| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
Por uma história cultural |
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Na primeira parte de seu texto, publicada hoje, ele nos fala sobre a importância histórica e cultural do uso das “plantas de poder” no mundo Terra, que por aqui costumamos chamar, mais apropriadamente, de Planeta Água. No próximo domingo, embora eu já esteja em Tarauacá participando da primeira oficina de etnozoneamento da Terra Indígena Igarapé do Caucho, dos nossos amigos e parentes Kaxinawá, junto com o antropólogo Ney Maciel e a colega Marília Guerreiro, do IMAC, Wladimyr Sena concluirá o seu interessante artigo, discutindo dois livros recentemente publicados, que abordam esse importante tema de “plantas sagradas”. Tratam-se das obras O Uso Ritual de Plantas de Poder, organizado por Beatriz Labate e Sandra Lúcia Goulart, e A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos, também de autoria de Bia Labate, como a antropóloga é carinhosamente chamada por seus inúmeros amigos e colegas. De acordo com Wladimyr, esses dois livros constituem marcos importantes na literatura especializada sobre um assunto que tem crescido a cada dia no país e no exterior. Com a palavra, hoje e no próximo domingo, o mestre acreano das “plantas de poder”. Wladimyr seja bem-vindo ao papo! (Txai Terri). Wladimyr Sena Araújo Antônio Escohotado, em sua obra intitulada História Cultural de Las Drogas, chama a atenção para uma área bastante rica em pesquisas e que ainda é quase desconhecida no âmbito da História. Segundo ele, há milênios o homem usa “plantas de poder” com o fito festivo, terapêutico e sacramental. A discussão, portanto, é antiga e matizada por conceitos e, em muitos casos, estereótipos sobre o assunto. O fato é que não chegamos a um consenso acerca de “droga” e, na maioria das vezes, direcionamos a discussão para aquilo que foge ao suposto “grau da normalidade”, pela qual também não conseguimos definir, tampouco mensurar. Muitas substâncias usadas no mundo contemporâneo já tinham importância sacra muito antes da era cristã, seja na região da Grécia, Egito, Mesopotâmia, Irã e Índia, seja no continente americano. Atualmente, o uso de enteógenos pode ser encontrado desde a Sibéria, passando pela Índia, Europa, Indonésia, Polinésia, África e América (Carneiro, 1994: 18). O Egito, por exemplo, era bastante rico na arte de perfumaria e farmácia. As ervas conhecidas por eles eram aplicadas na religião, saúde e higiene. As plantas, portanto, possibilitavam o equilíbrio do corpo e da mente. Muitas delas eram preparadas por sacerdotes que entoavam cânticos e liam fórmulas para seus discípulos. As preferidas eram aquelas de características aromáticas, uma vez que acreditavam que os aromas afastavam espíritos causadores de enfermidades (Fróes, 1997: 12). Na China, existia também uma medicina tradicional baseada no forte poder curativo de folhas, cascas de árvores, raízes e cipós. Neste sentido, catalogaram cerca de 350 espécies de plantas e formaram uma farmácia com aproximadamente mil vegetais. Segundo alguns pesquisadores, os assírios, babilônios, fenícios e árabes também conheciam plantas de caráter curativo (cerca de 250), assim como diversos modos de aplicação (Fróes, 1997: 12 e 13). As substâncias que ampliavam o estado de consciência eram usadas de várias formas. Podiam ser inaladas, bebidas, fumadas ou até mesmo mascadas. A maioria delas estava relacionada a um caráter sacramental e coletivo (Dobkin de Rios, 1972: 19). Schultz e Hofmann (s/d), na obra Plantas de los Dioses – origenes del uso de los alucinógenos traçam uma geografia das plantas de poder pelos vários continentes do mundo. Na África, por exemplo, a mais utilizada é a iboga, consumida no Gabão e em partes do Congo no culto Bwiti. Além desta, mencionam outras duas plantas dos deuses. Na Ásia, existe também inúmeros psicoativos apreciados por culturas locais sendo que os principais são a Cannabis sativa e o cogumelo Amanita muscaria. No caso de outras regiões, como é o caso da Papua Nova Guiné, os autores mencionam o uso