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Marcos Vinicius Neves * |
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O Acre Grande “Retrocedendo aos primórdios e acompanhando o curso das coisas até o fim, aprendemos os ensinamentos do nascimento e da morte. A união da semente e da força gera todas as coisas; a evasão da alma causa a mutação. Através disso podemos conhecer as condições dos espíritos que partem e dos que retornam.” (I Ching) Quando vim de muda para o Acre um ser de muita luz me avisou: Você vai encontrar um casal que vai lhe ajudar muito. O tempo passou e eu me esqueci do aviso. Afinal eu nada sabia do Acre e só podia me assombrar com a imensidão da diferença de tudo que eu, homem do sul, imaginava que fosse esse lugar. Logo no primeiro trabalho, uma pesquisa sobre o bairro Seis de Agosto, a informação: procure Seu Agnaldo Moreno que ele sabe tudo dessa história. Dito e feito, ele tinha um jeito engraçado de contar histórias, punha força em certas passagens, ria de si próprio em outras, exercitava quase sempre uma fina ironia que depois eu iria compreender como uma qualidade não só dele, mas dos acreanos. Encantei-me então. Tornou-se quase um vício, ao primeiro sinal de dúvida sobre acontecimentos complexos ou mal documentados da história do Acre, lá ia eu atrás de Seu Agnaldo. E nunca, surpreendentemente nunca mesmo, ele deixou de me receber com carinho, atenção e enorme disposição de contar tudo o que sua prodigiosa memória guardava a salvo do pó dos tempos e do esquecimento dos homens. E como nós rimos naquelas tardes em sua casa no alto da ladeira da Base, no local em que um dia funcionou a Usina de Luz da cidade. Na verdade, com aquelas conversas/entrevistas, Seu Agnaldo (tal como a antiga Usina) iluminava minha alma ignorante das coisas dos rios, das chuvas, dos barrancos, dos seringais, da política, dos poderosos e dos simples. Porque suas histórias eram, na verdade, assim. Histórias de um povo. Mesmo quando contava sua estreita colaboração com Guiomard Santos, Fontenelle ou quaisquer outros políticos de seu tempo, Seu Agnaldo nunca falava dos atos e fatos do poder simplesmente, ele admiravelmente narrava histórias dos homens frágeis e cheios de qualidades e defeitos que restavam por trás das histórias do poder neste rincão da Amazônia Ocidental. Mas não só, em suas memórias viviam, sem distinção de importância, governadores, senadores, intelectuais, seringueiros, mulheres das beiras de rio, escoteiros, carteiros, guarda-livros, seringalistas, aviadores, mecânicos, agricultores, viajantes estrangeiros, enfim toda a enorme e diversa malta de homens e mulheres que ao longo dos últimos séculos construíram esse lugar. Foi a partir de então que eu comecei a perceber que, para além da história tradicional do Acre, havia uma coisa que estava sempre presente em nossas conversas, uma coisa que eu teria que aprender antes de qualquer outra: um profundo amor pelo Acre. Um incondicional amor por essa terra aparentemente tão distante de tudo, tão isolada, tão pequena no mapa brasileiro, mas que sob a superfície oculta um Acre grande, rico, forte, lutador e vitorioso que aprendeu a defender desde que abriu os olhos nas margens de seu querido rio Iaco, no imenso seringal Guanabara (quase um país então). Com Seu Agnaldo aprendi então muito mais que a história do Acre. Aprendi a amar essa terra. Amar o rio, a floresta, a chuva, seus índios e seringueiros, seus homens e mulheres tão simples e tão sinceros. Como aprendi a me indignar com as muitas traições cometidas pelo governo brasileiro contra os acreanos, ou a reconhecer a imensa divida que nosso país tem para com esse povo que passou toda sua história lutando por seu direito mais essencial: decidir o próprio destino. Mais do que isso ainda, foi exatamente quando vivi momentos difíceis, daqueles em que tudo parece se acabar, que Seu Agnaldo Moreno mais me fortaleceu, iluminou com sua tranqüila sabedoria e impulsionou a seguir adiante. Toda a confiança que ele dedicou ao meu trabalho só revelou a completa impossibilidade de me entregar às fraquezas e abandonos humanos. E diante de tanta força e determinação só me restou seguir... Compreendi então que aquele casal que, tantos anos antes, haviam prometido que me daria a mão no novo destino que escolhi eram Seu Agnaldo e Dona Renilda (o tranqüilo, discreto e insuspeito alicerce deste homem tão vivo e vibrante) e me senti feliz e amparado como só pode sentir quem chega em casa e ai encontra seus pais. Mas nunca, desde que me entendo por gente, uma quarta-feira de cinzas se revelou tão cinzenta quanto esta em que recebi a notícia de sua partida Seu Agnaldo. Mas ainda assim o Sr., do alto de sua imensa generosidade, me reservou uma ultima alegria, porque sua carta não tratava de despedidas, mas de uma missão que espero estar a altura de cumprir. Só posso agora agradecer por ter tido a oportunidade de privar de sua amizade e revelar a imensa gratidão que sinto por ter conhecido através de seu verbo fácil, fluente e envolvente esse Acre grande, do tamanho de seu coração e finalmente admitir a minha sorte: conheci nesta vida um Grande Acreano. Meu mestre... seguirei aguardando o tempo em que haveremos de nos reencontrar... Obrigado... (Chico Pop, não esquecerei de ti, tampouco) * Presidente da Fundação Garibaldi Brasil |
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