ESPECIAL
   ENTREVISTA

Universidade da Floresta

Grande concorrência por vagas comprova que população há muito esperava por essa conquista

Cedida
Deputado federal Henrique Afonso
é um dos idealizadores da Uniflora


Rosimeire de Castro Correia
(colaborou Flaviano Schneider)

A realização, hoje e amanhã, do vestibular da Universidade Federal do Acre em Cruzeiro do Sul é a materialização do tão sonhado projeto da Universidade da Floresta.

Cerca de 3 mil estudantes se inscreveram para concorrer às vagas oferecidas nos cursos que já existiam - Pedagogia e Letras - e às 145 vagas dos novos cursos de Enfermagem, Biologia e Engenharia Florestal. A grande concorrência por vagas comprova que a população do Juruá, principalmente a juventude, estava há anos com expectativa dessa conquista.

Nos dias 20 a 23 deste mês, estarão acontecendo em Cruzeiro do Sul um fórum da sociedade civil e um novo encontro do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para debater e encaminhar sobre novos cursos e próximos passos para a Universidade da Floresta. De acordo com o MEC e a Ufac, em julho poderão ser criados mais dois cursos de graduação e será definido concurso com dez novas vagas para professores.

Luta começou há três anos

No mês de março o presidente Lula poderá vir ao Acre mais uma vez, desta feita para inaugurar a Universidade da Floresta. Surgida do anseio popular, externado por variados segmentos, a Universidade da floresta surgiu como proposta durante o seminário “A Universidade do Século XXI na Floresta do Alto Juruá”, em outubro de 2003, em Cruzeiro do Sul. O evento teve a participação de cerca de 80 instituições como universidades, institutos de pesquisa, ongs, movimentos sociais, parlamentares e técnicos dos governos estadual e federal.

O projeto foi abraçado pelos ministérios da Educação, do Meio Ambiente e o da Ciência e Tecnologia. Em maio de 2005 foi constituído um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para articular ações dos governos federal, estadual e municipal, elaborar diretrizes e estruturar a instituição.

Na Unifloresta os alunos atuarão em projetos de ensino e pesquisa no instituto da Biodiversidade (IBD) e no Centro de Formação e Tecnologia da Floresta (Ceflora), dois componentes institucionais da instituição. Até 2008, a Universidade da Floresta deverá contar com outros sete cursos, ainda a serem definidos e um quadro de 130 docentes e 1,2 mil alunos.

O professor e deputado federal Henrique Afonso avalia como fundamental a inclusão dos movimentos sociais na implantação da Universidade da Floresta e naquilo que advirá dela que é a produção de conhecimento. Além de se valorizar as diversas formas de conhecimento tradicional e a partir do estudo científico deles produzir novos conceitos e soluções para o desenvolvimento da região de floresta, o que se pretende também é possibilitar o livre acesso à informação técnica científica e aos principais debates técnicos contemporâneos.

Com muita luta, a Universidade da Floresta, que tem três componentes, Ceflora, Instituto de Biodiversidade e Campus Ufac-Floresta, já obteve muitas conquistas: R$ 9,5 milhões de investimento garantidos até 2008; Início dos cursos do Ceflora no final de 2005; Pavimentação, eletrificação, telefonia e reforma novo Campus; Três novos cursos no primeiro semestre de 2006; Vestibular neste mês de fevereiro; Até 2008, a Ufac – Floresta irá atender 1.600 alunos em 12 cursos; Nove projetos de pesquisa sobre biodiversidade como, coleções biológicas, monitoramento ambiental e manejo de sementes, iniciam em 2006.

Cursos pofissionalizantes em várias áreas

O Ceflora é um dos integrantes da Universidade da Floresta e começou a funcionar em novembro de 2005, com cursos profissionalizantes para jovens. Quando todos os laboratórios estiverem montados, serão ministrados cursos nas áreas de eletroeletrônica, eletromecânica, tecnologia alimentar, extração de óleos vegetais, saúde, dentre outros. Os laboratórios de física, química e biologia darão suporte para professores e alunos das escolas de ensino fundamental e médio. O deputado Henrique Afonso conseguiu R$ 650 mil junto ao Ministério de Ciência e Tecnologia para viabilizar os primeiros passos.

A obra de ampliação e reforma do Campus UFAC-Floresta no Canela Fina iniciou ainda em dezembro de 2005. O MEC disponibilizou R$ 3.500.000,00 (três milhões e quinhentos mil reais) para obras, mobiliário e equipamentos. A parceria entre Governo do Estado, Ufac/MEC, Eletroacre e Brasil Telecom, garantiu o asfaltamento da via de acesso à UFAC-Floresta (Canela Fina), a eletrificação e telefonia do novo Campus.

O Instituto da Biodiversidade iniciará a partir fevereiro, com nove projetos de pesquisa, graças à emenda de R$ 560 mil reais que o deputado Henrique Afonso colocou no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e que já foi repassado para a Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária no Acre – Fundape/Ufac.