da raiz de uma planta ligada à família do gengibre. Na Europa, segundo esses mencionados pesquisadores, algumas plantas atacavam o sistema nervoso, causando convulsões e alucinações. Foram então relacionadas a atos de bruxaria e adivinhação, condenados posteriormente pelo cristianismo através da Igreja Católica. No continente americano, o México e a América do Sul são os lugares mais ricos em variedades de alucinógenos. No território mexicano, por exemplo, é encontrada uma infinidade de cogumelos usados de forma sagrada, como o cacto peyote, tido como o alucinógeno mais sagrado daquela região. O peyote foi usado de forma cerimonial pelos Aztecas há aproximadamente 300 anos antes de Cristo. Hoje, é consumido por nada menos do que 50 mil índios da Igreja Indígena da América do Norte. No mesmo caminho, está uma variedade de semente de ipoméia chamada ololiuqui e o teonanacatl, cogumelos mexicanos que representam a “carne dos deuses” (Pahnke, 1993: 212). No continente sul-americano, a ayahuasca encontra lugar de destaque, uma vez que é consumida ritualmente por índios, vegetalistas além de religiões e grupos urbanos. Destacamos ainda a jurema do nordeste brasileiro, que está associada ao consumo de povos indígenas, assim como de cultos afros que tem o nome da substância. Há ainda o cacto São Pedro (comum nos países andinos, sobretudo no Peru e Bolívia), vários tipos de rapé manipulados por povos indígenas amazônicos, além de várias sementes psicoativas usadas por populações tradicionais (Schultes e Hofmann, s/d: 30). Os povos respeitaram, em períodos históricos diversos, as plantas sagradas, pois elas tinham o poder de produzir visões e fazer com que o homem compreendesse o mundo e a si mesmo e a outros mundos e a sua alma. Portanto, era a consagração do mundo ordinário e extraordinário. O historiador Henrique Carneiro, em 1994, demonstrou de maneira bastante clara que o proibicionismo do uso de drogas se deu com o advento do cristianismo, mas que sempre houve uma necessidade do ser humano em usá-las, seja com fins terapêuticos e espirituais, ou por mero prazer. Verifica-se, então, que na Antiguidade os enteógenos não eram proibidos. A recomendação era a de que houvesse uma moderação no seu consumo. Logo, o aspecto negativo consistia no abuso das mesmas. Isso acontecia também com a gula e com o sexo em demasia. Para o referido autor foi com o advento do cristianismo que houve a proibição do uso de plantas sagradas. Considerado na Europa como uma bruxaria, o uso de enteógenos era visto como uma heresia. Para Santo Isidoro, a palavra vem de o verbo eleger (eligo), tendo o equivalente de elesis, sendo oriundo, portanto, eleição. Logo, a palavra eleitor estava associada ao herético (electivus, haereticus), no sentido de que o herético elege uma falsa doutrina, contrariando os princípios do cristianismo. Logo, desde os primórdios da formação da religião Católica, os focos psicoativos foram perseguidos pela Igreja, tendo como um dos resultados a destruição de documentos escritos com fórmulas farmacológicas e perseguição aqueles que faziam uso de tais manuscritos (Escohotado, 1990: 230). Os dogmas da Igreja Católica, defendidos pela Santa Inquisição, fizeram com que muitos filósofos, alquimistas e curandeiros fossem perseguidos e levados à fogueira, uma vez que a visão alquímica era sinônimo de bruxaria. (Fróes, 1997: 14). No Renascimento, com o deslocamento do teocentrismo para o antropocentrismo, e com as conquistas marítimas, o encontro do europeu com o OUTRO distante de seu continente, houve o contato com culturas diferentes e com psicoativos usados pelos grupos conquistados. Na verdade, a pesquisa científica tomou o rumo da experimentação. Exemplo disso é o de Nicholas Lemery. Este médico escreveu o seu Dictionaire des Drogues Simples, em um período que Luís XIV era monarca da França. No século XVI várias espécies vegetais foram levadas das colônias para a Europa e um dos casos mais conhecidos ocorreu com as chamadas drogas do sertão, ou produtos vegetais da região amazônica. Uma das primeiras descrições desses