OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

Correspondência XV – Comungar

Rio Branco, 02 de dezembro de 2005.

Meu Querido
Padre Asfuri

Peço licença para enviar-lhe esse depoimento, espero que o encontre com disposição para lê-lo. Um abraço. Ao mesmo tempo, peço permissão para compartilhar com os amigos leitores, essas maus traçadas linhas:

Lá pela metade da celebração, desce do elevado o pecador homem para abraçar alguns outros pecadores, mulheres e homens que cá em baixo acompanhavam centrados os gestos e as palavras daquele senhor. As palavras brotavam da leitura de um livrão (o maior livro de histórias humanas). Em diferentes momentos as palavras eram entoadas e repetidas. Um grupo de músicos e cantores sustentava a melodia e claro, o tom. Eu, esforçado para encontrar minha quietude, observava e me inscrevia naquele ritual de bênçãos. O homem aos abraços com os do caminho se aproximava do banco onde ficava meu lugar. Veio com o corpo aberto e alma também, a expressão de sorriso e o coração à mostra. Esse ser celebrante, que à distância, meu estado já era de espera, chegou e me abraçou com tal graça que num instante acordei, em mim o forte sentido de estar em Deus. Foi um abraço apertado de amor compartilhado. Depois retornou ao plano elevado e continuou a cerimônia. Aí fui para a fila da comunhão. Eu, repleto de pecados e sem me confessar ali na fila para ganhar esse outro corpo que me vinha por meio da hóstia. Uma mão desconhecida me estendeu esse pão para comemorar esse instantâneo da criatura com Deus Criador. “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa, mas direi uma só palavra e minha alma será salva”. Pois meus amigos leitores, comunguei sem me confessar. Ampliei meus pecados no amor. É que domingo passado fui à missa na Catedral Nossa Senhora de Nazaré e o celebrante era o Padre Asfuri, também pecador, porque não o vi na fila do confessionário. Mas que grande pregador ele é, não é? Sim é essa pessoa que celebra a vida e compartilha Deus. Amém. Saí da igreja pronunciando um poema de Gregório de Matos (1623 – 1696).

Pequei Senhor...

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
da vossa clemência me despido;
porque quanto mais tenho delinqüido,
vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos, irar tanto um pecado,
a abrandar-vos sobeja um só gemido;
que a mesma culpa, que vos há ofendido,
vos tem para um perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada,
glória tal e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na sacra história,
eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

* Contador de História

comungar
[Do lat. communicare, por via popular.]
Verbo transitivo direto
1.Administrar a comunhão (2) a:
O sacerdote comungou os fiéis.
2.Receber ou tomar em comunhão:
Contrito, comungou a hóstia.
Verbo intransitivo
3.Receber ou tomar a Eucaristia:
“queria confessar-se e comungar, tinha medo de morrer em pecado” (Coelho Neto, Sertão, p. 330).
Verbo transitivo indireto
4.Pertencer a grupo ou sociedade que tem as mesmas idéias religiosas, políticas, literárias, científicas, etc.:
Sempre comungou no Partido Liberal.
5.Tomar parte em; participar:
Comunga nos ideais da liberdade.
6.Pôr-se ou ficar em contato; ligar-se, unir-se, comunicar-se:
(Dicionário Aurélio)

 

 
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Rio Branco-AC, 4 de dezembro de 2005
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Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
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