COTIDIANO

Quando começa a vida?

STF faz julgamento histórico no país sobre um assunto em que igreja e ciência divergem


Marcela Barrozo

O início da vida humana tem momento exato? Qual seria? No momento da fecundação? Entre três e quatro semanas depois, quando começam os batimentos cardíacos? Na falta de um consenso sobre o assunto, o Supremo Tribunal Federal (STF) vai assumir um papel quase divino ao decidir hoje, em julgamento inédito, quando a vida humana começa, e isso pode decidir o futuro da medicina no Brasil. Nesse veredicto está embutido o avanço ou retrocesso da utilização de células-tronco em pesquisas científicas.

As células em questão são extraídas de embriões congelados há mais de três anos e com autorização dos pais. Porém, depois que o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles questionou a constitucionalidade da Lei de Biossegurança com base no argumento de que, se são embriões, logo possuem direito à vida, o debate sobre a questão se acirrou nas esferas da medicina e da igreja.

No Acre, o médico Marco Aurélio Pereira acredita que, apesar de o assunto ser controvertido, é de suma importância do ponto de vista da área da saúde. “É fundamental que seja autorizado esse tipo de tecnologia no Brasil. Vai contribuir muito para o avanço nas pesquisas para a cura de doenças como lesões neurológicas e o câncer”, afirmou.

Concepção - No entanto, a Igreja, qualquer que seja a denominação, se mostra terminantemente contra. “Nós acreditamos que a vida começa no momento da concepção e que o ser humano surge a partir da fecundação do óvulo seja dentro do útero ou de maneira artificial”, declara Henry Antônio Nogueira, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular em Rio Branco.

Segundo ele, a Igreja se baseia no que a Bíblia Sagrada afirma em pelo menos duas passagens: Jeremias 1:4-5 (“Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.”) e Salmos 139:14-16 (“Eu te louvarei porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.”)

“Podemos ver na Bíblia Deus se relacionando com pessoas ainda dentro do útero materno, e isso nos leva a crer que a vida do embrião é tão importante quanto a de qualquer um de nós. De maneira sensata, podemos então concluir que não podemos salvar a vida de pessoas doentes, cessando o direito de outra viver, pois a vida é um bem inviolável, pertencendo somente à vontade permissiva de Deus o viver e o morrer”, conclui o pastor.

A ciência – Na contramão de Henry, o presidente da Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas de São Paulo, Cláudio Cohen, acredita que nem o começo e nem o fim da vida têm momentos exatos. Ao contrário, ambos são processos. Segundo ele, a morte já foi determinada pela parada cardiorrespiratória do paciente. Hoje, esse conceito foi superado pelo de morte cerebral e, mais recentemente, pelo de morte encefálica.

“A gente não pode parar o progresso da humanidade simplesmente porque há um valor que pode estar sendo questionado pela Igreja...não é que você está matando alguém, se essas células-tronco seriam jogadas fora e se, ao invés disso, forem feitas pesquisas, isso me parece bastante coerente”, afirmou ele em entrevista para Agência Brasil.

Cohen prossegue dizendo que falar de células-tronco não é o mesmo que falar de embrião. “Assim como eu posso dizer os gametas, o óvulo e o espermatozóide um dia podem se tornar um embrião e depois ser implantados no útero, é tudo um processo”, diz.

Ele acredita que os ministros deverão votar pela continuidade das pesquisas com células-tronco embrionárias. (Com informações da Agência Brasil)

 

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