OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 


Saber guardar

Francisco Gregório Filho *

...por isso melhor se guarda
o vão de um pássaro do
que um pássaro sem vôos...

Encontrava-me deveras mobilizado. Movido por uma Casa de Memória. Visitara a Casa do Colono, que fica atrás do Museu de Joinville. Regressara ao hotel tomado de emoção. O coração palpitava, acelerado. Estivera viajando por mundos que não conhecera, naquela casa que guarda algumas vivências de uma época não tão remota. Ambientes com utensílios que remetem aos hábitos, às relações de afeto e às sabedorias daqueles colonos em terras catarinenses. Os sinais visíveis dos esforços e exercícios necessários desenvolvidos para driblar as dificuldades e o desconforto. A memória de um tempo e um povo, contada numa casa com seus compartimentos, seus acessórios e as referências reveladoras de presenças e ausências afetivas. Histórias contadas pelas peças encardidas e cansadas de uso, expostas e arrumadas na sala, no quarto, na cozinha, no banheiro, no quintal e na varanda daquela casa construída com madeira e coberta por telhas de barro. Comovera-me com a simplicidade de vida e a complexidade cultural apreendidas por meus olhos pousados em cadeiras, cama, mesas, panelas, fogão, vasos e nas cortinas de renda penduradas nas janelas.

Almoçara polentas fritas e risoto de frango com queijo. Comida bem-feita, saborosa e farta. De entrada, uma sopa de pétalas de rosas vermelhas servida por mãos delicadas e brancas. Do hotel, após algumas horas de descanso naquela tarde de uma sexta-feira, retornaria à Universidade de Joinville para concluir uma oficina de contadores de história com um grupo de profissionais de diferentes áreas.

Soube, logo no início da semana, quando começara a oficina, que uma das participantes do grupo, uma professora, era mulher do radialista que apresentava, numa das rádios locais, um programa de variedades dos mais ouvidos. No transcorrer da oficina, aquela professora viera conversar comigo sobre seu desejo de contar histórias pela rádio. Sugeri, então, que apresentasse a proposta a seu marido e, quem sabe, ele a convidaria para a realização desse desejo em seus programas. Os olhos da professora brilharam. Seus lábios cobertos de batom vermelho-vivo abriram-se num sorriso largo e estonteante. Era alta, clara, cabelos longos louros, olhos castanhos brilhantes, elegante e reservada. Bonita essa mulher professora-contadora de histórias.

Levara, então, a idéia ao marido, que não gostara nem um pouco. Arranjara alguns motivos para a não concretização do interesse da mulher e ainda comentara que sua voz era imprópria para os microfones. Eu a havia observado e gostara de ouvir aquela professora contando histórias. Uma voz bem articulada, aveludada, envolvente e possante ela decerto possuía.

Pensei no que teria levado seu marido a rechaçar a idéia de sua participação no programa. Algum outro motivo, oculto, o fizera agir daquela forma? Voltara a mulher a comentar, entristecida, sua decepção com a atitude do marido. Lembrei-lhe, então a possibilidade dela produzir as sessões de histórias, e o próprio marido narrá-las. De súbito, seus olhos arregalaram-se: seria interessante a proposta, e certamente o marido locutor toparia executá-la. Enganara-se. O homem apresentador de programa de rádio não se entusiasmara e até argumentara que o projeto iria desconcentrá-lo e atrapalhar sua audiência.

Percebendo a esposa do locutor cabisbaixa, tentei animá-la, sugerindo que colocasse em prática um processo de sedução ao marido, contando-lhe histórias ao pé-do-ouvido, à noite para adormecê-lo; quem sabe lograria sucesso na investida e o sensibilizaria para a idéia.

Recentemente recebi uma caixinha de doces acompanhada de um cartão afetuoso com notícias das contações de histórias que a professora vem desenvolvendo em escolas, bibliotecas, centros comunitários e hospitais em toda a região de Joinville, cidade situada num vale do nordeste de Santa Catarina e que me deu a sensação de estar abaixo do nível do mar. Pois bem, a professora ainda não conseguiu conquistar a simpatia do marido, mas encontrou uma alternativa para a realização do seu desejo: contar histórias nas rádios comunitárias e nos sistemas de som instalados nos arraiais das redondezas da cidade. No cartão que recebi, a professora escreveu com sua letra o que as suas amigas já me haviam dito durante aquela oficina: “Marido não serve para nada.”

Escrevi de volta a essa mulher com muito cuidado, sem saber o que exatamente dizer. Enviei-lhe uma cópia do poema im Guardar de Antônio Cícero publicado no Livro Guardar da Editora Record.

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e se declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

* Contador de Histórias

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de junho de 2005
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