OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Na linha do estômago

São coisas que só Deus explica. Um menino arteiro, de dois anos, pulou a janela alta, caiu na calçada, massageou a cabeça e, nu em pêlo, foi rumo ao porto onde o pai era estivador amazônico carregando nas costas a história da minha terra. Ah, o Mota!

E jamais pararia por aí... Dias depois, fomos nós - eu, minha mãe e ele - à casa de uma modista de quem não me ocorre agora o nome. Nós, crianças, ficamos sentados à porta vendo o movimento da rua principal. Eu, o mais velho, descuidei-me por um ou dois segundos e, num piscar de olhos, veio um sujeito e levou o Motinha pela mão. O resgate ocorreu horas mais tarde, obra de um tio pedreiro, já falecido, que voltava do trabalho e os encontrou já na saída da cidade rumo ao Seringal São João do Caramanu, na Bolívia. Escapou fedendo!

Estudar não era exatamente o forte. O garoto fugia para ver o rio, fugia para tomar banho num igarapé próximo ao cemitério, e fugia para jogar bola, à tardinha, ao que a avó matriarca cearense sempre o brindava com umas boas chicotadas pelo mal-feito.

É preciso deixar muito claro que o Motinha, meu irmão do meio da confusão de crianças lá de casa, nunca foi exatamente um gênio com a bola nos pés. Não. Ele fica longe de um Nilton Santos ou de um Falcão, por exemplo. Era, sim, um virtuose da pancadaria. Quase um maestro que, ao invés de usar a batuta para reger a orchestra, porta um martelo com a elegância de um jogador de beisebol. Agredia e era agredido. Mas não era nenhum perna de pau. Jogava muito mais que a maioria dos que se diziam jogadores de futebol no Acre da década de 1980. Ainda é melhor, hoje e antes, que alguns medalhões que o Francisco Dandão acolheu na coluna Memorial do Craque, de boa memória.

Eu gostava de vê-lo jogando, muito embora, às vezes, ficasse temeroso ante a frieza com que o garoto mordia calcanhares e panturrilhas. A marcação era duríssima. Fã incondicional da pegada do Chicão, aquele bigodudo que jogou no Santos Futebol Clube há algum tempo, não dividia para perder.

Todavia, tinha - e tem - um domínio de bola impecável, uma visão de jogo como poucos. Atua sempre de cabeça erguida, olhos de águia. O passe é feijão com arroz, mas milimétrico, sem trivela, sem firula. Bate fortíssimo só com a direita. Tem pernas e braços curtos de lutador de boxe. No mais das vezes, mira na linha do estômago do adversário como se estivesse a usar binóculos. Em rapazola, dispunha de um fôlego dito de sete gatos e, acima de tudo, ainda é um cara metido a bacana que, antes, usava esvoaçantes cabelos estilo pipoca, sempre arrumadinhos de modo a deslumbrar o belo sexo, segundo ele próprio o afirma.

De Xapuri, há trinta anos - janeiro de 1976 - viemos para Rio Branco. Nos primeiros dias, pela manhã, procurávamos emprego. À tarde, íamos com uma rapaziada da Cadeia Velha, onde morávamos, para o campinho do Seu Domingos, na Seis de Agosto, onde treinávamos no Andirá, sob o comando de uma figura simpaticíssima, criador de galos nas horas vagas, que ainda atende pelo nome de José Américo.

Saí cedo do trabalho na Ufac e lá fui ver. Corria o ano de 1978. Era verão. O bom Campos Pereira, então, resolveu convocar o Mota para a seleção acreana de juvenis, mas esqueceu de dizer que no primeiro dia haveria apenas um leve treino. Errou. Ao invés de colocá-lo na cabeça da área, ou de avante, colocou-o na lateral esquerda, mesmo sabendo que o garoto era destro. Em dez minutos, o Motinha foi expulso pelo técnico porque havia jogado o Batatinha, ponta-direita hábil, duas vezes contra o alambrado do José de Melo. Dureza! Depois, a rapaziada do Acre perdeu para os rondonienses e o Mota, aos dezessete anos, encarou os microfones da Rádio Novo Andirá e esbravejou: “Faltou levar macho; na hora do pega-pra-capar o pessoal daqui correu do pau. Uma merda!”.

Passados alguns dias, as necessidades prementes nos empurraram no rumo da construção civil, para trabalhar como peões de obra da Construtora Arco. Meses depois, as coisas melhoraram.

Mas não havia como progredir no mundo da bola. Também, pudera! Eu e o Marcos, nosso outro irmão, assumimos as responsabilidades pelo sustento da família e fizemos ver ao Mota que era preciso trabalhar muito mais. Ele não abraçou a idéia com tanto gosto, mas, mesmo assim, findou contratado, inicialmente, pela desaparecida Caderneta de Poupança Aruaque e, depois, pela Vasp Rio Branco, à época capitaneada por Sebastião Alencar, ex-quase-tudo do Rio Branco Football Club.

E dizem que o medo de perder é que tira a vontade de ganhar. O Motinha nunca pensou em ser derrotado. Mesmo uma peladinha fútil, no campo da Embrapa ou do Senai, ainda lhe mexe os brios de guerreiro metido a macho. Vai em todas mordendo e, às vezes, com os cotovelos à flor da pele, direto na tromba do afoito marcador. E aí? Qual é? Vai encarar? Quer entrar numa?

É por estas estradas da vida que ainda hoje seguem as aventuras do Motinha no mundo da bola.

* Cronista (www.claudioxapuri.blog.uol.com.br)

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de março de 2006
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