No Instituto da Biodiversidade, os pesquisadores atuarão junto com as comunidades, com professores e alunos do Campus Ufac-Floresta e do Ceflora. Será importante para maior conhecimento da biodiversidade local e para que os conhecimentos que os indígenas e não-indígenas têm sobre a floresta, os animais, as suas culturas sejam respeitadas e valorizadas.

Entrevista – Deputado Henrique Afonso

Para onde vai a Universidade da Floresta?

O senhor considera que a promessa de ajudar a trazer a “Universidade do Século XXI” para a Floresta do Alto Juruá foi cumprida?

Henrique Afonso - Totalmente cumprida. Graças ao apoio do Governo do Acre e do Governo Federal a implantação do projeto Universidade da Floresta foi concluída com grande sucesso, quero dizer que a situação hoje está melhor até do que eu mesmo esperava. A prova disso é que já temos neste ano de 2006 três novos cursos no campus Ufac Floresta em Cruzeiro do Sul: Biologia, Engenharia Florestal e Enfermagem. Isso significa que jovens mestres e doutores formados pelas melhores universidades do Brasil já estão trabalhando no Alto Juruá. Mais algumas dezenas de professores, cerca de 70, serão contratados nos próximos dois anos. As boas notícias não param por aí: até o final deste ano haverá uma consulta popular para definir o perfil de mais sete novos cursos que serão criados em 2007 e 2008. Isso significa que até 2010 nós teremos no campus Floresta da Universidade Federal do Acre 130 professores e mais ou menos 1.200 alunos. O número de vagas vai quadruplicar em quatro anos. E, melhor ainda, esses alunos terão oportunidade de uma formação acadêmica de muita qualidade porque poderão estagiar em projetos de pesquisa do Instituto da Biodiversidade, com orientação de pesquisadores da Ufac, da Unicamp, da Embrapa, da UnB, da UFV e de outras instituições que estão se associando. Aqueles que desejarem uma formação mais voltada para a área de educação também terão uma ótima escola porque está previsto que os alunos de licenciatura participação de atividades de ensino profissionalizante no Centro de Formação e Tecnologia da Floresta, o Ceflora.

Parece existir uma confusão sobre o que é a Universidade da Floresta. Afinal, trata-se ou não de uma nova universidade?

Henrique Afonso – Essa confusão que você nota aí acontece porque o que nós chamamos de “Universidade da Floresta” é, do ponto de vista do Ministério da Educação, a expansão da Universidade Federal do Acre em associação com uma rede, ou rizoma, de outros projetos e instituições. É claro que a Universidade Federal do Acre é um ator-chave no Acre, mas além do campus Ufac Floresta, existem outros dois grandes conectores nesse rizoma da Universidade da Floresta: um deles é o Instituto da Biodiversidade, o outro é o Ceflora, que abrem espaço para formas criativas de participação das populações locais. Precisamos entender que a ‘Universidade da Floresta’ é a realização de um novo conceito de universidade, uma tentativa de gerar novas formas de interação entre organizações da sociedade civil, Academia e Estado. Esse conceito começou a realizar-se quando a ministra Marina Silva garantiu a instituição do grupo de trabalho interministerial como um espaço consultivo e deliberativo do governo federal. O GTI conta com uma representação bastante significativa de organizações da sociedade civil, inclusive com direito a voto. Dessa maneira foi criado um canal formal para o fortalecimento de projetos colaborativos desenvolvidos há muitos anos por instituições da sociedade, como o Conselho Nacional dos Seringueiros, a Comissão Pró-Índio do Acre e instituições de pesquisa. O GTI, que ainda vigora até junho, está definindo um conjunto de políticas públicas estruturantes que irão garantir a ampliação e integração dos três componentes da Universidade da Floresta. Para concluir a resposta: não é uma nova universidade no sentido institucional, pois trata-se de uma rede de instituições e organizações já existentes, mas conceitualmente nós queremos que seja uma nova universidade e assim será.

Como a Universidade pode ajudar a trazer mais desenvolvimento para o Alto Juruá?

Henrique Afonso - A Universidade da Floresta baseia-se no pressuposto de equivalência entre os conhecimentos tradicionais e científicos. Tanto o projeto pedagógico do campus Ufac Floresta como os objetivos do Instituto da Biodiversidade são convergentes com uma política de inclusão científica a partir da participação popular em projetos de ensino e pesquisa, principalmente através do Ceflora e do Instituto da Biodiversidade. Temos que tratar a biodiversidade como questão de Estado. Para isso não basta criarmos políticas científicas que incentivem as instituições de pesquisa a registrarem patentes. Precisamos estabelecer nossos próprios paradigmas: ao garantir a inclusão dos movimentos sociais no processo de produção de conhecimento não somente encontraremos novos conceitos e soluções para o Desenvolvimento, mas iniciaremos a única revolução que de fato podemos implantar em favor da cidadania – o livre acesso à informação técnico-científica e aos principais debates teóricos contemporâneos. Não existe nenhuma fórmula dada para o desenvolvimento, mesmo porque dificilmente as pessoas concordarão sobre o que é “desenvolvimento”. Mas todos têm a noção de que precisamos de avanços no sentido de incluir os produtos da floresta na economia globalizada, que precisamos capitalizar sem diminuir a diversidade, que é nossa principal marca. Esse é o grande desafio para a região do Alto Juruá e, portanto, para a Universidade da Floresta.