produtos foi feita pelo Frei Gaspar de Carvajal, que acompanhou a expedição de Francisco Orelana ao longo do rio Amazonas. As drogas do sertão foram também um dos motivos de ocupação de parte do território brasileiro, uma vez que continuou a ser explorada por todo o período colonial. Destacaram-se as plantas que serviam para a farmácia e condimentos alimentares, como a canela, o cravo, o cacau, a salsaparrilha, o urucum, a pimenta e, especialmente, o guaraná, que era considerado um estimulante (Azevedo, 1999: 163). É importante salientar que este tipo de atividade incentivou a escravidão indígena e, consequentemente, abriu portas para as missões religiosas ao longo da região, principalmente no século XVII. Nesse período destaca-se o médico conhecido por Paracelso. Segundo Fróes, a medicina natural deve muito a esse médico suíço. Para ela esse pesquisador foi o primeiro a notar que os venenos, se usados em doses moderadas, poderiam atuar como remédios. Em países que iniciaram o processo de expansão marítima, como no caso de Portugal no século XVI, boticários eram enviados às Colônias com o objetivo de reconhecer ervas medicinais. O ópio passa a ser difundido em maior escala no século XVII, quando é usado como remédio na Europa. Desde então, passou a ser recomendado por médicos no tratamento de enfermidades, principalmente no combate a dor. No entanto, havia certo pânico acerca dessa substância provocado pela influência da Igreja Católica. Nos séculos seguintes, outras plantas continuaram sendo exportadas para a Europa, como foi o caso do tabaco que teve grande aceitação e apreciação do ilustre ao plebeu europeu. O século XIX, por sua vez, é notadamente marcado pelas experiências em laboratórios. Os cientistas passaram a descobrir vários princípios ativos das plantas tais como a penicilina e a aspirina (Fróes, 1997: 16). Eram os chamados progressos farmacológicos e, neste sentido, começam a ser separados a codeína (1832), a atropina (1833), a cafeína (1841), a cocaína (1860), a heroína (1874) e a mescalina (1888). É justamente na virada para o século XX que surge a etnobotânica como ramo específico da farmacologia. O seu início se dá com os trabalhos de E. F. Von Briba (1806-78), famoso pesquisador de plantas em vários continentes. Houve ainda investigações acerca de cogumelos por parte de M. Cooke (1825-1913) e Hartwich (1851-1917), que estudou mais de trinta plantas psicoativas espalhadas pelo mundo (idem, 45). Para o historiador Henrique Carneiro (1999), o estudo do farmacologista alemão Ludwig Lewin, no início do século XX, demonstra que o consumo de substâncias psicoativas faz parte da condição humana em todos os países e em todos os tempos. Essa ubiqüidade das drogas, em diversos períodos históricos e culturas, permite supor que o consumo de substâncias “alteradoras de consciência” faz parte da condição humana, que sempre buscou meios para interferir quimicamente no psiquismo. Essa também é a conclusão do médico Andrew Weil, ao afirmar que “o desejo de alterar periodicamente a consciência é um impulso inato, normal, análogo à fome ou ao impulso sexual”, citado em Peter Furst (1980). As regras sociais que disciplinam esses impulsos, como o uso do álcool e outras substâncias psicoativas, são investigadas pela história da normatização das drogas. É evidente que existem alguns efeitos relacionados às plantas psicoativas. Muitas delas produzem a midríase (aumento da pupila) e a taquicardia. Há também uma relação psíquica decorrente da experiência enteogênica. Todavia, muitos grupos fazem uso dessas plantas de forma controlada e ritualística, o que ordena a experiência extática a um conjunto de regras fundamentais para a ingestão. Essas regras podem ser percebidas nos grupos usuários de ayahuasca (a nível urbano, rural ou indígena), e aqueles que consomem outras plantas sagradas, tais como os cactos san pedro e peyote, a iboga africana, ou mesmo o ópio da China. Nas filosofias e religiões orientais a busca pelo equilíbrio é de fundamental importância para o crescimento material e espiritual do ser humano. Buda