20. Além dos vasos-caretas coletados por Jerosch em Plácido, foram também identificadas grandes urnas funerárias na região de Cassiriã e Xiburema e na Estrada Mário Lobão, em Sena Madureira. Algumas peças estão guardadas no museu daquela cidade. Em Rio Branco, o Museu da Borracha mantém uma urna funerária do período, e no Palácio Rio Branco podem ser vistas outras três. Ainda sem grandes estudos sobre o tema, não é possível detalhar muita coisa. Os cientistas sugerem que entre 1.000 e 2.000 anos antes do Presente (aP), os vales dos rios Purus, Iaco, Acre e Iquiri e seus tributários foram ocupados por diversos grupos indígenas que compartilhavam um modo de vida característico. Não se tem conhecimento da denominação desses povos ou quais línguas falavam. Há pouca dúvida quanto ao trabalho que desenvolviam: eram ceramistas, agricultores semi-sedentários, que se contatavam de alguma forma e assim socializavam suas culturas. O Acre tem um grande histórico de achados arqueológicos, mas o conhecimento científico sobre o tema ainda é incipiente. No Centro de Documentação e Informação Histórica (CDIH) da Universidade Federal do Acre (Ufac), por exemplo, os registros relacionados à cerâmica tratam de períodos recentes e mesmo assim através de citações. De outro lado, no artigo História Nativa do Acre, publicado na revista Povos do Acre, editada pela Secretaria de Comunicação do governo do Estado, Marcos Vinicius diz que “a presença de duas distintas tradições ceramistas nos dois maiores vales acreanos parece indicar que a diferenciação histórica e cultural da população dos vales do Juruá e Purus é mais antiga do que se pensava”. Nessa dissertação, Vinicius remove a possibilidade de relação entre as tradições até agora identificadas com os sítios arqueológicos em estrutura de terra, os geoglifos, localizados principalmente na região do Alto Acre. “Entretanto, nem todos os sítios arqueológicos já localizados no Acre estão classificados numa dessas duas tradições ceramistas, podendo ser identificadas ainda outras tradições pré-históricas na região”, completa Vinicius em História Nativa do Acre. Pioneiro na pesquisa arqueológica do Acre, o professor Ondemar Dias publicou em 1988, em parceria com Eliana Carvalho, o artigo As Estruturas de Terra na Arqueologia do Acre. Nele, Dias cita as duas tradições e apresenta conclusões sobre a Quinari: “A Tradição Quinari é integrada pelas fases Iquiri, Xapuri, Iaco e Quinari. De uma maneira ampla, os sítios são pequenos, com reduzido material, camada ocupacional pouco espessa ou inexistente preferencialmente na floresta que cobre a maior parte do Estado. As Fases Quinari e Iquiri têm sítios de campo aberto. Apresentam pouca decoração, ocorrendo na última, e presença de vasos ‘caretas’ (em forma de rostos, antropomorfos). Embora as formas variem, o padrão diagnóstico é o do vaso que lembra um cilindro inserido num globo. A Fase Iaco apresenta vasos desse tipo, de grande porte, com enterramentos secundários em plena floresta. As estruturas estão predominantemente vinculadas à Fase Quinari, mas pudemos observar uma delas na Fase Iaco e outra na Fase Xapuri. Esta última é a que apresenta menor quantidade de material e formas menos típicas”, diz. Relação com Llano de Mojos e influência do pano e aruak Pioneiro no estudo dos sítios arqueológicos do Acre, Ondemar Dias trabalha atualmente no Rio de Janeiro, no Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). Pelo telefone desde Florianópolis (SC), onde participa de um congresso de sua classe, Dias anunciou o lançamento de um livro que completa as informações já veiculadas sobre as tradições ceramistas no Estado. “Os sítios podem ter relação com pano ou aruak. Mas estes são grupos lingüísticos”, disse. “Se quisermos conhecer nossa história, temos de conhecer esses vestígios”, diz historiador Para Marcos Vinicius, os vestígios arqueológicos são algo como um contêiner da história acreana. Conhecê-los melhor, diz Vinicius, é fundamental para ampliar o conhecimento da história desta parte da Amazônia. Vinicius preside a Fundação Garibaldi Brasil, responsável, em nível de Rio Branco, pela política de cultura do município, e conhece e acompanha de modo sistemático os trabalhos que envolvem aspectos históricos do Acre. “Esses vestígios são o nosso livro de história”, disse Vinicius. Há estudos em andamento em relação aos sítios em estrutura de terra. Estão sendo desenvolvidos por meio de uma ampla parceria que envolve os governos federal e estadual, as universidades Federal do Acre (Ufac) e de Helsinque (Finlândia) e o Museu Emílio Goeldi. Nas escavações realizadas este ano, os cientistas coletaram materiais cerâmicos e de carvão que serão analisados pela Ufac. |
|
|
|
|
|
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
| |
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE 20 |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |