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Trote solidário ou convencional? Tradição? Brincadeira? Humilhação? Onde começa e onde termina a violência? |
![]() Alunos da Uninorte foram surpreendidos com trote diferente e criativo |
Rachel Moreira Mais um ano escolar se inicia e com ele uma nova fase para milhares de pessoas, que agora, além ter que enfrentar todos os desafios que a universidade representa, têm que aprender também a lidar com a “iniciação” promovida pelos veteranos. Cabelos raspados, caras pintadas, mãos amarradas, pedágios, apelidos e uma série de outras “brincadeirinhas” são características do trote universitário, que fazem parte da rotina de quase todo calouro. Visto como um ritual de passagem e integração dos novos alunos para alguns e como instrumento de segregação para outros, o trote nem sempre teve esse perfil violento. Ele surgiu no Brasil nos anos 60. A princípio era utilizado como forma de contestação social - os calouros eram convidados para manifestações a favor de reformas de base ou em defesa da universidade pública. Por volta de 68, auge da ditadura militar, o trote foi reprimido e houve a degeneração de sua versão cultural para a violência de hoje, segundo historiadores. A cultura, apesar de reprimida por boa parte da sociedade e pela direção das universidades, continua sendo praticada, mas perde espaço dentro do meio estudantil. Os Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs), que apoiavam até bem pouco tempo a prática, optam agora pelo trote solidário. A mudança veio à custa de muita pressão da sociedade civil, após casos recentes em que o trote extrapolou a linha da brincadeira e se tornou uma barbárie (ver matéria nesta página). Para Débora Taumaturgo, integrante da diretoria do DCE do Iesacre, o trote convencional muitas vezes se torna muito pesado e por isso deve-se tomar cuidado para que não extrapole os limites. Estudante do último período de Comunicação Social, ela acredita que as brincadeiras devem continuar a existir, mas desde que sejam feitas com bom senso e sem violência. “Eu acho que devem acontecer brincadeiras, algo que marque a entrada dos alunos na faculdade, mas tem que ser algo saudável. Este ano, por exemplo, nós chegamos dentro da sala de aula como se fôssemos uma equipe de televisão entrevistando os alunos”, conta. Uma prática sadomasoquista Para o pesquisador e psicólogo Antonio Zuin, que estuda o trote no Brasil, a “brincadeira” é uma prática “sadomasoquista”. “A história é a seguinte: se os calouros internalizarem as humilhações, podem se vingar no ano seguinte. Ao mesmo tempo que há impulso sádico, há identificação masoquista”, explica. Segundo o estudioso, a palavra trote tem seu sinônimo mais aproximado ao de “violência”. Na vontade de mostrar para o mundo a aprovação no vestibular, com rosto pintado e cabeça raspada, fica difícil enxergar os limites. Em resumo, o que é brincadeira para uns é agressão para outros. “O rito de passagem para a universidade é importante, mas não precisa ser baseado em humilhações ou sofrimentos físicos ou psíquicos”, afirma. Ele aponta para a banalização da violência, pois práticas como raspar o cabelo, pintar o corpo e pedir dinheiro são vistas como forma de prestígio por conquistar um objetivo tão inalcançável para alguns. Essa banalização chegou a tal ponto que foi necessária a proibição dos trotes violentos no país. Projeto incentiva ações cidadãs As ações violentas comuns nos trotes universitários
fizeram com que a Aliança Brasil Universitário (www.aliancabrasiluniversitario.com.br),
formada pela Fundação EDUCAR DPaschoal, Instituto Faça
Parte e UniEthos, pensasse numa forma de incentivar a promoção
de ações cidadãs. Surgiu assim, em 1998, o projeto
Trote da Cidadania cujas primeiras ações foram na UNICAMP
e PUCCamp. No ano seguinte, com a morte de um universitário na
USP o assunto tornou-se ainda mais sério e o projeto ganhou repercussão
nacional. No Acre várias universidades aderiram a prática educativa. Na Uninorte, por exemplo, tanto calouros quanto veteranos passam pelo trote institucional, onde os alunos são convidados a doar sangue e participar de gincanas. No IESACRE, alunos foram “intimados” a doarem dois quilos de alimentos não perecíveis para as vítimas da alagação do rio Acre. Acesse o site e saiba mais: www.trotedacidania.com.br Casos de violência no primeiro dia de aula · Os calouros da Universidade Estadual do Oeste (Unioeste), de Cascavel, foram recebidos no primeiro dia de aula, nesta segunda-feira, dia 20, com trote violento. Mesmo a prática sendo proibida, os estudantes receberam uma espécie de ritual de humilhação. Segundo uma reportagem da segunda edição do ParanáTV, eles foram pintados e amarrados. Uma caloura do curso de Engenharia Agrícola da Unioeste, não identificada, ficou ferida e procurou a polícia. · A Polícia Civil de Franca deverá indicar quatro pessoas pelo trote violento que resultou em queimaduras no estudante Tiago Rosa Careta, de 21 anos, na última segunda-feira. Responderão pelo crime a garota que atirou a substância química sobre o rapaz, o veterinário que indicou o produto, o estudante que o adquiriu e seu pai, que fez a venda. Para o delegado Seccional, Maury de Camargo Segui, a princípio todos tiveram participação na ação e, por isso, devem ser acionados. Ele contou que pelas investigações tudo leva a crer que a substância causou as queimaduras porque sobre ela foram despejadas bebidas alcoólicas. · Ao resistir à tentativa de extorsão dos estudantes do segundo semestre de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) - que exigiram R$ 5 dos calouros, obrigando-os também a participar de brincadeiras pesadas e eróticas -, o calouro André Sampaio Silva, 19 anos, acabou sendo espancado por veteranos na última quarta-feira, no Instituto de Ciências da Saúde (ICS). Com o olho esquerdo inchado, sete pontos externos e dois internos na região da pálpebra, André está indignado com o trote agressivo e pretende entrar com uma ação judicial contra o grupo de estudantes e a universidade. O que pensam os estudantes “Eu sou a favor. É uma forma de interação. É importante porque os calouros passam a se conhecer. Eu tiro por mim: antes da minha turma não tinha trote e na minha turma houve, foi muito bom. Agora, eu sou a favor desde que não haja violência.” (Taís Cristina, 8º período de Direito da Ufac) “Sou contra, porque na maioria das vezes é muito violento, muito humilhante. Acho que tem que ser alguma coisa mais pensada. Uma festa eu acho uma coisa legal, a gente se adapta À faculdade melhor. Quando a gente chega na faculdade não conhece nada e ninguém diz nada.” (Ana Paula Paiva, 6º período de Geografia da Ufac) “Dependendo do trote, eu sou a favor. Se for só uma brincadeira e sem violência. É uma forma de integração dos calouros, que acabam conhecendo os veteranos e se adaptando melhor à nova realidade. Acho que desaa forma os alunos acabam se tornando mais abertos para novas amizades.” (Najara Carvalho) |
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