buscou o nirvana para alcançar o equilíbrio perfeito. No caso das plantas de poder é preciso saber usá-las para extrair também a sua sabedoria. Portanto, a velha tese da moderação grega talvez nos aponte o caminho de que a droga, termo tão confuso no mundo contemporâneo, tenha uma conotação de abuso, excesso e falta de cuidado com a substância e consigo mesmo, uma verdadeira dessacralização do eu fomentada pela falta de ponderação do uso, uma vez que a tudo se pode, entretanto, não podemos tudo. Em muitos casos, as drogas são associadas ao possível efeito de dependência, visão clínica que tenta separar o lícito do ilícito. Por ironia do destino, o índice de acidentes de carro, causado pelo uso abusivo do álcool, é imenso. No mesmo caminho, as clínicas de emagrecimento e os SPA ganham fortuna ao tratar da obesidade, causada por uma série de fatores, dentre eles o consumo exagerado de açúcar e demais substâncias que provocam o aumento de peso, com conseqüências nefastas à saúde humana. O cigarro também é considerado um risco à saúde, uma vez que contém nicotina que, usada em altas dosagens, produz câncer. Estas supostas “drogas” são perfeitamente legitimadas pelas sociedades ocidentais que, em contrapartida, proíbem outras, as consideradas “tradicionais”, tais como, as plantas de poder em determinados locais do globo. O que queremos evidenciar é que a história da humanidade sempre esteve associada ao consumo de fármacos e plantas de poder. Para o antropólogo Edward MacRae, as plantas sagradas estão colocadas a serviço da comunidade, não possuem um caráter anti-social e representam um elo entre o universo profano e o sagrado. É uma das formas pelas quais os homens penetram no mundo dos espíritos e no conhecimento esotérico. Segundo ele, negar o uso de plantas de poder em um grupo cultural “é o mesmo que negar a validade a um enorme e diversificado conjunto de crenças culturais, pelo simples fato de não partilharmos tais crenças. E, essa tem sido sempre a primeira reação que parte do senso comum, contaminando certas abordagens que trazem, mesmo de forma dissimulada, a marca da visão etnocêntrica” (MacRae, 1999: 31-32). Estudá-las constitui uma proposta nova de perceber que é possível uma História Cultural de Plantas de Poder. Uma pesquisa como esta demonstra à importância metodológica que a antropologia nos dá sobre temas não trabalhados no cotidiano de outras disciplinas, dentre elas a história. Este novo objeto pensado sob a ótica da História Cultural tem como conceito fundamental a representação (Hunt, 16-18). Este novo olhar, por assim dizer trouxe um desenvolvimento à historiografia e, com ele, ao “mundo como representação” ( Rioux, s/d). Para trabalhar com as representações do mundo social é preciso demonstrar de que forma elas foram construídas pelo grupo estudado (Chartier, 1990:17). Portanto, as representações devem ser encaradas como construções culturais que estão sujeitas as modificações no tempo e no espaço. Destacamos que a representação torna-se apenas um dos campos da História Cultural e pode ser encontrado em trabalhos que envolvem literatura, artes, espaço arquitetônico, ritual, mito, danças e cantos, dentre outros. Compete-nos a interpretação dessas experiências à luz do presente e, para isso, se vale da análise acerca das representações ou, na concepção de Roger Chartier, do “mundo das representações”, que envolve expressões do sensível. Finalmente, é importante frisar que existem duas classes dessas plantas: as de caráter alucinógenos e outras que não têm as características indutoras de estados ampliados de consciência. Neste caso, é a primeira que nos interessa, lembrando que o campo de pesquisas é fértil, salientando apenas que as benzedeiras espalhadas pelo mundo conhecem uma série de ervas e as utilizam de forma sagrada. Essas plantas, apesar de não terem propriedades alucinógenas, tornam-se instrumentos entre a realidade ordinária e mundos extraordinários. No próximo domingo continuaremos a falar das plantas de poder em um novo papo. |
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