Fórum da sociedade civil e reunião do GTI

Nos dias 20 a 23 de fevereiro estará acontecendo em Cruzeiro do Sul um fórum da sociedade civil e um novo encontro do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para debater e encaminhar sobre novos cursos e próximos passos para a Universidade da Floresta.

Dia 20/02 – Local: Teatro Náuas – Cruzeiro do Sul / AC.
19h - Abertura do Fórum da Sociedade Civil com representantes de seringueiros, ribeirinhos, assentados, indígenas, servidores da educação na região do Alto Juruá, com as presenças da Ministra Marina Silva, Representantes do MEC e MCT, Governador Jorge Viana, Representante da Bancada Federal Deputado Henrique Afonso, Reitor da UFAC Jonas Filho, prefeitos do vale do Juruá e representante das instituições parceiras de ensino e pesquisa Mauro Almeida e demais Organizações.
21h – Lançamento livro: O Alto Juruá Acreano: história, povo e natureza - Henrique Afonso/Câmara dos Deputados – Organizador: Mauro Almeida/Unicamp seguida de apresentação cultural;

Dia 21/02 - Local: Centro Diocesano de Treinamento.
8h - Início dos trabalhos do Fórum da Sociedade Civil
Apresentação dos participantes, da proposta de programação, da metodologia dos trabalhos e realização de acordo para o desenvolvimento dos mesmos;
Apresentação dos resultados do III Encontro dos Povos da Floresta, realizado em Cruzeiro do Sul, em setembro de 2005;
Apresentação das propostas curriculares para Campus UFAC-Floresta pela Reitoria da UFAC e professores;
Apresentação das propostas para o Ceflora – Governo do Acre;
Apresentação das propostas para o Instituto da Biodiversidade/IBd – Ufac, MCT e pesquisadores associados;
Apresentação de síntese dos projetos apoiados pelo PPBio;
Esclarecimentos para o desenvolvimento de atividades em grupos, com 15 participantes por grupo. Obs.: a definição dos temas e metodologia está sendo finalizada com os parceiros da sociedade civil no Juruá
12h às 14h – intervalo para almoço
14h - Discussões nos grupos - Elaboração de propostas da sociedade civil
17h - Apresentação do relato dos grupos;
18h30 – Encerramento dos trabalhos do dia;
20h – Espaço livre para intercâmbio de informações e atividades culturais.

Dia 22/02
8h - Discussões / debates sobre os relatos apresentados;
9h - Encaminhamentos para a elaboração/sistematização de documento final para ser apresentado na abertura da reunião do GTI;
14h - Consolidação do documento final do Fórum, que será apresentado no início dos trabalhos do GTI – Universidade da Floresta – 45’;
16h – Apresentação do Documento Final a ser encaminhado ao GTI – 60’;
11hs30 - Encerramento dos trabalhos do Fórum da Sociedade Civil.
12h às 14h – intervalo para almoço

Reunião do GTI – Universidade da Floresta - Programação
(CZS, 22 e 23 de fevereiro de 2006)
Local: Centro Diocesano de Treinamento – CZS/AC.

Dia 22/02
14h - Abertura dos trabalhos do GTI da Universidade da Floresta;
Nivelamento das informações e acordo para o desenvolvimento dos trabalhos (MMA, MEC/Ufac, MCT/IBd e pesquisadores associados, Governo do Acre/Ceflora e representantes da sociedade);
Apresentação das propostas do Fórum da Sociedade Civil (finalizado pela manhã deste dia, em CZS);
Discussões e encaminhamentos;
Esclarecimentos e desenvolvimento de atividades / trabalhos em grupo (a proposta é de que todos os grupos discutam todos os temas);
Proposta de formas diferenciadas de acesso aos cursos do Campus Ufac – Floresta, por parte das populações tradicionais e povos indígenas;
Propostas de novos cursos para o Campus Ufac Floresta e Ceflora;
Propostas para interação entre conhecimentos científicos e conhecimentos tradicionais: Campus UFAC Floresta x Instituto da Biodiversidade x Ceflora;
18h – encerramento dos trabalhos do dia;
Noite – reservada para painéis: UnB (Prof. Mário) e DEA/MMA

Dia 23/02
8h –Apresentação dos Grupos;
Discussões e encaminhamentos;
Construção/apresentação de propostas com respectivos desdobramentos;
10h - Apresentação da proposta de Regimento Interno do Instituto da Biodiversidade - Pró-Reitoria de Pesquisa da Ufac;
Discussões e aprovação do GTI da proposta de Regimento do IBd;
12h - Apresentação dos Projetos de Pesquisa PPBio/Ufac-MCT e pesquisadores associados; Discussões / esclarecimentos sobre os projetos de pesquisa;
14h - Encaminhamento/apresentação de propostas de deliberações para o GTI e de documento final da Reunião;
15h - Encerramento dos trabalhos da Reunião GTI-Universidade da Floresta.

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de março de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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