OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


O passeio da lua

José Augusto Fontes

Minha filha Gabriela, que neste início de noite está com pouco mais de três anos de idade, olhou pela janela do carro e disse que a lua estava passeando no céu, azul, azul. Ela já tem aulas de inglês na escola infantil e disse “blu, blu”, referindo-se à cor blue do céu acreano, que hospedava aquela lua grande e faceira. Fui parando o carro no semáforo e dei uma olhada, mas não percebi bem o passeio, alheio, distante. Olhei diferente dela, não vi o perto da lua e seus arredores, o céu que vi parecia estacionado, não alcancei a pureza do recado. Mas idéias me pegaram.

De volta à terra, dei os olhos para o farol, que logo estaria verde, deixaria chegar em casa e botar telhado na vista. Minha atenção queria passar adiante, dei um sorrisinho de agrado. Chegando em casa, depois de ler, escreveria algumas linhas, depois a internet e o sossego. Indo assim, pensei no que li em A Morte de Artêmio Cruz: “quando ambos sabem que bastaria uma palavra e apesar disso se calam, quem viverá nesse silêncio?”. Igual ao livro do Carlos Fuentes, o passar dos dias é como um renovado passeio. Às vezes, a gente descuida e pensa mais em ir do que em sentir.

Idéias me pegaram, logo no cruzamento seguinte. Lembrei de quando minha filha Laura, que hoje tem quinze, mas na ocasião tinha treze anos, abriu ainda mais os grandes olhos e, surpreendida, preocupada, me disse que a televisão mostrava um céu escuro, cheio de mísseis, mostrava que a guerra no Iraque havia começado. Acho que disse a ela que ficasse calma, que aquilo não nos alcançaria, como se dissesse que aquele céu na tevê era distante para cair sobre nós. Ela, fazendo-se entender, disse: – Pai, não é isso, é que vai morrer gente! Também aí, escapou-me o recado.

Carros passam, nós passamos. Dirijo e escuto Belchior:“eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais ... a minha alucinação é suportar o dia-a-dia ... amar e mudar as coisas me interessa mais...”. As ruas vão adiante de nós, dirijo o pensamento de volta. Velhas guerras continuam, do céu não caiu boa nova redentora sobre tantas ambições, mas há a lua passeando. Mudar as coisas seria como remodelar a ilusão, mas amar é interessante, enfeita o dia-a-dia. Lembrei de O Rappa: “coladas no chão as sombras mexem, pedidos e preces viram cera quente”.

Acelerei as idéias, as janelas do carro mostravam a rapidez do mundo, estamos passando. Minha rede me esperava, alguns livros, uns novos, outros nem tanto, futebol na tevê, novidades na web, tudo segue, preciso escrever sobre isso. Hoje não é dia de sair, os olhares compridos, a música da noite, ficam para outro amanhã. Já estacionei, a varanda coberta não dá acesso à lua, as janelas para o mundo serão telinhas. Depois de um dourado frito, quem sabe, um creme de manga, mais adiante, o colo, confissões, outro prazer. E só depois de tudo, como um passeio que pede retorno, entregar-se ao sono.

Aqui, em nosso lugar simples, quase uma clareira nas matas, quase um esquecimento, sem grandes aglomerados, apreende-se a ver beleza, dignidade, satisfação, em pequenas coisas, simples carinho. Como o Derek, meu filho, agora com 16. No começo deste ano, voltando de carro do Ceará, a gente lembrava de lugares bonitos, agradáveis, paisagens diferentes. Já querendo chegar, e querendo muito, ele pediu para desligar o ar, abriu a janela do carro, respirou, e disse que era tudo muito bom, mas ele queria mesmo era a cidadezinha dele, a casa, rever nosso lugar: - nosso açaí é o melhor, disse ele.

Saber o próprio lugar faz parte do passeio. Idéias me pegaram e alcancei o recado deles. Daqui a uns dias, vou pescar jatuaranas, andar nos rios e matas. Noutra hora, vou rever o mar, andar em cidades maiores, percorrer estradas. Os meninos estão vendo, notando. Vou aprendendo com eles, preciso melhorar, olhar como eles. São rápidos e já percebem que as coisas simples são as melhores, as mais fáceis de querer e conseguir, sem grandes planos, sem ambições, vendo, como só agora aparento conseguir, o passeio da lua, as outras faces do céu, dos homens, das idéias.

Uma boa face do céu é possível ser vista lá dentro do mato, na escuridão da noite de sons peculiares, no meio das estrelas várias, que lá aparecem em número muito maior e se mostram em um alto mais próximo, logo depois do cume das castanheiras, um pouco depois, mais adiante, mas quase perto. Há um céu assim agradável e azul, que vi lá no mato, por trás das samaúmas, na beira de algum igarapé que já nem lembro, com uma lua grande passeando, que vi da minha rede, embaixo desse céu enorme que existe na floresta, maior e mais azul do que os outros céus, também azúis.

Idéias me pegaram sem volta, sem habilitação para trafegá-las. As ambições e complexidades que nos cercam, a gente vai passando por elas, vai deixando pelo caminho. O querer simples é melhor. Há um ou outro modo de olhar, que apreende tudo com mais jeito. Dá gosto ver a lua passeando no céu, que por aqui é bem azul e se apresenta mais perto. Os meninos alertam para o que está além da insensibilidade do cotidiano. As janelas até podem ajudar, basta olhar como eles. E assim, também das cidades, dos outros lugares, no meio de tudo, é possível alcançar o recado. E entender o passeio.

* jafontes@osite.com.br

 

 
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Rio Branco-AC, 5 de junho de 2005
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