OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Borbulhas de Amor

Luiz Ivan e Wagner Bartholo, dois amigos, grandes intérpretes da MPB e craques de violão. Um, flamenguista contido, acostumado a vitórias e títulos, num passado distante, é claro. Outro, palmeirense agitado, tão empolgado que parece ter conquistado o Derek para a turma do Porco, ao menos até o próximo título do Vascão. O Luiz, meu compadre, ainda integra a divisão de acesso para os melhores tabuleiros de dominó. Como todos sabem, a praia do Luiz é a interpretação, onde ele é mestre nos mais diversos ritmos e estilos. No dominó, destaca-se o Cangula, gargalhada larga e alta, nas várias vitórias dos fins de semana no Papagaio ou na Rai. É fato que as conquistas só são constantes quando ele joga com um certo parceiro, especialista nesse esporte de raciocínio.

Ambos são apreciadores de um chope, pra distrair. Às sextas, o destino é o Varanda’s do Paulão. Às vezes, a choperia Maria Farinha, onde o som fica por conta do excelente Jamys, vindo lá do Juruá, reduto dos Nauas. E dessa vez, há algum tempo, foi assim. Vários chopes, muita conversa fiada, alegre, fala-se de tudo, quem chega é bem-vindo. Os dois, invariavelmente, dão canja. É unânime a espera da galera pelos acordes e vocais do Manos e do Compadre, também conhecido como o Homem Cheio de Compromissos. Aquele explorando Djavan, Chico e outras feras. O Seu de Anco, com boleros, falsetes e o estilo inconfundível. Às vezes, eles se juntam e o dueto é da melhor qualidade, gerando aplausos e inúmeros pedidos de bis.

Vale registrar que os dois são bons de papo, conversadores hábeis, contadores de episódios e façanhas que protagonizam. Protagonizam e, em geral, se dão bem. São viajados e espertos. “Meia dúzia de três ou quatro” chopes e a prosa rola solta, mas, com eles, é papo sério. Não se racham, só dividem pra ganhar. O Açú, como também é conhecido o grande Cangula, assegura que não é “de capinar sentado”. O 38/39, outro nome dado ao meu compadre, diz que com ele não tem conversa mole e que o negócio é labutar.

Em uma dessas sextas, após o dominó e uma sessão prévia de violão lá no Papagaio, a grande turma foi ao encontro do chope, da boa música, da conversa farta. Corria a excelente viola do Jamys. Chegando separados, o Luiz ficou em uma mesa e o Wagner em outra, com conhecidos e um novato, baixinho e falante, adequado ao estilo do Rolando Lero. Na mesa de cá, o compadre seguia contando suas viagens sindicais, Brasil afora, além do costumeiro papo sobre música, que é com ele mesmo. Na mesa dos Rolandos, o Wagner não parava de ouvir o baixinho e, de longe, parecia que estava muito impressionado com a conversa.

Correndo a noite, o Açu veio ao nosso encontro e falou direto com o Homem Cheio de Compromissos: “Luiz, tu precisas conhecer um cara que está ali na minha mesa. É fera da MPB. Foi ele quem compôs, com o Fagner, aquela música Borbulhas de Amor. Vamos lá, rapaz!”. Meu compadre levantou, rápido e decidido, sem tempo para ouvir quando eu lhe disse que aquilo não poderia ser verdade. É impossível, eu disse. O Manos, que sequer havia me comunicado a boa nova, não notou, eufórico, que eu havia dito algo. O Luiz, com pressa de conhecer tal “ fera”, ávido para trocar idéias sobre música e, quem sabe, formar ali uma nova parceria, deixou o compadre falando só. O que se viu, então, foi uma longa conversa entre os três, com destaque para o baixinho, que monopolizava a palavra e as atenções.

Corria a noite. O Wagner foi cantar, dar sua canja, ofereceu músicas ao novato, pediu palmas, dizendo que aquele cearense era um grande compositor da MPB. O Luiz foi cantar, também fez dedicatórias ao baixinho cearense. O Manos e o 38/39 tentaram levar o “fera” ao microfone mas ele sempre recusava.

Corria a noite. O Luiz voltou para a mesa, impressionado e chegou afirmando: “Compadre, esse cara é bom demais!”. Sentou-se, olhando para trás, como quem queria voltar para a companhia do novato.

Restava-me a missão de desencantar o compadre. Com jeito, mas de modo que ele ouvisse bem, afirmei que aquilo não poderia ser verdade. Que era impossível aquele baixinho ser parceiro do Fagner na autoria de Borbulhas de Amor, pelo simples fato de tal música não ser do Fagner, nem de outro brasileiro. Com mais jeito, disse ao compadre que Borbulhas de Amor foi feita em espanhol e a versão mais conhecida, gravada pelo Fagner, é do Ferreira Gullar, não havendo “a menor possibilidade” de o novato ser seu autor, muito menos em parceria com o Fagner.

O compadre, que agora é dirigente sindicalista em Brasília, descortinou aaquela noite e os fatos, quase perdeu a postura. Contudo, “para não perder de tudo”, com a rapidez peculiar e de forma enfática, verberou: “Foi isso que eu terminei de dizer para o Cangula. É claro que eu já sabia!”.

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de fevereiro de 2006
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